Uma simples saudade

Em seu íntimo temia não saber amar.

Sempre duvidou que soubesse o que é o amor, apesar de acordar todos os dias desejando por ele.

Agora, deparava-se com um sentimento estranho.

Um sentimento bonito e genuíno, ás vezes bom, outras dolorido, mas ainda assim bonito. Mas também estranho.

De uns tempos pra cá se pegou pensando demais em alguém que já passou por sua vida, e que hoje não tem ideia se vai voltar.

E de repente saber que pode nunca mais voltar a vê-lo começou a doer.

Será amor ou uma simples saudade?

Nesses oito anos que se passaram, sempre que se lembrava dele, era para contar algo engraçado que aconteceu, um comentário qualquer que marcou uma época boa, ou do carinho que sente por ele mesmo distante, mas nunca foi do jeito que tem sido desses tempos pra cá.

Ela sempre soube que o prazer em falar dele vinha desse carinho, e que ele com certeza é uma das poucas pessoas que se tornaram memoráveis e eternas em sua vida, mas ainda sim, agora é mais intenso do que antes, tudo parece diferente.

Os pensamentos agora são cheios de dúvidas e uma vontade imensa de voltar no tempo para reviver as conversas longas e cheias de afinidade que tinham. Reviver o tempo que passavam no heliporto do prédio admirando a cidade sem precisar trocar uma única palavra que fosse. Era fácil, confortável estar assim perto dele. E só fazia sentido com ele.

Gostaria de poder ver de novo aqueles olhos intensos e sempre fixos que faziam os seus fugirem para qualquer distancia segura.

Até hoje é impossível impedir o sorriso que surge ao lembrar todas as vezes que praticamente a obrigou comer a comida dele, e ela comia, porque sabia que isso era sua forma de dar carinho, cuidado e atenção á ela.

Como ela adorava isso. E daria tudo para ter isso de novo.

“Como teria sido se as coisas tivessem saído diferentes?”

“Ah, você está louca. Esse sentimento não pode ser verdadeiro. Você conviveu com ele apenas alguns meses, depois anos sem nem ouvir falar em seu nome, como pode achar que talvez isso signifique que é amor¿ Sua carência tem te levado a deduções extremas e absurdas.”

“Mas e se for?”

Já ouviu falar de pessoas que passaram anos guardando um sentimento até se reencontrarem e finalmente permitirem se amar. E também há aqueles que até encontraram com quem dividir a vida, mas que nunca esqueceram aquele alguém especial de outrora.

“E porque isso não pode estar acontecendo comigo agora?”

O fato, é que pensava cada dia mais naquele rapaz de olhos penetrantes e jeito tranquilo, e nas diversas discussões sobre quem era o personagem mais poderoso de seus desenhos favoritos da infância.

Não pode, nem quer tirar da cabeça, o jeito inquieto que mexia nas chaves e o olhar perdido, talvez nervoso, antes de perguntar: “Se eu não fosse noivo, você teria ficado comigo?”

E o jeito que levantou o olhar, e a encarou procurando uma resposta.

E aí a memória se apaga. “Droga! Por que não consigo lembrar o que respondi?”

Talvez não tenha respondido nada, ela tinha o dom de disfarçar, mudar de assunto e fingir que tudo não passava de uma brincadeira para sair da situação ilesa. Porque o que ela tinha era medo.

Como as coisas teriam sido diferentes se fosse agora, ela não teria tanto medo assim, porque hoje, mesmo ainda cheia de dúvidas e inseguranças, sabe lidar um pouco melhor com as coisas do coração, podia quem sabe até, arriscar responder a verdade.

Ela já se apaixonou nesse meio tempo.

“Mas será que talvez tenha sido por isso que nunca deu certo¿ Porque venho procurado por ele em todos os outros inconscientemente?”

Os dias passam, ela até consegue se interessar por alguém aqui, outro rapaz ali, mas seus olhos insistem em procurar por ele nas ruas da cidade, dentro do metro ou em um shopping qualquer e mesmo assim, nunca nenhum sinal.

“Isso é tão injusto!”

“Com o sucesso das redes sociais, com a internet facilitando os encontros e reencontros pra tanta gente, porque ele, justo ele não tinha nenhum sinal, de jeito nenhum?”

A sensação que tem é que sempre esteve esperando por ele e ainda está.

Ela só quer saber como ele está.

Se, continua do mesmo jeito que ela lembra.

Se, é feliz e se lembra dela de vez em quando também.

Outro dia, esteve no bairro onde se conheceram, era quase surreal estar ali depois de tanto tempo, mais ainda, estar ali sem ele, sem saber se ele deixou de frequentar aquelas ruas como ela, ou se estava mais perto do que podia imaginar.

Sua imaginação começou a criar em fração de segundos, enquanto o procurava a cada olhar para dentro de um prédio ou de uma lanchonete, diversas formas de encontrá-lo, o que falariam, o que sentiriam ao ver um ao outro, até mesmo finais diferentes para aquele encontro sua emoção tinha produzido.

Em um deles, ele era um cara casado e feliz, que amava sua mulher grávida de seu primeiro filho e que seu reencontro não passou de um até logo a uma conhecida de anos atrás.

No seu preferido, ele parecia tão emocionado como ela, podia ver em seus olhos, que sempre sentiu a mesma falta dela e que precisava abraça-la para ter certeza de que aquele encontro era real, e que não importasse como suas vidas estariam, dali em diante não deixariam jamais de manter contato, e então, quem sabe, o amor de fato pudesse acontecer.

Será isso o amor, ou uma simples saudade?

Diadema, 12 de junho de 2013.

Por Aline Matos

Esse texto e muitos outros podem ser encontrados no site: www.polaroidscotidianas.com

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