O Vale dos Adultos

Num papo da madrugada com a amiga que mora longe, mais uma das minhas amigas que há pouco entraram nos seus 30 anos, lembrei de alguém que se afastou. “Ela se afastou de mim porque eu não concordava com a visão fantasiosa das coisas que ela tinha. E, tenho certeza, que me vê como alguém negativa”.

Quando a gente avança algumas casas para dentro dos 30, como mulher, você começa a navegar um oceano mais turbulento. Ainda mais quando possui muitas responsabilidades, como manter as contas da família paga, cuidar de pessoa doente e etc. Para as outras pessoas, que ainda podem viver adolescência tardia, realmente, a minha visão de vida parece péssima.

Não tenho também alguém para dividir as contas, o apartamento, que me dê presentes, eu me dou presentes, pago as contas, estou sem apartamento. Também planejo muito bem meus estudos e viagens, uma vez ou outra no ano, nada que possa faltar caso aconteça algum acidente. Sim, eu poupo pra se minha mãe precisar de algo urgente. Acho que é parecido com ter filhos.

O mar das responsabilidades acabou me trazendo aqui para esse lugar, O Vale dos Adultos. É um pouco turbulento e solitário aqui, você nunca sabe o dia de amanhã. Caso você queira comer e se vestir é bom acordar cedo, sair de casa, melhorar o humor e tentar manter-se calada. As regras são um pouco cruéis, incluem uma total falta de proteção, ninguém vai te dar coisa nenhuma de graça, de um jeito ou de outro você acaba descobrindo o preço de tudo.

Minha amiga da conversa da madrugada, que a recém entrou nos 30 (lembrem, é importante) disse que uma pessoa fica muito pesada quando é monotemática. Não é meu caso, ela sabe bem. Eu falo muito e sobre tudo, tenho umas três profissões, vivo dando dicas de graça pra todo mundo e muita gente usa o que eu falo e depois se volta contra, mas até com isso acostumei.

Então, o que acontece? Bom, as pessoas se afastam e amizades acabam reciclando durante os anos, a gente vai mudando, a visão de mundo não encaixa mais, você já não troca, só entra em conflito. Porém, como eu disse a amiga da conversa: “assim como torci pra você fazer 30 anos eu torço para que você supere essa fase GOODVIBES”. Porque todo mundo DEVIA.

O que é ser Goodvibes? É uma tendência escapista que a gente tem antes de virar membro do Vale dos Adultos. Você ainda não é responsável por nenhum outro ser humano, nem paga todas as suas contas, portanto, fica muito óbvio de que o mundo é um lugar maravilhoso do qual você deve desfrutar. As outras pessoas, tipo eu, são um peso, é melhor se afastar delas. Tipo de gente que eles convidam para um final de semana aplaudindo o sol na praia e vai lembrar que tem de pagar o boleto na segunda.

Eu já fui Goodvibes, qual é? Morei em Alto Paraíso (uso isso para atestar que nem sempre fui essa pessoa adulta e já fui hippie e irresponsável). Mas, digo aqui do varandão que dá pro precipício do Vale, essa fase passa. Não é substituída por angústia e melancolia, como vocês, adolescentes tardios, pensam. A gente aprende a conviver com uma coisa muito relativa chamada realidade, mas pode ser traduzida como “mundo das obrigações”. Sabe, vocês são SIM obrigados.

É um exercício espiritual de primeira constatar que não existimos sozinhos no universo, que pessoas dependem do seu bom desempenho profissional e sagacidade de ganhar dinheiro para sobreviver numa sociedade capitalista. Também precisam que você passe alguma confiança, você vira uma interprete de primeira, passando algum senso de segurança para a comunidade.

Então, assim, quer se afastar de mim porque eu pareço real demais? Adulta demais? Pois, muito bem, estou aqui guardando a sua vaga de estacionamento no condomínio do Vale dos Adultos. Mais dia, menos dia, todo mundo acaba aqui. E, ainda bem! Ser eterno adolescente pode ser perigoso. E, no final do dia dá alguma satisfação saber que finalmente você paga suas contas todas, do jeito que for, você acertou o passo.

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