Uma vida pra não caber.

Começou quando eu tinha 9 anos. O aumento de peso, as mudanças hormonais, o lar desfeito. Fui desbravando o mundo ao mesmo tempo que tentava juntar os pedaços.

O ônibus pra escola às 6h. Subir a Ramiro Barcelos com o som das rodinhas da mochila. Vencer uma bruta lomba até chegar ao colégio. Encarar minha vida desmantelada ali na frente daquele público.

Na pré adolescência queremos ser aceitas, seguir um pouco a maré pra que o resto das pessoas te deixem em paz. Eu achava que era a única com problemas. Tinha vergonha. E comia.

Vieram as roupas de grife, as marcas que meus pais se esforçavam em pagar para que eu me incluísse. Nesse forçar de barra nada servia. Eu não encaixa nesse mundo.

Assim, desse jeito, recordo de tantas outras situações nas quais achei que não cabia. Nunca pertenci a esse ambiente, sofri desde sempre pra satisfazer as expectativas de alguém que não eram as minhas.

Que vida bem triste que eu tinha. Repleta de calças que não fecham, blusas que marcam, choros humilhados. Pra quê? Pra quem? Não escolhi. Não é meu. Devolvo.

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