Não tem pra onde correr

“Ah, o importante é que a raiz é lisa”, disse uma criança do meu núcleo familiar sobre os lindos cachos da minha sobrinha de dois anos. O que veio depois foi uma mistura esquisita de risadas e constrangimento. Mas a maioria prefere achar que é besteira, até engraçadinho. Sempre é mais fácil.

Veio um filme na minha cabeça, a infância, os padrões e, na sequência, aquele velho esforço de fugir da vitimização. Ixi… É trabalho pra vida inteira, companheiros. Não tem pra onde correr.

Tudo tem a ver com falar ou não falar (sobre). Na minha vivência, não falar sobre cor, raça e diferenças foi uma baita perda de felicidade. Gastei muito tempo procurando beleza e identidade quando estava tudo ali. Nasci em uma família miscigenada, quase sempre eu e meus irmãos éramos "peças únicas" na escola, nas rodas sociais, mas lá em casa não se conversava. O preconceito cala. Hoje ainda estamos correndo atrás do prejuízo. Não tem pra onde correr.

Mas vamos voltar ao “frizz”. A afirmação despretensiosa da menina que cresceu numa escola suíça diz tanta coisa sobre preconceito. Sobre a forma como ele nasce e cresce dentro de nós e nos acompanha a vida toda.

Digitei a palavra “frizz” no Google. O que veio de bate-pronto, listo aqui:

  • 12 DICAS de como acabar com o frizz
  • 8 coisas que você precisa saber para acabar com o frizz
  • Cabelos com frizz: como combater a raiz arrepiada

Vai se repetindo… E, antes que você diga que “raiz crespa” e “frizz” são coisas diferentes e nada tem a ver com preconceito, racismo… Te digo: não são! E dependendo do meio social em que você vive esses padrões vão sendo reforçados e o preconceito ganha mais violência. O frizz está associado ao crespo, que está associado ao negro, àquilo que não vem primeiro plano na vitrine. Não vem associado a algo bonito. É uma masturbação estética que vira verdade, padrão. E desensinar, pessoal, é missão azeda. Bom é ter crianças que crescem, desde a barriga da mãe, convivendo ou, ao menos, entendendo que somos diferentes e que isso é massa. Não tem pra onde correr.

Nem vou aqui evocar Nelson Mandela e sua frase célebre, porque é claro que ninguém nasce preconceituoso. Ou você ensina seu filho, de preferência sendo exemplo, de que raiz crespa também é legal ou ele vai achar toda menina que não for “lisa”, feiosa. Ou você mostra pro seu filho que pele escura é super bonito (também) ou ele vai ser racista, sim. E quanto mais alta for a sua classe social, maior fica o desafio. Porque aí a minoria fica mais minoria ainda e aí chegamos ao nível do exotismo. Ah, beleza exótica… Te renego. Não tem pra onde correr.

Na Ilha de Moçambique, fazendo as tranças usadas pelas mulheres macua. Gravação para o programa "Nova África”.

Existem sim diferenças (muitas!) no tipo de preconceito que se enfrenta, a depender de alguma nuances… O quanto se é crespo, o quanto se é escuro, o quanto se é diferente e, finalmente, do ambiente em que essas diferenças são expostas. No continente africano, onde passei mais de um ano fazendo reportagens, ninguém me achava “negra”, não entendiam quando eu mesma afirmava tal origem. Afinal, meu tom era um pouco mais claro e o cabelo com uma raiz diferente das delas. E elas queriam meu cabelo. Na Ilha de Moçambique cheguei e experimentar as tranças usadas pelas mulheres Macua. Foi uma diversão e aproveitamos para trocar ideias sobre beleza negra. Foi a primeira vez que fiz isso. É difícil, pessoal. Mas ajuda muito falar sobre o assunto. E precisamos falar do assunto porque a criança do meu núcleo familiar — que fala três línguas mas não vivencia a palavra diversidade — não pode falar nem achar que “o importante é ter raiz lisa”. Entende? Não é justo com ela.

Ah! Isso não é um ultimato para sairmos todos crespos por aí. Podemos fazer o que quisermos, o que nos faz sentir bem. Mas com reflexão e consciência a vida fica muito mais bacana. A gente para de se enganar. Sou uma das poucas repórteres de televisão aberta que usa os cabelos crespos. Não me sinto melhor por isso, não! Confesso que o babyliss ainda é um parceiro que deixa os cachos mais “ajeitadinhos” para algumas ocasiões. Agora, da chapinha, me orgulho de nunca ter chegado perto. Me salvei.

Não estou falando de cabelo. Ainda assim, hesitei muito, pensei muito se valia a pena abrir essa espaço de conversa aqui. Sou jornalista, mulher, negra, sensível (por demais) e espero contribuir pra algo melhor. Então aqui começa essa empreitada… A partir de agora vou dividir com vocês experiências presentes, passadas e também devaneios futuros de alguém que já se sentiu (mais) diferente.