Oi Cíntia. Só queria te dizer que falimos.

No dicionário falência é sinônimo de fracasso, ruína, insucesso… Ainda parece pouco para definir a sensação, mas foi essa palavra que usei para falar sobre um garoto de dez anos, morto pela polícia numa perseguição na semana passada. Levou um tiro na cabeça. E aqui pouco importa o contexto. Dez anos.

O que eu fazia aos dez anos? Pensei comigo assim que soube da notícia pelas agências. Fase feliz, absolutamente. Brincava muito, já imaginava o primeiro beijo nos garotos da escola e, no caminho de volta, torcia pra que minha mãe tivesse feito pudim de leite. Minha sobremesa predileta até hoje e que sempre está garantida nos meus aniversários. Obrigada, mãe.

Sinto muito por você, Cíntia. Queria ser mãe para me sentir à altura de falar sobre essa dor. O Italo, seu filho, tinha essa idade quando morreu durante uma fuga na última quinta-feira, certo? Se meteu em mais um roubo e, segundo a polícia, saiu do carro atirando. Não importa, Cíntia. Nenhuma criança podia morrer dessa forma. Nenhuma criança quer morrer dessa forma. Não é possível.

Não sei se conforta, mas eu e um monte de gente também se indignou que tantas pessoas tenham gritado “bem feito”. Olha, são tempos cada vez mais esquisitos.Vagamos por aí como fantasmas em busca do espírito que nos fazia humanos. Não sei se te interessa saber que na última sexta-feira eu e vários amigos de redação passamos o dia abalados pelas manchetes. Impotentes e falidos.

Quem diz que seu filho mereceu morrer dessa forma já foi arrebatado pela desesperança. Quantas horas você esperou no IML para poder vê-lo uma última vez? Quase cinco horas? Entendi.

Olha, não estou aqui pra passar a mão na cabeça do Italo, mas pra dizer que a falência é nossa. Não sei o que estaria fazendo aos dez anos se nunca tivesse tido uma casa, uma mãe presente que você não conseguiu ser. Não me sinto capaz de julgar. Alguns colegas jornalistas disseram que ele chegou a morar dentro de uma van, verdade? Neste momento só consigo me lembrar do pudim de leite na volta do colégio.

Compartilho abaixo uma reportagem publicada pela Folha no final de semana com um bom retrato do ciclo perverso que cercou esse menino desde o nascimento. A Corregedoria prometeu investigar o caso.

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/06/1778241-sem-lar-crianca-morta-em-perseguicao-da-policia-ja-dormiu-ate-em-van.shtml