Reformule-se como ser humano antes de formular-se politicamente.

Nossa sexta-feira começou sem ônibus, sem metrô, sem trem e sem aulas. Hoje, 28 de abril de 2017, é o dia que o Brasil foi parcialmente paralisado, a internet tomada por comentários e reportagens e os debates divididos entre pessoas pró e contra a manifestação. Totalmente válido, é claro. Em uma democracia, é necessário que dois ou mais pontos de vista existam e divirjam para que haja debate e troca de argumentações de forma respeitosa e saudável.

Quando falamos de lei, mais especificamente da lei de nº 7783, — e já deixando claro que não sou graduanda de direito, tampouco advogada e profissional da área, apenas me interesso pelo estudo da legislação e das normas vigentes do nosso país — que é a lei que decorre sobre o direito de manifestação e de greve, a definindo e regulamentando, analisamos alguns pontos importantes:

Primeiro de tudo, aos direitos:

Art. 1º É assegurado o direito de greve, competindo aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-lo e sobre os interesses que devam por meio dele defender.

Art. 2º Para os fins desta Lei, considera-se legítimo exercício do direito de greve a suspensão coletiva, temporária e pacífica, total ou parcial, de prestação pessoal de serviços a empregador.

E aos deveres:

Art. 6º — § 1º Em nenhuma hipótese, os meios adotados por empregados e empregadores poderão violar ou constranger os direitos e garantias fundamentais de outrem.

§ 3º As manifestações e atos de persuasão utilizados pelos grevistas não poderão impedir o acesso ao trabalho nem causar ameaça ou dano à propriedade ou pessoa.

A algum tempo, muito vem me incomodando à respeito de publicações que acompanho de colegas e desconhecidos à respeito de vandalismo, depredação e violência nas manifestações e atos contra o governo e/ou medidas tomadas por ele. Me parece que para essas pessoas que defendem esses tipos de atos criminosos e totalmente animalescos, se eu possuo um ideal e quero lutar por ele, absolutamente toda e qualquer forma de chamar atenção se torna necessária e válida para tal.

Por mais que certas manifestações e posições batam de frente com meus ideais e valores tanto políticos quanto pessoais, eu ainda — e sempre — defendo a liberdade de crença e expressão política de qualquer pessoa, que tanto concorde quanto discorde de mim. Contudo, quando vejo imagens como essas que estão vinculadas na postagem não consigo ver tais atos como válidos, pois considero clamar por ideais e mudanças sociais desta forma uma posição totalmente implausível.

Ninguém melhora o transporte público queimando um ônibus, ninguém melhora o SUS (Sistema Único de Saúde) invadindo hospitais e AMA’s, assim como não se melhora a educação de um país invadindo e ocupando escolas, depredando patrimônio público — como já vimos em ocupações de escolas da cidade de SP.

Meu ponto de vista se baseia em: Se há um descontentamento da população com uma área específica ou com um posicionamento específico do Estado, é válido protestar, porém assim como sempre dizemos que em um debate aquele que primeiro ergue a mão para agredir o outro perde a razão, assim vejo também manifestações que se utilizam de atos de depredação e violência em prol de um ideal pré-estabelecido.

Assim como quem torce pro político que não votou, ou que não gosta, fazer um mal governo e uma má gestão torce contra si próprio e contra a sociedade como um todo, o mesmo faz aquele que se utiliza de meios como esses para legitimar um ato manifestante. Deixando a parte ideologias, posicionamentos e motivações, estamos cada vez mais considerando como aceitáveis atitudes totalitárias que nos tornam mais parecidos com animais do que com seres humanos — sem ofensas aos animais.

A sua e a minha voz, uma vez que não-satisfeitas com determinada situação, devem e precisam ser ouvidas. Porém, nos é necessário o bom senso para que nossas atitudes sejam sempre racionais, ao ponto que, como previsto em lei, “(…) não causem ameaça ou dano à propriedade ou pessoa.” Não percamos nossa humanidade e nossa racionalidade em troca de uma causa — independente de qual diretriz ela siga. Fanatismo é ruim para ambos os lados, e sábio é aquele que sabe defender seus ideais sem ferir a possibilidade do outro de defender os seus também.

Ao protestar, prefira sempre o megafone do que dois pés certeiros no peito.

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