Tempo, links e receitas

Reparei, enquanto adicionava mais um ou dois filmes na minha lista da Netflix, que quanto mais ela cresce, menos eu vejo o que adicionei desde o início da minha assinatura. Comentando com uma amiga, ela ressaltou o fato de além da lista de filmes, acumular incessantemente links de receitas no Facebook. Surgiu então nada mais do que empatia e um certo alívio por não ser só comigo.

Juro que todas as vezes que vejo uma receita nova na timeline, imagino o quanto incrível esposa cozinheira serei cozinhando aquilo. (importante: cozinho porque gosto, feminismo aqui impera, não sou obrigada, mas precisamos comer nessa vida). Porém, todo fim de semana se encerra sem que uma única receitinha tenha sido feita (marido chora).

Toda semana, enquanto incluo coisas novas nas minhas listas, penso que no fim daquela semana farei todas aquelas tarefas: lerei todos os livros faltantes, passarei todas as receitas para o caderninho, verei todos os filmes. Ledo engano, caro leitor(a). Não o faço. Não tenho tempo suficiente para a procrastinação total — lê-se preguiça — e as tarefas da vida social. Em outubro, veja só, não há um fim de semana sequer que eu não tenha um compromisso social e por mais que ame meus amigos e os amigos do meu marido, ‘água demais mata a planta’.

E a gente está numas de viver correndo, de correr vivendo que no fim das contas falta tempo para gente viver vivendo, procrastinando, dolce far niente (já falei dele aqui na news). E me deparar com o fato de que minha vida — e a de muita gente — tem se resumido a guardar coisas para serem consumida depois, para um momento mais calmo e conveniente, me deu angustia. Afinal, é um mundo de coisas legais esperando a gente para acontecer, e nós ali, sentadinhos no sofá esperando o play automático acontecer.

Merecemos o ócio sim, trabalhamos 8h por dia, 5 dias na semana e os nossos momentos mais produtivos não são usados com/para a gente mesmo, e sim, para sobrevivermos no capitalismo galopante. Mas não podemos ser mais um amontoado de links esperando para serem vistos, lembretes esperando para serem lembrados, receitas esperando serem pratos principais. Precisamos encontrar uma solução para que toda essa correria não nos soterre. Precisamos encontrar uma forma de sermos mais leves, cozinharmos as receitinhas, consumirmos nossos filmes, livros, tirarmos nosso cochilo no meio da tarde. Precisamos de uma maneira de nos libertarmos de todo esse corre-corre que só nos faz mais ansiosos, mais nervosos, mais dopados, mais iludidos.

*Texto publicado originalmente na Devaneios News em 28/09/2016.

Like what you read? Give Aline Netto a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.