Sim pai, eu tenho depressão.

Aline Oliveira
Aug 22, 2017 · 5 min read

Durante meses fiquei planejando escrever sobre isso, criando coragem e imaginando todas as formas possíveis e imagináveis de abordar esse tema. Muitas pessoas que já fizeram parte da minha vida talvez não saibam pelo o que passei e passo diariamente; muitos não percebem, mas não os culpo, depressão é uma doença silenciosa.

Meus pais só perceberam mesmo no dia do ato, porque até então era só uma fase da adolescência. Eles não tem culpa também, não quer dizer que foram pais ausentes, mas sim que não estavam preparados para lidar com tal questão. Ninguém nunca está. É difícil acreditar que uma menina como eu tem depressão, muitos alegam “Mas você é tão alegre, tão brincalhona, nunca iria imaginar!”. A risada é um modo de disfarçar a tristeza. Não vou afirmar que todo mundo que sorri na verdade é triste, estaria sendo extrema demais. No entanto, os maiores comediantes enfrentavam algum problema psicológico. Fausto Fanti, Jim Carrey, Chico Anysio e Robin Williams, são exemplos disso. “ Cada pessoa engraçada esconde uma alma torturada.” reflete o ator, personagem de inúmeros filmes cômicos, Williams.

De fato, sempre me senti bem fazendo os outros rirem, divertindo as pessoas e contagiando o ambiente. Procurava sempre tirar aquela energia ruim, aquele peso do ar. Mas isso me sugava. Estar alegre se tornou uma “necessidade”, tinha dias em que não estava no meu melhor estado mas sempre vinha aquela pessoa sem nenhuma má intenção e falava “Cade a Aline que eu conheço? Que ta sempre falando alto e causando por ai? Fazendo todo mundo rir?” E lá ia eu, passar pelo o que eu não queria para que os outros “não sentissem falta”. Mas eu também sou humana, sou cobrada diariamente e ás vezes não aguento a pressão, fico triste e cansada. Ninguém é de ferro.

Depressão nunca é do nada. Sempre existe uma causa. A minha foi nascendo aos poucos. Convivo com a depressão desde que me entendo por gente, mas ela é uma parasita hospedada em mim a pouco tempo. Minha mãe é depressiva, já nova a via sofrer com os maus dessa doença. Na época não entendia bem, achava que só estava triste, “uma fase ruim da mamãe, logo passa”. Ela vinha de época em época, uma visitante indesejada que afastava minha mãe de mim. Me matava por dentro ver ela horas chorando e não poder fazer nada, eu jurava para mim mesma, a pequena Aline, que um dia descobriria a causa do choro da minha mãe e acabaria com ela só para nunca mais vê-la mal. A causa acabou me encontrando, nos meados de 2016, último ano do ensino médio, pressão para o vestibular, escolher curso da faculdade, estudar, estudar, estudar mais um pouco, amigos, formatura e…relacionamento. Foi isso que me destruiu. Talvez eu nunca tenha conhecido o amor próprio (essencial por sinal), o que me fez ser dependente emocionalmente de alguém. Abri mão de tudo o que estava vivendo por essa pessoa, não me importava com a escola (afinal, já ia me formar mesmo, quem se importa?), faculdade? Já tinha decidido, se não fosse aquilo não seria nada, amigos? Não precisava, ele era tudo para mim. Totalmente dependente eu fui me perdendo.

O que acontece quando um copo esta pela metade, após você completar o restante, beber metade? Ele vai continuar na metade, certo? Isso que aconteceu comigo, eu procurei alguém para me completar, me preencher, ao invés de apenas me transbordar. Com toda a pressão que eu estava vivendo, após me afastar de tudo e de todos, brigas no relacionamento me desestabilizavam, para quem eu ia correr, se eu só tinha ele? Então eu me isolava e sofria em silêncio. Vivi um relacionamento abusivo, tanto da parte dele, quando da minha. Estar juntos fazia mal para ambos, mas nenhum tinha coragem de dar uma solução para aquilo. Estávamos nos destruindo e sabíamos disso. Para meus pais era normal, “coisa de relacionamento adolescente”, logo me ver chorando não era nada alarmante. Mas era meu parasita crescendo e se alastrando por mim.

As coisas só foram piorando, ideias incomuns começavam a aparecer na minha cabeça, chantagens emocionais eram mais frequentes, ameaças, impulsividade, desanimo e carência emocional. Já fazia quase um ano naquela situação, naquele relacionamento. As brigas só aumentavam cada vez mais a agressividade, atitudes mais extremas. Abusos psicológicos, situações que ninguém jamais merece passar. Até que veio o último dia bom. Aquele dia em que a gente até estranha, porque ta tudo perfeito, calmo, “normal”. Era sábado de carnaval, havíamos dormidos juntos e íamos para um bloquinho na Paulista. Bebemos, conhecemos pessoas maravilhosas, nos divertimos, até que de noite o inferno começou. Comecei a sentir ciúmes, ele começou a ser agressivo, discutimos, em um ato de impulsividade, eu bati nele. Ali terminou. O relacionamento, o respeito, o amor, e na minha cabeça, a minha vida. Fomos para casa brigados, acordamos estranhos, como se nada tivesse acontecido.

No outro dia, 26 de fevereiro, uma segunda-feira cinzenta, as coisas pareciam ir bem. Só pareciam. Após uma tarde até que normal, começa uma briga por WhatsApp que passam para ligações, gritos e um ponto final. Ponto final que eu não consegui aceitar, eu, a menina que era dependente, pela metade que precisava ser completada, não aceitava perder sua metade. Fui drástica. Não achava solução. Me culpava. Eu tinha feito tudo aquilo! Eu estraguei tudo. Só conseguia pensar nisso e não conseguia imaginar conviver com a culpa de perder quem eu mais amava (ou assim pensava). Em um milésimo de segundo a solução passou pela minha cabeça e eu acatei. Me joguei da varanda esperando o meu fim. Devia ter uns 4/5m. Lembro de estar no chão da rua, com muita dificuldade de respirar, eu chorava muito e ainda no lapso de loucura, gritava pelo nome de quem eu achava que era merecedor da minha vida. Lembro de ouvir o grito e o choro desesperado de minha mãe, os vizinhos saindo na rua ainda em choque, meu pai vindo correndo, chorando. Eu que nunca tinha visto meu pai chorar, sempre tão sério e durão, não conseguia mais entender o que estava acontecendo.

Meu pai, homem treinado, esqueceu tudo o que um dia havia aprendido. Estava desesperado, só queria me colocar no colo dele. Não se passou pela cabeça dele que me levantar seria pior. Após ser impedido, chamou a polícia. Em minutos inúmeras viaturas estavam por lá, além de bombeiros e ambulâncias. Eu causei toda aquela confusão, eu causei toda aquela dor. Não foi um dia fácil, não é minha memória favorita, mas é necessária. A experiência para mim foi necessária. Tudo o que eu passei e vi, foi uma experiência de crescimento. Fui colocada na ambulância e levada para um hospital que ficava do outro lado da cidade. Nunca fui tão maltratada na vida. A bombeira que me socorreu me tratou com tanto desprezo, me humilhou tanto, que acho que se eu tivesse a chance teria pulado da ambulância.

Passei ainda por poucas e boas, fiquei horas no hospital, fui internada em um “hospício”, onde tive as mais diversas experiências, conheci muita gente em situação parecida, me tratei, superei, tive recaídas. Mas acho que isso é uma continuação para outro dia, se me permitirem. O fato é, depressão nunca é levado a sério, em situações onde você precisa de auxilio, uma bombeira te olha na cara e diz “Você merece essa dor, você é doente, louca, quem mandou fazer isso? Tem que sentir dor mesmo”, é querida, eu senti, sinto até hoje, não física porque essa é a de menos, mas psicológica. Meus pais é claro que se culparam, aliás foram julgados por todos que os consideraram “ausentes”, mas onde essas pessoas estavam que também não perceberam meu estado? Depressão é silenciosa, vem sorrateiramente. Sim pai, eu tenho depressão e isso não é culpa sua.

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