Você vive ou só finge?

O sol nasce todos os dias…

Outro dia, eu tomava café numa padaria enquanto respondia e-mails e planejava o meu dia. Estava de férias, numa cidade que eu amo e minha única obrigação era curtir o dia, mas eu estava trabalhando online. Que mundo moderno esse, né? A gente vive conectado. Damos satisfação da vida o tempo todo, contamos todos os detalhes nas redes sociais, trabalhamos até sem perceber e dizemos ser felizes! Ah, era férias e eu tentava criar uma nova carreira! Ao invés de focar em Frida Kahlo e na exposição que eu visitaria, estava ali, falando de patrocínios, desafios, planos futuros. A cabeça estava a mil, quando a atendente trouxe o café e desviou minha atenção por um segundo. Bendita garçonete!

Naquela fração de segundo sorri para ela e ouvi algo que me chamou a atenção. Mudou tudo. “Você vive mesmo ou só finge?”, dizia o rapaz. Eu? Que pergunta é essa? Comecei a pensar, mas não, eu queria ouvir aquela conversa. Larguei o celular. Aquietei o pensamento e confesso que passei a ouvir com atenção a conversa da mesa ao lado.

Um garoto falava de uma viagem que fizera com o namorado e do sucesso que as fotos da viagem fizeram numa rede social. O amigo ouvia e questionava a importância daquela viagem para o casal. O garoto só queria falar da quantidade de curtidas que conquistou e dos invejosos de plantão. Já o amigo perguntava sobre a cultura do país, as pessoas que ele conheceu, as descobertas que fez e do quão divertido foi. O amigo insistia mas ele continuava falando das fotos. Até que o amigo se cansou e falou: “você não viveu o lugar. Você estava tão preocupado em postar, em ser popular, que esqueceu de viver. Você só pensou em tirar fotos e esqueceu do quanto sonhou com esse lugar, de tudo o que havia para sentir, para aprender, para viver”!

A vida passa muito rápido. Vivemos como se tivéssemos muito tempo pela frente e vamos postergando as coisas. Nos importamos mais com o TER do que com o SER. Amamos coisas e não nos importamos com pessoas. Vivemos no piloto automático sonhando com o dia em que seremos felizes. Fazemos mil coisas ao mesmo tempo e paramos pouco para observar, sentir, respirar. Qual foi a última vez que você parou para observar a vida? Qual foi a última vez que você conversou com alguém sobre o que sente? Qual foi a última vez que você abraçou de verdade? Sentiu de verdade? Amou de verdade?

Eu tinha uma exposição para visitar, um dia lindo para desfrutar e não conseguia parar de pensar. “Você vive ou finge viver”? O que eu estava fazendo da minha vida? O que eu estava vivendo naquele momento? E aquele problema gigante que eu estava escondendo? E aquele trabalho sem significado e sem tesão algum que eu estava fazendo? Qual o sentido de tudo aquilo? Qual deveria ser a próxima decisão? Quando viria uma nova mudança de vida? Resolvi me entregar ao que me faz feliz e parar de pensar. Vivi dias de felicidade plena e muitas descobertas!

Você realmente vive? Ou você finge que vive para agradar alguém? Um dia, me fiz essa pergunta e a resposta deixou um gosto amargo na minha boca. Eu tinha 27 anos, a idade em que os gênios incompreendidos morrem. Não, eu não era nenhuma gênia (confesso que isso me entristecia). Se eu morresse naquele instante, muitos sentiriam a minha falta, talvez fossem feitas algumas homenagens, talvez dissessem que eu tinha uma carreira promissora em construção, que vivi o que muitos nem sonhavam, que fui uma pessoa boa. Será que isso bastava?

Até aquele dia, eu vivia para agradar o mundo. Era boa filha, boa amiga, ótima profissional. Vivia cercada de pessoas, tinha uma família de comercial de margarina, caía na balada com um bando de loucos, gerenciava uma equipe bem grande, acabara de descobrir um esporte que eu amava, enfim, tinha uma vida “feliz”! Mas cadê a tal felicidade?! Cadê os meus pés flutuando? Cadê aquele romance de filme? Cadê o pote de ouro do final do arco íris? Eu detestava meu corpo, a falsidade dos ambientes que frequentava, os relacionamentos nos quais eu entrava, as inseguranças que me atormentavam a todo instante. Era uma vida louca! Eu corria atrás do que diziam que me traria felicidade, mas não via nenhum futuro naquilo.

Eu já fui milhares de quilômetros menos interessante, muitos quilos insegura, infinitamente menos livre e nada feliz. Sim. A vida mudou. Um dia, eu descobri que ser feliz era uma escolha e a fiz! Eu corri. Corri muito de tudo o que eu vivera até ali. Chutei aquela vida inútil para bem longe, me recolhi, chorei, planejei e escolhi. EU ESCOLHI SER FELIZ! Escolhi olhar a vida por outro ângulo, escolhi dar aos problemas o tamanho que eles realmente tem, escolhi sorrir apesar de tudo, VIVER apesar do mundo, sentir de verdade e SER. Simplesmente ser!

Não foi fácil fazer essa escolha. Doeu. Mas eu queria viver! Não dava mais para fingir! Eu sabia o que eu queria, na verdade eu sempre soube! Mas tinha medo… Larguei carreira, amigos e amores. Fui inconsequente. Não quis saber. Talvez hoje, eu fizesse diferente. Talvez eu não rompesse com tudo. Talvez eu procurasse um terapeuta. Talvez… Mas eu tinha a idade dos gênios rebeldes e não queria mais viver aquela vida! Foi sem rumo que eu me encontrei. Foi errando que eu acertei. Foi sonhando que me descobri.

Aquela manhã, naquela padaria me fez ver que, apesar de tudo o que vivi, sonhei e conquistei, lá estava eu, escrava do sistema, voltando a fingir. Após anos muito bem vividos e sentidos, lá estava eu, tentando descobrir outra forma de largar uma nova vida fingida. Foi naquela manhã que eu descobri que apesar dos sorrisos e pequenos momentos de felicidade, a vida voltou a ser fingida. É, eu me tranquei numa vida que não deveria ser a minha. Apesar dos momentos intensos e de muita felicidade, cá estou eu, naquela rotina que tanto me afligia.

Nunca é tarde demais para realizar sonhos! Nunca sabemos o suficiente para pararmos de aprender. Nunca saberemos o que a vida nos reserva e o quanto tudo pode mudar numa fração de segundo. Desviar a atenção para sorrir à garçonete, me fez ouvir um fragmento de conversa que me acordou para vida! Desde aquele dia, um incômodo me acompanha. Aquela vontade de largar tudo e fazer algo que faça sentido, que mova o mundo, que faça diferença.

É tempo de mudanças. Tentei me enquadrar na vida que planejaram pra mim, mas não deu de novo. Sou muito livre para viver enjaulada, muito curiosa para não ver o mundo e muito sonhadora para viver dentro da caixa. É hora de fazer planos, de encarar as verdades da vida e de criar algo novo e que faça sentido. Dessa vez, as responsabilidades são outras e não dá para chutar tudo e sair correndo. Mas as mudanças começaram e a leveza está de volta com sorrisos e belas surpresas!

Que tal viver? Que tal não se prender? Que tal parar de fingir e começar a sentir? A vida é uma só. Se você morrer amanhã, o que fica?

Se me perguntarem o que eu guardo dessa vida, pode ter certeza de que será o que eu realmente vivi! As vidas que toquei, as pessoas que amei, as viagens que fiz, os vinhos que bebi, as abraços que recebi, os sonhos que realizei, as belezas que eu vi, as músicas que dancei, as bocas que beijei, os corações que toquei, os sorrisos que dei, o conhecimento que adquiri, as emoções que senti e o quanto eu amei… Dessa vida, só se leva o que se viveu de verdade! Não o que disseram que vivemos! Cada um sabe de si e cada um sabe o que o faz FELIZ!

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.