A dualidade do silêncio e a fala

Você já passou por uma situação constrangedora quando uma conversa fica em silêncio e ninguém mais sabe o que falar?
Vim ao mundo muito quieta, observava mais do que falava e agia, e quando podia me escondia de todos. Tirar foto era um drama para mim, mas a minha família me pegava na marra. Cresci ouvindo que eu era tímida, que eu precisava falar mais e não ter vergonha de conversar. Nunca funcionei sobre pressão, até hoje sou assim. Mas a pressão aconteceu na família, na escola e nas amizades até que eu mesma comecei a fazer isso comigo, eu mesma me colocava em situações fora da minha zona de conforto. Fui modelo, fazia comerciais, desfilava, fotografava… E me pergunta se eu gostava? Eu me sentia vitoriosa por ter conseguido fazer, mas não me sentia nem um pouco a vontade com isso. Sempre me perguntei porque mesmo eu insistindo nisso eu não conseguia dominar esse meu sentimento de timidez? Hoje sei que é porque eu tinha medo e não timidez. Eu tinha medo de não ser aceita pelas pessoas como eu era. Por isso eu não me soltava, eu tinha medo de mostrar quem eu realmente era. Superei muito a minha suposta timidez. Quem me conhece hoje normalmente acha estranho quando eu falo que tenho traços de timidez em mim. Hoje são traços apenas, em algumas situações que ela surge, mas ainda está ali. E porque ela continua mesmo que somente em algumas situações? Porque eu ainda não superei a causa dessa suposta timidez: o meu medo de ser rejeitava. Continuo cada vez mais me tirando da zona de conforto e colocando a cara a tapa, porque? Ainda estou tentando descobrir essa resposta, mas acredito que é porque eu busco a minha total liberdade. Sou livre e assim quero me sentir sempre. Quero conseguir ser minha total essência sem medo de rejeições. Será que querer isso é ousadia demais?
O silêncio continua a me rondar. Na verdade a dualidade entre falar e silenciar está sendo um grande aprendizado para mim nos últimos tempos. Ultimamente desbesteei a falar, às vezes não calo a boca. Teve um episódio em si que me fez ver que isso também é medo de rejeição. Quando eu falo demais e não deixo a outra pessoa falar é porque eu tenho medo como ela vai se expressar, ela pode não gostar de mim e demonstrar isso na fala dela. Porém, ficar em silêncio o tempo todo também é medo da rejeição. Medo de se expressar e a outra pessoa não gostar do que vai ouvir. Quando eu falo demais eu fico tonta, com o coração acelerado demais, agitada ao extremo e não consigo absorver verdadeiramente o momento. Quando eu não falo eu me isolo, sufoco a minha essência, me sinto uma ninguém, que não é olhada e nem amada. Eu estou praticando esse equilíbrio dessa polaridade do falar e aquietar. O equilíbrio entre o falar e o silenciar é uma grande sabedoria a qual eu quero muito dominar.
Quando converso com alguém que fala demais eu tenho muito dificuldade nesse equilíbrio, ou eu me imponho para falar também ou me calo e vou engolindo tudo o que eu gostaria de falar. Na última experiência que eu tive consegui manter o equilíbrio em um certo momento, percebi que a pessoa precisava muito colocar para fora alguma energia através da fala, me silenciei. Em um certo momento tentei registrar o que eu queria falar para quando tivesse a oportunidade lembrasse o que era. Mas demorou tanto tempo, o assunto mudou tanto que eu não lembrei. Será que era importante mesmo? Será que o que eu ia falar a outra pessoa queria ouvir? Fiquei me questionando.
Agora, quando converso com alguém que é quieto pra caramba, existe duas situações que podem acontecer. Uma é eu falar demais, a outra é o silêncio dominar a nossa conversa. Na primeira acontece um tipo de verborragia (como diz um amigo meu). Falo tão rápido que eu mesma fico tonta e penso que a pessoa não deve estar acompanhando meu raciocínio, até porque eu não consigo concluir os assuntos de tão rápido que falo. Chega a ser bizarro, me sinto uma palhaça, mas dependendo de quanto tempo eu estou sem me encontrar com alguém que me escute, eu faço isso mesmo. Na segunda situação eu estou tão pra dentro de mim que não consigo nem puxar assunto com a pessoa. Aquelas perguntas básicas para se conhecer alguém ou saber como foi o seu dia, ficam no vácuo. Parece que meu cérebro fica branco.
A situação mais perfeita é quando encontro uma pessoa que está equilibrada no mesmo momento que eu também estou, aí a conversa flui de forma harmônica. Uma fala um pouco, dá a deixa e a outra fala também, e vice e versa. Essa é a situação mais fácil. Eu não sei o que fez a outra pessoa estar em equilíbrio, mas eu sei o que aconteceu para eu estar assim. Possivelmente eu já deveria ter conversado com alguém que soube me ouvir. É difícil encontrar alguém assim hoje em dia, mas eu tenho algumas amizades que conseguem fazer isso por mim. Desabafo mesmo. Quando eu recebo alguém assim, quando eu estou em equilíbrio, também consigo fazer isso por ela. Só ouço, e no máximo no final dou um conselho se ela quiser. Mas é tão raro juntar eu em equilíbrio e alguém do mesmo jeito no mesmo momento que essa situação perfeita tem sido raridade para mim nos últimos tempos.
E o silêncio mesmo fica onde? Muitas vezes a conversa está fluindo bem, independente em qual situação ela se encontre, mas em um dado momento vem o silêncio. Me questiono o que eu faço com esse silêncio. Quando estou bem e segura de mim eu aceito ele tranquilamente, isso não quer dizer que a outra pessoa irá aceitar. Mas quando eu estou muito agitada eu não me aquento no silêncio, invento algo para falar ou me levanto e vou fazer algo. Bem quando eu me permito vivenciar o silêncio, às vezes percebo a outra pessoa fazer essas mesmas coisas, inventar algo para falar ou se mexer e desviar o olhar. Mas existe sim momentos em que as duas ou mais pessoas se permitem o silêncio. O mais natural é esses momentos de silencio aparecerem em relações que são corriqueira, namoros, casamentos, filhos, irmãos e irmãs que morem juntos. Mas estou aqui refletindo sobre o silêncio que vem do encontro de duas pessoas que desejam se comunicar. Porque tendemos a nos comunicar somente pela fala? Porque o silêncio desses encontros tendem a ser constrangedores ou até mesmo perturbadores? Porque normalmente a ansiedade domina esses encontros? Medo do que a outra pessoa vai pensar se ficarmos em silêncio? Medo dela achar que não dominamos o assunto que estamos falando? Medo dela ver a verdade nos nossos olhos?
Se só existe amor e medo, qual medo sentimos quando não conseguimos nos entregar ao silêncio que surge em uma conversa? Agora, se o silêncio acontece em um conversa e o olhar continua em conexão, o amor é manifestado em total sinergia. Acredito que essa seja a vontade divina!
