O silêncio me preencheu
Porto Alegre, maio de 2017
O vento sopra lá fora. Já entrei no meu inferno astral. Começo esse projeto de escrever com o sentimento de frustração gritando dentro de mim. Já tentei de tudo, já fiz de tudo e nada deu o resultado que eu esperava. Resolvi me entregar, resolvi desistir. O vento está tão forte que estou cansada de me segurar para me manter em pé. Estou soltando, não quero mais nada.
Me vi hoje retirando todos os véus que me seguravam ao passado. Alguns foram difíceis de soltar, existiam mais camadas por baixo que eu nem imaginava, véus que estavam me sufocando. Liberei toda a energia estagnada. Me vi pelada, nua e crua, sem a beleza que superficialmente conhecemos de uma mulher. Até os meus cabelos eu entreguei ao vento. Fiquei limpa, leve, pés no chão tocando uma terra úmida que acolhia o meu ser. Teimei e olhei para trás. Rapidamente vi uma energia me ligar ao passado novamente, era através dos meus olhos. Resisti em soltar. Mas sabia que para voltar a me virar e continuar a andar precisava deixar ir. Me virei, coloquei as mãos em meu peito e enviei a mensagem para o meu coração de que o amor de tudo aquilo que eu deixava ir estaria sempre comigo em minha essência. A partir daquele momento só o amor me ligaria a tudo que eu consegui me desprender. Fui para o paraíso. Chegando lá quiseram me vestir, mas dessa vez com vestes leves e coloridas. Me neguei, me senti desconfortável. Respeitaram a minha vontade. Assim fui a beira do lago ver os peixes. Nessa hora fui puxada por uma força maior. Lá estava eu em um trono no fundo do lago sendo vestida com uma calda azul brilhante e, para completar, recebendo um tridente dourado na mão direita.
A música parou. Minha mente voltou a ficar confusa. Será que devo interromper a minha meditação e colocar a música a tocar novamente? Eu funciono mesmo é com música. No silêncio ainda tenho muitas limitações. Não fiz isso. Decidi respirar profundamente e ouvir o meu coração.
Me vi novamente no trono, com a calda azul brilhante e o tridente dourado na mão. Ao meu lado senti a presença de dois seres de luz que haviam me dado aqueles lindos presentes. Falaram para eu acolher tudo em meu coração e voltar ao meu corpo físico.
Aos poucos fui sentindo novamente minhas mãos, meus braços e pernas. Estava parada em frente a pia da minha cozinha, com as mãos cheias de sabão dentro de uma panela. Percebi que eu tinha entrado em estado de meditação espontânea. Ainda meio anestesiada, sem sentir as dores do meu corpo físico, fui retirando lentamente aos mãos de dentro da panela, me afastando aos poucos da pia e me sentei no sofá para em silêncio ficar. Agora a música não era mais necessária. O silêncio me preencheu.
