Sobre o desafio de ser técnico desportivo

A profissão de técnico desportivo não é fácil. Você está exposto numa grande vitrine, enquanto é colocado à prova constantemente pelos olhares dos torcedores, pais, adversários, árbitros, experts e expertos (aqueles que se acham experts, mas não entendem nada). A pressão é grande: para os expectadores, quando seu time perde, é o pior do mundo; quando ganha, é o melhor do mundo. Uma substituição bem feita e você é o técnico sensacional. Uma substituição errada e você é o técnico mais estúpido do mundo.

O trabalho é árduo. Aqui, pelo menos, é assim: não é só dar o treino… é mendigar atletas, ensinar o que é esporte, o que é esse tal de voleibol. É cativar, ensinar o que é responsabilidade e comprometimento. É educar, muitas vezes contra os próprios pais, que de alguma forma acabam deseducando.

Depois de garimpar, você tem um grupo de 12 ou 15 meninas de 10 a 14 anos… e vamos ao voleibol! Opa… “não, péra”… esse povo não sabe andar? Segurar a bola? Saltar com os dois pés então… é lenda! O que é que essas crianças fizeram durante a infância? Certamente ficaram em frente ao tablet ou à televisão, seguras em suas prisões domiciliares. E aos domingos, nas reuniões familiares com os priminhos, único momento em que poderiam brincar, certamente estavam “amarradas” em seus vestidinhos bonitos, que não permitiam liberdade de movimento algum, afinal, para a mãe, ter uma filha arrumadinha era muito mais importante do que deixa-la livre para brincar. Certamente privadas de movimento dentro das escolas: “Fica sentada. Fica quieta. Não converse. Não corra. Isso não é comportamento de menina. Não saia da fila. Não brinque com o colega. Não viva.”
Agora, então, enquanto a gente ensina toque e manchete, precisa ensinar a andar, a saltar, a correr. Algumas desistem, já por aí. É difícil demais: fica suada, fica cansada, fica suja, fica parecendo um menino, fica exposta e todo mundo ri se cair.

Às que ficam, você precisa ensinar a viver: algumas simplesmente não conseguem se organizar para conciliar escola e treinos, mesmo que isso parecesse uma coisa tão trivial na minha época de atleta. Você precisa ensinar a respeitar a colega, e isso significa entender que o voleibol é um esporte coletivo e ninguém joga sozinha. Aí você esbarra no ego de algumas, acariciado pelos pais que acham que suas filhas são os seres humanos mais importantes do universo. Aí você tem que ensinar que sem empenho e dedicação não se consegue nada nessa vida. Tem que ensinar que a derrota faz parte, que ninguém nasce sabendo, que o papel do lanche vai no lixo, que o cinto de segurança é importante, que a letra do funk é muito feia e degradável, que o corpo deve ser respeitado, que o adversário não deve ser menosprezado, que comida-lixo só faz mal, que o árbitro deve ser respeitado, que o mundo é um lugar perigoso, que a união faz a força, que nem todo menino está interessado no seu amor, que foco é importante, que pra fazer bagunça tem hora, que fazer de qualquer jeito não funciona, que menstruação faz parte da vida da mulher, que a manchete tem que ser feita com os braços esticados… E a lista de ensinamentos é infinita, e quando você pára e pensa, no meio disso tudo você percebe que esqueceu de ensinar, por exemplo, que a bola não pode cair no chão.

Enquanto isso, na vitrine dos jogos, o mundo te julga, e acha que você precisa exigir dessas crianças o que o Bernardinho exige da seleção brasileira masculina. Precisa gritar, explodir, dar show, chutar a bola, xingar e mandar à merda. 
Preciso mesmo?

Reflete aí, você também.

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