Últimos Minutos

(Escrevi esse conto na faculdade uma vez como um exercício de vocabulário, se não me engano. Um dos professores que mais admiro conversou comigo sobre o texto depois e disse que era bom. Decidi acreditar e fico carregando ele por aí agora. Quem sabe sirva pra algo um dia — nem que seja só pra lembrar um dia que uma pessoa legal disse algo muito legal sobre mim.)


Hoje, visto nada mais do que uma túnica branca e as únicas cores que vejo são os vermelhos, amarelos e azuis dos controladores de humor que a enfermeira me traz de cinco em cinco horas. Ou dias. Parei de me interessar pela passagem do tempo no momento em que vi o corpo de Rosalinda repousando em meu tapete. Rosalinda era o tipo de mulher que só se encontra uma vez à cada quatro ou cinco vidas: esculpida à semelhança das deusas e encantadora como uma dessas pinturas incompreensíveis que não nos permitem reflexão alguma além da mais tola admiração.

Na mesma medida em que ela era dona de uma delicadeza angelical e, de certa maneira, ultrajante, eu me sentia como um desses ratos que se esgueiram pelas arestas de um galpão imundo, abandonado e escuro qualquer. Rosalinda era tudo o que eu desejava ser. Enquanto eu implorava por seu corpo dia após dia – e quanto à minha alma, não posso afirmar que tinha -, Rosalinda tinha-me de corpo e alma. Preparei-a como quem prepara uma dama para um pedido de casamento. Velas, vinhos, os melhores talheres da casa e uma toalha de mesa limpa, passada com minhas próprias mãos.

Enquanto me contava algumas barbaridades de suas amigas, como as que, ainda naquela época, ousavam sair de casa com os joelhos à mostra, o homem perturbado que vivia em meu inconsciente ordenou-me que gravasse seus olhos castanhos e bochechas rosadas uma última vez. Minha subconsciência estava errada, daquela noite em diante eu teria Rosalinda – linda e minha – apenas para mim. Casei-me com uma mulher morta. E antes que vejam algo de mal explicado nisso, esclareço: mantei-a antes de casar-me. Mas ela me matou antes que eu o fizesse. A última palavra que ouvi de seus lábios foi um doloroso não.

Depois – do gatilho que puxei contra o peito de minha musa -, éramos marido e mulher. Meu anjo finalmente havia caído em meus braços e nem a indiferença mortal que ela expressava seria suficiente para tornar-me menos feliz. Despi Rosalinda com todos os cuidados de quem abre um livro raro, de modo a deixá-la confortável para nossa primeira noite juntos como um casal de verdade. Beijei sua fronte e nada mais. Deitamo-nos juntos. Rosalinda ainda suava e seus olhos nunca estiveram tão emocionadamente marejados. Estávamos felizes.

Passamos dias, meses e anos juntos. Envelhecemos juntos – ela mais rapidamente do que eu. Não deixava Rosalinda sozinha por um minuto sequer. Penteava seus cabelos e trocava-lhe a roupa dia após dia. Há uma grande vantagem em casar-se com uma mulher morta: ela seria finalmente minha com todo o seu corpo e com o resto de alma que nos sobrava. Com o tempo, percebi que seu perfume desaparecia, seus cabelos tornavam-se opacos, tinhas as unhas descascadas e amarelas, mas a pele ainda era alva como a de boneca. E me bastava.

Nosso casamento durou exatos cinco anos e oito dentes caídos, até que, por uma facécia do destino, um dia precisei eu mesmo que alguém me tomasse conta. Tiraram-me tudo de que eu gostava: Rosalinda, o terno que eu vestia quando tomei-a por esposa e até meus elegantes talheres, que seguravam ainda marcas de seu batom. Nunca souberam que Rosalinda havia me matado primeiro. E, por mais que me chamassem louco, sei que não havia contradição no mundo maior do que a minha: Rosalinda era um anjo cujas asas foram cortadas pela minha devoção. E porque eu tinha medo que ela voasse, mantive-a crisálida pelo resto da eternidade.

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