O afeto também é importante
Emicida lança álbum falando de afeto mas sem perder a essência da denúncia

“Só que sem risadinha, certo?
Porque aqui é o Rap, onde o povo é mau!
Pra trabalhar nesse emprego de rapper
você tem que ser mau!” (Cananéia, Iguape e Ilha Comprida — Emicida)
Não tenho a pretensão de escrever essas linhas à la Nelson Motta e tecer críticas profundas sobre o novo disco de Emicida. A ideia aqui é só abrir a minha cerveja barata e escorrer algumas reflexões sobre “AmarElo”, terceiro disco de estúdio que chegou nesta quarta-feira, 30/10, às plataformas digitais. Mas já inicio a escrita dando spoiler que o trabalho novo de Leandro é sobre afeto e flerta com o Pop, Samba e MPB, mas se engana ou não entende nada sobre negritude quem acha que falar sobre afeto é ser menos combativo.

Emicida é conhecido por fazer músicas com letras e batidas mais agressivas que relatam a realidade dos negros no Brasil, no entanto “AmarElo” se apresenta como um disco de neo-samba, como o próprio prefere rotular: “minha referência é mais Luiz Carlos da Vila do que J. Cole”, mas a questão é que o Emicida não deixou de ser pesado, no entanto o clima de AmarElo é uma declaração de afetividade.
“Filho, abrace sua mãe
Pai, perdoe seu filho
Paz é reparação
Fruto de paz
Paz não se constrói com tiro
(…)
Já não está mais perdido o elo
O amor é o segredo de tudo
E eu pinto tudo em amarelo” (Principia — Emicida feats Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira & Pastoras do Rosário)
O afeto nos custa caro, pois historicamente o amor sempre nos foi negado. Desde criança aprendemos que o padrão aceito a receber amor não é da nossa cor e muito menos dos nossos traços. E aqui quando falo de amor não estou apenas falando de relacionamentos afetivos amorosos e sim todo o rolê que nos invisibiliza em todos os ambientes da sociedade. É como se não fossemos dignos de receber nenhum tipo de afeto. Muitas vezes somos invisíveis (quando o assunto é afeto ou representatividade) e visíveis (para o racismo e os tiros da polícia).
“80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo
Quem disparou usava farda (Mais uma vez)
Quem te acusou nem lá num tava
(Banda de espírito de porco)
Porque um corpo preto morto é tipo os hit das parada
Todo mundo vê, mas essa porra não diz nada
(…)
Um primeiro salário
Duas fardas policiais
Três no banco traseiro
Da cor dos quatro Racionais
Cinco vida interrompida
Moleques de ouro e bronze
Tiros e tiros e tiros
O menino levou 111” (Ismália — Emicida part. Larissa Luz & Fernanda Montenegro)

Com 11 canções inéditas, o trabalho conta com as participações de Zeca Pagodinho, Pabllo Vittar, Majur, Fabiana Cozza, Mc Tha, Drik Barbosa, Larissa Luz, Dona Onete, Fernanda Montenegro e Ibeyi. O disco, mesmo de forma mais calma, ainda relatam as vivências de pessoas negras. Tem dor, mas também tem afeto.

Confira AmarElo 🌿💛
