O afeto também é importante

Aline Silveira
Nov 1 · 3 min read

Emicida lança álbum falando de afeto mas sem perder a essência da denúncia

Capa do álbum ‘AmarElo’, de Emicida — Foto: Claudia Andujar (1974)
Capa do álbum ‘AmarElo’, de Emicida — Foto: Claudia Andujar (1974)

“Só que sem risadinha, certo?

Porque aqui é o Rap, onde o povo é mau!

Pra trabalhar nesse emprego de rapper

você tem que ser mau!” (Cananéia, Iguape e Ilha Comprida — Emicida)

Não tenho a pretensão de escrever essas linhas à la Nelson Motta e tecer críticas profundas sobre o novo disco de Emicida. A ideia aqui é só abrir a minha cerveja barata e escorrer algumas reflexões sobre “AmarElo”, terceiro disco de estúdio que chegou nesta quarta-feira, 30/10, às plataformas digitais. Mas já inicio a escrita dando spoiler que o trabalho novo de Leandro é sobre afeto e flerta com o Pop, Samba e MPB, mas se engana ou não entende nada sobre negritude quem acha que falar sobre afeto é ser menos combativo.

“Nós negros temos sido profundamente feridos, como a gente diz, “feridos até o coração”, e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e consequentemente de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando. A vontade de amar tem representado um ato de resistência (…)” (bell hooks, Vivendo de Amor)

Emicida é conhecido por fazer músicas com letras e batidas mais agressivas que relatam a realidade dos negros no Brasil, no entanto “AmarElo” se apresenta como um disco de neo-samba, como o próprio prefere rotular: “minha referência é mais Luiz Carlos da Vila do que J. Cole”, mas a questão é que o Emicida não deixou de ser pesado, no entanto o clima de AmarElo é uma declaração de afetividade.

“Filho, abrace sua mãe

Pai, perdoe seu filho

Paz é reparação

Fruto de paz

Paz não se constrói com tiro

(…)

Já não está mais perdido o elo

O amor é o segredo de tudo

E eu pinto tudo em amarelo” (Principia — Emicida feats Fabiana Cozza, Pastor Henrique Vieira & Pastoras do Rosário)

O afeto nos custa caro, pois historicamente o amor sempre nos foi negado. Desde criança aprendemos que o padrão aceito a receber amor não é da nossa cor e muito menos dos nossos traços. E aqui quando falo de amor não estou apenas falando de relacionamentos afetivos amorosos e sim todo o rolê que nos invisibiliza em todos os ambientes da sociedade. É como se não fossemos dignos de receber nenhum tipo de afeto. Muitas vezes somos invisíveis (quando o assunto é afeto ou representatividade) e visíveis (para o racismo e os tiros da polícia).

“80 tiros te lembram que existe pele alva e pele alvo

Quem disparou usava farda (Mais uma vez)

Quem te acusou nem lá num tava

(Banda de espírito de porco)

Porque um corpo preto morto é tipo os hit das parada

Todo mundo vê, mas essa porra não diz nada

(…)

Um primeiro salário

Duas fardas policiais

Três no banco traseiro

Da cor dos quatro Racionais

Cinco vida interrompida

Moleques de ouro e bronze

Tiros e tiros e tiros

O menino levou 111” (Ismália — Emicida part. Larissa Luz & Fernanda Montenegro)

Em postagem no Twitter, o Leandro diz que ouvir o disco ao nascer do dia bate uma energia diferente.

Com 11 canções inéditas, o trabalho conta com as participações de Zeca Pagodinho, Pabllo Vittar, Majur, Fabiana Cozza, Mc Tha, Drik Barbosa, Larissa Luz, Dona Onete, Fernanda Montenegro e Ibeyi. O disco, mesmo de forma mais calma, ainda relatam as vivências de pessoas negras. Tem dor, mas também tem afeto.

Caio Cesar comentando sobre AmaRelo.

Confira AmarElo 🌿💛

Aline Silveira

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