A realidade não precisa de mim.

Laguna-SC Dezembro de 2016

A realidade não precisa de mim.
Precisa daquele que a serve tal qual é.
Precisa daquele que por descer tão fundo
nas regras do jogo que lhe fora imposto,
a defende sem conseguir reconhecer 
a luz que existe fora de seus padrões.

Esta realidade precisa do que acredita
que existe verdade e mentira, sem entender
que por vezes o que se cria
é mais real que a própria vida.

Esta realidade não precisa de mim.
Precisa daqueles que aceitam calados
as migalhas dos pães
que acompanham os pratos da elite.
Precisa daqueles que submissos
julgarão todo aquele que segue em busca
de outros horizontes. Loucos! Dizem eles.

Precisa daqueles que acreditam
nos golpes da vida como naturais.
Nos padrões impostos como normais.
Nos impostos pagos como valores morais.

Ah! Esta realidade não precisa de mim.
Precisa dos que reproduzem sistemas de servidão
sem sequer admitirem sua parte nesta podridão.

Dedos apontados aos outros
sem nem ao menos refletir a própria ação.
A realidade precisa dos que sentam
a bunda gorda em frente ao jornal,
engolindo suas ladainhas e julgando mal
todos os que se dispõem e desafiam
as leis da estagnação e não atrofiam.

Precisa dos que não lutam.
Dos que tem medo.
Dos que aceitam, calam, engolem,
Dos que não se assumem.
Dos que se escondem.

Não: eu nego esta realidade.
Mas sei que está aí. E talvez até existe.
Reinando soberana às custas de quem,
Mole, não resiste.
Dos que mesmo vivos
Não se erguem.

Sou feliz.
Ela não precisa de mim.

A realidade tal qual é,
me vê como carta
fora do baralho.
Poderia ser coringa
mas ela te faz crer
que sou um blefe sem ginga.

Lá vai ela: vagabunda,
Louca, desvairada.
Lunática, desregrada,
Maluca, desgraçada.

Para quem a serve,
o que faço não tem sentido.
“Quando vai voltar à vida real? ”
Perguntam-me alguns,
como se o que eu estou vivendo
não fosse o real da vida.

Ah! Esta realidade que te faz crer
Ser somente ela a possível.
Numa relação abusiva
Que te convence ser a única
E a última alternativa.

E o que é a vida real?
Uma rotina fechada, desleal
que lhe toma todas as horas e a energia?
Que ao final do dia
te faz sofrer as dores de um mundo a ruir
sem ao menos te dar a oportunidade de o sentir?

Não, não sirvo à esta realidade
que não permite pensar com liberdade
que não permite viver.
Que saca o folego e a poesia,
que com uma mão te oferece o mundo,
E com a outra te cobra a vida.

Esta realidade monótona
compra o tempo nas horas do relógio,
Mas o sequestra da memória.
Finge que te paga
Mas só anula, só te apaga.
Não só em horas de trabalho
Mas, veja só, do avesso:
Quando nas horas vagas
cobra seu preço.

Ilusionista, transparente,
quase invisível,
senta sobre o mundo, imperceptível
E com a ressaca de seu peso
Te afeta e infecta.

Num sopro frio
cobre tudo de vazio.
E te faz se ver incapaz.
De pensar.
De sentir.
De inventar.
De mudar.
De por fim sair
desta lógica absurda
que te ausenta até de ti mesmo.

Não.
Eu não sirvo a esta realidade.

Quero entender este universo potencial
que se expande
para dentro e para fora de mim
todos os dias.

Quero sentir minha força vital
se espalhando pelo mundo.
Quero fazer minha existência
ser notada e intervir nos tantos universos que toco,
e também naqueles pelos quais passeio
ou pelos quais escolhi existir
e me constituir.

Quero estar presente
em cada gesto.
Em cada instante
do caminho que escolhi trilhar.

Não nasci para ficar. Parti.
E é neste caminho que resolvi criar
que estou aprendendo a me edificar
Não. Não sou desta realidade. Sou de outra.

Neste movimento sem fim descobri:
sou capaz de ir.
Com minhas próprias pernas.
Elas são o motor que preciso
Vou descobrindo o mundo em mim
E me descobrindo no mundo
E por isso mesmo vou
desconstruindo, reconstruindo,
aprendendo e expandindo.

Quero estar aqui:
no que sou,
no que sinto
e no que vejo.

Entender por esta experiência
e entender que as experiências dos outros,
são dos outros.

Mas estar aqui:
no íntimo do instante
que me compõe
por inteira.
Estar, completamente,
neste mesmo instante que componho
por estar aqui.
por estar presente.

Quero ser a obra que escolhi ser
e não a que me intimidaram a aceitar.

Quero lembrar para sempre o que esta realidade,
à qual eu não sirvo, nem quero servir,
quer me fazer esquecer.

Quero lembrar que preciso de mais
De mais espaço em mim e para mim
Mais do que ela quer oferecer.

Quero lembrar que sou mais
Que não caibo, nem aceito os cubículos,
sem janelas e sem ar,
nos edifícios em que ela quer me encaixar.

Quero lembrar para sempre
que esta realidade quer me prender num mercado
e me consumir aos poucos,
enquanto esqueço as coisas pelas quais existo.

A esta realidade, eu não sirvo.
Sirvo para o sonho,
De ter tempo para imaginar
O que poderia ser
E neste impulso de vida criar
Outras estradas para circular.

Longe do ruído febril dos motores
Que alimentam suas engrenagens.
E também a tantas dores.

Nasci para servir o sonho
e só a ele ser leal
Nasci para lutar
ao lado dos que acreditam
na possibilidade de existir num mundo
que não reduz ninguém àquilo que produz

Quero para sempre lembrar que sou mais
mesmo quando
preciso de pouco.
Meu movimento é resistência.
Por aqueles que precisam
e por aquilo que se deve mudar.

Não sirvo à realidade que não me vê.
Só na resistência podemos existir.
E isso é grande.