A ficção científica e a estranha tara por mulheres em tubos

Aline Valek
Jul 2, 2014 · 6 min read

Uma alegoria, mais do que um adereço carnavalesco, é um elemento da narrativa que representa uma ideia por meio de um estereótipo; é um padrão ou tipo de personagem usado nas histórias para transmitir informações ao público.

Algumas alegorias foram tão usadas que já se tornaram clichês. É sobre uma dessas alegorias, repetidas com frequência na ficção científica, que trata este texto: o clichê (não tão óbvio) de mulheres dentro de tubos.

Ilustração de pulp magazine

Mulheres em tubos? Onde?

Existe uma infinidade de ilustrações e capas de ficção científica mostrando mulheres dentro de tubos.

E nem precisa se apegar a essas imagens da era pulp. A alegoria da mulher em tubos aparece até mesmo em quadrinhos de super-heróis e filmes de ficção científica, como Prometheus.

Cena do filme Prometheus

Há um blog, Sci-Fi Women in Tubes, dedicado a coletar essas estranhas imagens e até um álbum cheio delas, só para se ter uma ideia do quão bizarro é isso.

Os motivos para essas mulheres estarem dentro de tubos são os mais variados: algumas foram criadas dentro deles, outras acordaram lá, outras foram enviadas ao espaço dentro deles, outras foram colocadas lá para serem preservadas através dos tempos, outras foram presas lá dentro por cientistas malvados.

Mulheres em tubo em capa de quadrinhos

Que tipo de fetiche é esse que os artistas de ficção científica têm por mulheres encapsuladas dentro de vidros, como bebês de proveta?

Seria o tesão por algo inalcançável?

O voyeurismo de olhar a mulher como se ela estivesse dentro de uma vitrine?

A obsessão pela fonte da juventude, ao cultivar mulheres em frascos como se fossem legumes em conservas?

Ou tem menos a ver com fantasia sexual e mais a ver com a forma negativa que as mulheres são representadas na ficção?

Mesmo neste último caso não deixa de ser uma tara; tanta insistência em estereotipar mulheres só pode ser explicada como uma doentia obsessão – que de inofensiva não tem nada.

Pôster de filme

De que tipo de narrativa estamos falando?

A Jornada do Herói descrita por Joseph Campbell, uma estrutura que praticamente todas as histórias já narradas pela humanidade têm em comum, é fundada basicamente na ideia de que há um problema (conflito) a ser resolvido.

Na ficção científica, isso significa que existe um conflito em um cenário futurista e/ou distópico onde a tecnologia e a ciência terão um papel determinante na solução desse problema, através das ações do herói.

O que essas imagens de mulheres dentro de tubos sugerem é que o problema a ser resolvido pelo herói é salvar aquela mulher (totalmente imobilizada e adormecida, mas sempre insinuante) do vilão que a colocou lá sabe-se lá por quê.

A essa altura, já é possível perceber que essa história não tem nada de nova.

Cena de Branca de Neve

É o mesmo conceito por trás das clássicas Branca de Neve ou Bela Adormecida, só que com uma roupagem futurista. Nada mais apropriado para ficção científica trocar o castelo e o dragão que guardam a princesa indefesa por um casulo de vidro, que tem mais a ver com esse tipo de história.

Mas prender mulheres em tubos não é um conflito nada futurista. Aliás, é um dos conflitos mais antigos e manjados da história da humanidade.

Ao dedicar um pouco mais de atenção, é possível notar que essa alegoria mostra algo que vai um pouquinho além da constatação óbvia “mulher-indefesa-que-precisa-ser-salva-pelo-herói”.

O merecimento do homem

A ficção científica mostra não só a idealização de um futuro ou de outros planetas, mas a idealização da mulher pelo homem. Não por acaso algumas mulheres na ficção científica são representadas como perfeitas ou inalcançáveis, sendo que algumas delas nem mesmo são mulheres reais (como a replicante Rachael de Blade Runner ou a Major Kusanagi de Ghost in the Shell).

As mulheres em tubos trazem um pouco dessa idealização – a redoma de vidro em torno delas sugerem um quê de inalcançável, de difícil acesso; enquanto a aparência delas não deixa dúvidas de que para ser colocada em um tubo, a mulher precisa ser sexy (sem contar que quase sempre estão semi-nuas ou completamente peladas).

O herói que salva a mocinha presa em um tubo de vidro

Há aí dois aspectos que podemos observar:

  1. a mulher ideal como a mulher presa, imobilizada;
  2. a mulher como prêmio do herói que toma a iniciativa para tirá-la de seu confinamento.

Branca de Neve (a versão “mulher em tubo” para crianças) é salva por um príncipe que chega só no final da história e a desperta de sua “morte”, logo em seguida a pedindo em casamento.

Até então ela estava dentro de um caixão de vidro, desacordada, mas se apaixona automaticamente pelo príncipe. Ela sequer o conhecia. Ele nem é o personagem principal.

Ainda assim, o simples fato de ter quebrado o feitiço deu ao príncipe o direito de ficar com a mocinha – e a vontade dela de ficar com ele nem mesmo é uma questão.

A alegoria da mulher em tubo mostra uma mulher imobilizada, incapaz de manifestar sua vontade de qualquer forma e, portanto, incapaz de consentir.

Ela retoma a fantasia de que, se o cara foi salvá-la, ele simplesmente a merece. Não cabe a mulher decidir ou agir – afinal, ela está presa em uma cápsula!

É como se só estivesse esperando pelo herói

Acima, quando menciono que que essa alegoria, apesar de estranha, não tinha nada de inofensiva, eu tinha em mente esta pesquisa feita nos Estados Unidos em 1978, que entrevistou jovens para saber o quanto eles achavam aceitável forçar sexo com uma mulher (a palavra estupro não foi mencionada).

39% dos jovens do sexo masculino acharam que é aceitável em algum nível forçar sexo com uma mulher se ele gastou dinheiro com ela (ele lutou para conquistá-la, ele a merece como prêmio!).

39% dos jovens do sexo masculino também disseram que é aceitável em algum nível forçar sexo com uma mulher se ela está bêbada (ela estaria inerte, imobilizada dentro de um casulo).

De onde surgiu essa noção tão errada desses caras?

De onde surgiu essa ideia de colocar mulheres dentro de tubos para heróis futuristas as salvarem?

Certamente isso não surgiu do nada. A nossa cultura é um retrato do pensamento da sociedade e vice-versa.

E é aí que a ficção científica vira história de terror: às vezes ela mostra o quanto é assustador ser mulher em um mundo onde é ensinado aos caras que eles merecem os nossos corpos. Nem que seja preciso usar da violência para consegui-los.

    Aline Valek

    Written by

    Escritora e ilustradora. Autora do romance "As águas-vivas não sabem de si"

    Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
    Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
    Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade