A romantização de uma juventude que se acha muito especial

De Jack Kerouac a Lena Dunhan, o que essas representações dizem sobre os jovens


Elas são jovens. Livres. Hypes. Mas conformadas. Egoístas. Com pouca ou nenhuma perspectiva.

Muito se escreveu a respeito da geração de jovens retratada pela série Girls, da HBO (que agora está em sua 3ª temporada), desde a atitude insatisfeita-com-a-própria-vida-mas-prefere-ficar-deitada de Hannah, até a falta de grana ou o problema de ter tantas possibilidades e, ao mesmo tempo, tão poucas perspectivas. E é por já terem praticamente esgotado este tema que não pretendo falar do seriado dirigido, escrito e estrelado pela nova-iorquina Lena Dunhan. Quer dizer, não só sobre ele.

Girls é um seriado que acompanho, apesar de não ser fã. Uma coisa irritante que fui percebendo ao decorrer dos capítulos é como as protagonistas são ou chatinhas ou grandes babacas. Às vezes, ambas as coisas. Apesar de representarem uma geração da qual faço parte, acho muito difícil alguma identificação com elas. E chega a ser irônico que em um seriado protagonizado por quatro mulheres (todas brancas, diga-se de passagem), o personagem mais interessante seja um homem: Adam.

Mas, olhando para algumas camadas abaixo disso, podemos ver jovens que se acham muito especiais, mesmo não fazendo nada que justifique este pensamento de que as regras do mundo não se aplicam a eles. Hannah acredita ser a voz de uma geração, embora aja como se a obra de sua vida simplesmente vá cair em seu colo. Ela e suas amigas ficam tão envolvidas em suas próprias questões existenciais, problemas no relacionamento e outras coisas que orbitam ao redor de seus umbigos que, diante de qualquer contato com a realidade e de qualquer obstáculo que precisam superar para sobreviver (como prazos de entrega ou pagamentos de aluguel), elas simplesmente piram. Quebram-se, frágeis. Nesse ponto, quase romper o tímpano com um cotonete ou fazer um estrago irreparável no cabelo representa a incapacidade de lidar com a ansiedade, bem como com a frustração de perceber que apenas se achar especial não é o suficiente para sê-lo – e, invariavelmente, quem se acha assim tão especial tende a quebrar a cara.

Girls (episódio de 2013)

Não tenho certeza se isso representa uma geração inteira, mas certamente existem pessoas que se encaixam nesse retrato mostrado em Girls – retrato este que me deixa seriamente na dúvida se é uma crítica a esse comportamento ou uma forma de glamourizá-lo. Grande parte das cenas do seriado mostra personagens tão voltados para si mesmos e para seus relacionamentos com as pessoas próximas que é como se nada pudesse afetá-los. É como se a história se passasse em um lugar peculiar no espaço-tempo, onde viver sem dinheiro num sistema capitalista e de enormes desigualdades fosse compatível com um estilo de vida classe média numa grande cidade, e não os afetasse tanto quanto o término de um relacionamento, usar drogas pela primeira vez ou brigar com a melhor amiga. E aí isso nos é apresentado em cenas muito bem feitas com diálogos inteligentes saídos da boca de personagens jovens e bonitos (mas que se pretendem gente como a gente), o que passa a impressão de que é TÃO legal e bacana e jovem e descolado. Descolado da realidade, mas descolado.

Vejo em Girls a repetição de uma romantização da juventude já vista em outras épocas. Aliás, essa forma de representar a juventude não é nova. Exemplo: o filme Reality Bites, de 1994 (isso mesmo, de VINTE anos atrás), já mostrava um quadro bem parecido com esse exibido pela HBO desde 2012.

Reality Bites (1994)

Neste filme fica ainda mais clara a intenção de representar a realidade de uma geração, já que Lelaina, a protagonista vivida por Winona Ryder, grava com a sua filmadora as conversas com seus amigos para depois transformar em um documentário que ela espera, um dia, ser a sua grande obra. Ela e seus amigos Troy, Vickie e Sammy são jovens formados, mas mal-empregados (exceto pelo personagem de Ethan Hawke, um músico e filósofo bon-vivant e desempregado). Eles dividem um pequeno apartamento, vivem sempre no vermelho e se consomem em seus problemas emocionais e existenciais – o que evidencia a semelhança com Girls. É claro que cada uma dessas histórias traz peculiaridades das épocas nas quais foram criadas, mas a problemática dos jovens que se acham muito especiais continua ali.

É em Troy que se firma esse papel de se achar muito especial. Sua vida é baseada em tocar, posar como artista e ter conversas profundas e filosofais sobre cheeseburgers. Ele não se importa com emprego enquanto puder se escorar nos amigos e morar no apartamento deles. Ele é diferente, ele é melhor, ele é talentoso (ou, pelo menos, acha que é). E, o mais importante: ele não é um yuppie (como os americanos apelidam os “young urban professionals”). Seu confronto com o novo namorado da amiga Lelaina, um jovem e bem-sucedido executivo de uma emissora de TV vivido por Ben Stiller, só mostra como ele se recusa a aceitar que um engomadinho qualquer possa conseguir algo que ele, um jovem tão especial e autêntico, não consegue ter: um relacionamento com Lelaina. Talvez essa rivalidade tenha sido apenas uma forma de não admitir que se Lelaina não ficou com ele foi tão somente por sua inteira culpa e incompetência. Encarar a realidade e as responsabilidades pelos seus atos parece algo difícil para uma juventude que cresceu acreditando estar acima do bem e do mal, tanto na época de Reality Bites quanto hoje.

Esta faceta da juventude também aparece em Lelaina, quando ela é demitida da emissora onde trabalhava como assistente e sua amiga Vickie oferece a ela uma vaga de vendedora em uma loja da Gap, onde foi promovida a gerente. Ela acredita estar acima daquela vaga, e sugere isso de uma forma bastante ofensiva para a amiga. Ela não aceita que, sendo uma jovem tão brilhante, desperdice seu potencial como vendedora em uma loja de roupas, embora ela não tenha perspectiva nenhuma de arranjar dinheiro para pagar o aluguel e passe os próximos dias fumando, assistindo TV e tendo longas conversas com uma cartomante que faz consultas pelo telefone, tendo como assunto central a sua vida, os seus problemas e os seus conflitos pessoais. Tudo o que importa para ela.

Vickie e Lelaina

Uma semelhança entre Lelaina e Hannah é o apego ao pouco que fazem. Por terem se acostumado a sempre pegarem o caminho mais fácil, isso quando não recebem na mão tudo aquilo de que precisam, empenham o mínimo de esforço possível em todos os aspectos de suas vidas, inclusive na criação artística. Acreditam que fazer arte não depende de esforço, afinal, são especiais. Por essa razão, quando conseguem, com muita dificuldade, espremer aquilo que consideram a obra de suas vidas, agarram-se àquilo com todas as suas forças. Quando algo dá errado (com o livro ou com o documentário), elas entram em crise, como se nunca mais fossem conseguir criar algo bom novamente. Mas, na verdade, o que as enlouquece é a frustração de perceber que a realidade não se importa com a crença de que elas sejam especiais ou com as expectativas que elas criam sobre o mundo – que vai muito além do microcosmos da vida pessoal de cada uma.

Reality Bites também mostra que essa juventude “descolada” que Lelaine tentava retratar de uma perspectiva profunda, dramática e sensível pode ser vista como algo simplesmente idiota apenas alterando a ordem e a edição dos mesmos momentos e conversas. Dependendo do ponto de vista, esses jovens podem ser vistos como uma geração incompreendida e cheia de conflitos intensos ou como uma geração mimada e descompromissada.

Uma mudança de leitura parecida foi o que aconteceu com a obra de Jack Kerouac, escritor proeminente das décadas de 50 e 60, quando foi re-embalada para o consumo dos jovens “millenials” dos dias atuais. On The Road, mais do que um livro com os relatos de viagem de “vagabundos” que cruzam os Estados Unidos várias vezes, mostra o estilo de vida e os conflitos de uma juventude que rejeitava os valores da classe média daquele contexto de prosperidade da história americana – quase o oposto do cenário onde se insere a história de Girls, de muita liberdade e crise econômica. As aventuras envolvendo música, sexo e drogas acompanhadas de amigos artistas acabam sendo muito atraentes e inspiradoras para jovens que querem se ocupar apenas de seus próprios prazeres.

Neal Cassady e Jack Kerouac (década de 50)

Evidente que entre On The Road e Girls (ou Reality Bites) há um abismo de distância. São outras épocas e representações de juventudes bem distintas. O que se busca romantizar em cada uma dessas representações também é diferente. No entanto, há alguns pontos de semelhança. Troy parece ser uma versão anos 90 de Neal Cassady, amigo de Jack Kerouac, conhecido no livro como Dean Moriarty. Eles têm em comum o egoísmo e a porra-louquice, embora Troy seja uma versão mais mimada e conformada do personagem que praticamente conduziu o ritmo frenético de On The Road.

Neal Cassady, ou pelo menos a imagem dele que ficou imortalizada na obra de Kerouac, era mulherengo, hedonista, preferia viver o momento do que pensar no futuro. Ele, assim como os outros personagens que caracterizaram a geração “Beat”, usavam seu tempo para realizar seus próprios desejos, nunca o dos outros. Ligavam apenas para aquilo que diziam respeito a eles, tanto que, em certo ponto do livro, Jack Kerouac (ou Sal Paradise, como é chamado o personagem-narrador) percebe com uma ponta de incômodo o quanto ele está vivendo em função de Neal, atravessando o país várias vezes para encontrá-lo e para embarcar nas aventuras que são, acima de tudo, uma necessidade do amigo.
Enquanto em On The Road o ato de vagar sem direção é feita com o objetivo de encontrar o êxtase e o prazer de cada momento, fugindo assim do controle da sociedade capitalista (embora mostrado com algum grau de romantização), em obras como Reality Bites e Girls o ato de vagar sem direção é apenas a consequência de uma juventude ansiosa e confusa demais.

O desprendimento evidenciado pela geração “Beat” evoluiu e adaptou-se aos novos tempos, resultando em uma nova e distorcida representação de uma juventude que acredita merecer o mundo simplesmente porque sim – fazendo muito pouco esforço para isso. Dessa forma, a inconformidade com as expectativas da sociedade para alguém “bem-sucedido” soa como rebeldia em On The Road e apenas como apatia em Girls, embora em ambos os casos os jovens estejam, por conta própria, desbravando os próprios caminhos.

O quanto isso tem a ver com a juventude atual, de verdade?

É certo que os exemplos acima, todas integrantes da cultura norte-americana, podem não dialogar completamente com a realidade brasileira. Da mesma forma, é impossível enclausurar a juventude em um tipo único de pensamento ou comportamento, sendo ela tão diversa quanto as pessoas que a integram. Mas como aqui se fala de representação, é importante se ater ao significado que ela carrega – especialmente porque o Brasil, embora situado na América Latina, absorve muito da cultura norte-americana. Aliás, esse comportamento tipicamente brasileiro de se voltar para si próprio e praticamente ignorar a cultura e a vivência de seus vizinhos sul-americanos tem muito a ver com essa síndrome do jovem-que-se-acha-muito-especial.

A questão é que toda idealização pode ou tenta ser reproduzida. Ou então funciona para validar e glamourizar comportamentos já existentes. Isso pode não resumir uma geração, mas aponta uma tendência: talvez a de jovens que não sabem reagir aos nãos da vida, porque foram ensinados que são especiais; ou a de pessoas tão obcecadas por elas mesmas que têm dificuldades em lidar com o outro (como dá para ver em algumas cenas constrangedoras de Girls, quando Hannah dá muitas bolas fora); ou ainda a de jovens que foram tão sufocados pelas exigências da sociedade que não sabem mais o que fazer e assim se rendem a um conformismo que podem envernizar com o hype dessa juventude romantizada vista nos filmes, sem se perguntar: será que o retrato dessa geração é tão bonito e intenso quanto a cultura pop faz parecer ser?


Leia outros textos da autora em alinevalek.com.br/blog/