Em defesa das fanfics

“Fellowship of the cats — The Lord of The Whiskers” ilustração do Wall Street Journal

A palavra “fanfic” não é nenhuma novidade na internet. Aliás, fanfic e internet andam de mãozinhas dadas. Mas ultimamente a palavra tem surgido com frequência num significado diverso daquele que sempre foi conhecido — e praticado — por quem habita o mundo internético e produz conteúdo aqui dentro.

Não sei exatamente como aconteceu, mas “fanfic” passou a ser palavra usada para designar textão mentiroso. É aquela coisa: a linguagem é fluida, as palavras mudam de significado, se tornam o que fazemos dela, etc. Ok, compreendo. Mas isso não deixa de fazer com que eu tenha um troço nervoso toda vez que chamam mentiras, boatos e delírios de “fanfic”.

Consequências: a palavra ganha um peso pejorativo; as pessoas vão achando que fanfic é isso mesmo, só um monte de mentiras ou devaneios de alguém atrás de alguns likes.

Que a palavra de fato mude; que fanfic agora englobe toda uma nova categoria de textos; que passem a chamar até biscoito de polvilho de “fanfic”. Não é na tentativa de “corrigir” seu significado que venho escrever, mas aproveitar o momento para tratar um pouco de fanfic do modo como a conheci.

tem até wikiHow de como criar fanfics

Fanfic vem de fan fiction. Ficção de fã.

É quando alguém gosta tanto de determinada história que se apropria de seus personagens, enredo ou cenário para construir uma narrativa nova; não para visar o lucro ou roubar a ideia do autor original, mas por diversão, amor pelos personagens e até mesmo como forma de homenagem.

São histórias escritas por fãs para fãs, reimaginando mundos fictícios ou explorando suas imensas possibilidades. É quando o fã se envolve tanto com a história que não deseja vê-la esgotada. Faz com que ela transborde para fora de sua cabeça em forma de criação.

Como cosplayers, que literalmente vestem determinado personagem para vivê-lo na pele por um breve momento, o fanfiqueiro também se veste da história e permite que ela se estenda.

A existência das fanfics evidencia como a leitura está longe de ser uma experiência passiva; a decodificação e interpretação da história são partes essenciais de sua construção. Quem escreve precisa de quem lê. Uma história só está completa quando chega aos leitores. Essa co-criação já está presente na experiência ativa da leitura; a fanfic apenas a extrapola.

Muitos autores incentivam seus fãs a criarem fanfics derivados de suas obras. Outros já não gostam tanto da ideia, como George R. R. Martin, que já declarou ser contra, embora os fãs especulem e criem tantas teorias sobre a saga ainda não concluída de As Crônicas de Gelo e Fogo, que não é mais como se apenas o autor estivesse contando essa história.

De uma forma ou de outra, o universo das fanfics não é ignorado por quem produz conteúdo autoral. Exemplo: em um dos episódios da série animada Hora de Aventura, o Rei Gelado chega a escrever uma fanfic reimaginando os personagens originais com o gênero trocado: assim Finn vira Fionna e Jake vira Cake (obrigada por isso, Rei Gelado!).

Fanfics também costumam ser uma forma de iniciação na escrita. Hoje sou escritora, mas na adolescência escrevia muitas fanfics, que acabaram me servindo de exercício criativo. Como na experiência de fazer fanzines (sobre a qual também escrevi no Medium), aprendi muito como fanfiqueira.

A maioria das minhas fanfics eram sobre o universo de Sandman, criado por Neil Gaiman. Em algumas histórias, eu criava uma ficção usando os personagens dele, os Perpétuos, e em outras eu me baseava no mundo criado por ele, especialmente o Sonhar, para criar meus próprios personagens e contar suas histórias ali dentro. Ao pegar “emprestado” os personagens ou mundos de Gaiman, eu podia me concentrar na narrativa e desenvolver minha habilidade de contar a história.

Isso também fez com que eu buscasse ler as histórias com mais atenção, não só recebendo a narrativa de forma passiva, mas ativamente buscando observar como Gaiman contava uma história.

Essa experiência me ajudou a treinar e a experimentar formas narrativas que mais tarde absorvi no meu próprio trabalho.

Muitos autores hoje consagrados também já escreveram fanfics. Como o próprio Neil Gaiman, que escrevia as suas baseado em Conan e Lovecraft. Ele até mesmo já escreveu uma fanfic sobre David Bowie.

fanfiqueiro, eu?

A escrita amadora de fanfic nem sempre precisa ter como finalidade um dia se tornar profissional. Não é ruim o caráter amador das fanfics; pelo contrário, é maravilhoso encontrar uma modalidade na escrita em que é possível escrever sem se levar a sério, apenas como entretenimento ou forma de aprofundar sua relação com determinada história.

Escrevi muita fanfic principalmente para me divertir, como da vez em que peguei emprestado o universo e o enredo do jogo The Legend of Zelda: Ocarina of Time e coloquei meus amigos como personagens, para ver como se sairiam nas situações do game, ou para definir quem seria o chefão, quem seria kokiri, quem seria a bruxa da loja de poções.

Ou ainda quando escrevi uma fanfic baseada numa música do Ira!, usando os integrantes da banda como personagens (!!!). Pois é, escrever fanfic usando seus ídolos da música quando adolescente não é uma exclusividade de quem curte One Direction.

Outra coisa bacana da fanfic é como ela acaba sendo um meio dos fãs buscarem representatividade. No ato de recontar as histórias, os fãs têm a oportunidade de mudarem aspectos dela ou inserirem elementos que os faça se enxergarem melhor naquele universo ficcional.

O ato de “shipar”, por exemplo. O shipping, em bom fanfiquês, é quando os fãs juntam, amorosamente falando, personagens que não necessariamente formam casal na história original. Como shipar Harry e Hermione, ou Marceline e Princesa Jujuba, Gale e Peeta, Sawyer e Kate, ou ainda personagens que nem fazem parte do mesmo universo, como Elsa e Soluço ou Daenerys e Loki.

eu shipo, tu shipas, nós shipamos

Para muitos fãs, a única possibilidade de ver seus personagens favoritos com uma identidade sexual igual à sua é em suas próprias imaginações, já que grande parte dos personagens é heterossexual. Nas fanfics e fanarts, os personagens da ficção podem ser mais próximos dos fãs inclusive em seus interesses amorosos. Por que não?

quem é #TeamIronCap não precisa escolher lados

Em resumo, fanfic é um exercício de imaginação nos domínios da ficção. É sobre se identificar com as histórias, fazer com que elas se expandam, aprender a contar histórias, ou apenas se divertir com elas.

Mentira, boato e delírio são isso: mentira, boato e delírio. Autor de hoax não escreve ficção, escreve desonestidade mesmo. Não dá para colocar mentira e ficção no mesmo balaio. Ficção não é aquilo que se faz quando se engana os outros ou quando se divulga informação falsa. Isso é outra coisa. Ficção não.

A ficção, mesmo a feita por fãs, é sobre criar mundos e pessoas que não existem para que possamos nos maravilhar com as histórias que contamos — e para que, no processo, possamos descobrir mais sobre nós mesmos.


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