O que aprendi fazendo fanzine

Como essa experiência marcou o início da minha jornada como produtora de conteúdo

O que você estava fazendo 10 anos atrás? Já existia internet, mas tudo era muito diferente. O que a gente vê hoje funcionando a todo vapor, na época era tudo mato. Ainda assim, eu já estava produzindo conteúdo. E nem internet eu tinha em casa.

Antes de escrever semanalmente a newsletter Bobagens Imperdíveis, antes de ser reconhecida pelos textos que escrevo na internet, antes de me tornar escritora e até mesmo antes de me formar em Comunicação, eu já fazia tudo isso, só que de uma forma diferente: do jeito que dava.

Aprendi a contar histórias, a autopublicar e a conversar com o público antes de saber o que era blog ou internet. Olhando em retrospecto, vejo que tudo o que eu fazia e a forma que eu fazia só podiam conduzir ao que sou e ao que faço hoje. Mas eu nunca poderia imaginar isso na época! Eu era só uma garota tonta fazendo quadrinhos e contando histórias por diversão e por uma total falta de amigos.

Então senta, que lá vem história.


Quando eu tinha uns 8 anos criei minha primeira HQ, a história da Kiki, uma ratazana milionária (não tente entender). Eu cheguei a desenvolver uma SÉRIE, com várias edições, então teve todo um desenvolvimento da personagem, um universo próprio (aparentemente um mundo onde ratos eram a elite) e até personagens coadjuvantes que depois renderam spin-offs (algumas edições eram somente sobre a sobrinha da protagonista!). Meu único leitor era meu irmão que, mesmo alguns anos mais novo, já desenhava muito melhor do que eu.

Lá pela 4ª série (que hoje é chamado 5º ano, veja como as coisas mudam), eu mudei de cidade e de colégio, tive vários problemas para me enturmar e sempre era tirada de tempo pelas meninas da minha sala. Foi quando eu conheci outra Aline, que também não se enturmava muito, mas era vista com admiração pelas outras. Aline desenhava.

Ela tinha um caderno pequeno, comum, onde desenhava uma HQ romântica que fazia o maior sucesso. Mas como, se não tinha internet, se ela não publicava de fato? Quando ela terminava o caderno, ele circulava de mão em mão, de forma que a maioria das meninas da turma já havia lido a HQ. Cada caderno era uma temporada, e os capítulos saíam de uma vez só, estilo Netflix.

Acabamos ficando amigas, ela me emprestou uma das temporadas, depois me ensinou a desenhar no estilo dela, o que me inspirou a fazer o mesmo. Criei minha própria HQ novelinha, enchendo um caderno de histórias, depois outro, depois mais outro. Eu não tinha tantos leitores quanto ela, mas eu já estava satisfeita em poder eu mesma criar as histórias que eu gostaria de ler.

A imagem acima é de um desses caderninhos de HQ que eu fazia. Era a história de uma mulher muito rica (eu tinha umas fantasias com gente rica, né?) e de sua empregada Marlene.

Era uma “série” de comédia, durou só uma temporada e não foi renovada. A “série” que eu me dedicava mesmo a escrever e que durou uns cinco caderninhos era sobre amores, intrigas, problemas de família e traições, no melhor estilo novela mexicana.

Acima, eu com uns 11 anos e minha melhor cara de “ah não mãe, não é pra tirar foto!”. Fui flagrada no momento em que provavelmente desenhava uma das histórias de Marlene e sua patroa. Perceba que eu usava o braço do sofá como mesa de desenho, e essa postura toda errada ainda faço quando estou escrevendo.

Na quinta ou sexta série, escrevi meu primeiro livro. A professora disse que quem escrevesse e publicasse um livro (“publicar” = imprimir para ela encadernar) para expor na Feira de Ciências do colégio não precisaria fazer o trabalho em grupo, com o resto da sala. É claro que eu não perderia essa oportunidade, né? Então escrevi “A Condessa e a Vampira”, uma história pavorosa não porque fosse de terror, mas porque era ruim mesmo. Mas na época achei genial, até porque tirei a nota máxima (e ainda me livrei do trabalho em grupo!).

Nessa época também fiz o meu primeiro trabalho como ghostwriter! Minha melhor amiga também queria escapar da Feira de Ciências, então ofereci a ela um livro que eu tinha escrito e que estava SOBRANDO (foi o que lembro de ter dito). Não cobrei nadinha, nem cheguei a pensar nisso. Simplesmente peguei a história, coloquei o nome dela como autora e entreguei pra ela em um disquete.

Não tive apego nenhum, e nem tinha por quê. Ali eu já sabia que eu sempre poderia criar uma história nova, quando eu quisesse.

O tempo passou, aprendi a desenhar e eu já escrevia histórias em quadrinhos sobre um mundo distópico que eu mesma criei, onde roqueiros formavam um grupo de resistência contra um governo tirano e opressor (muitos risos). Mas essa, ninguém lia. A graça de fazer essa história era praticar desenho e criar personagens.

Na foto, eu com uns 15 anos, quando eu achava que seria quadrinista.

Começar a publicar fanzines foi um caminho natural, porque todas aquelas coisas que eu criava e não mostrava para ninguém eram um preparo, um treino para o momento em que eu pudesse compartilhar minhas histórias com outras pessoas.

Fanzine, caso você não saiba, vem de “fan magazine”, revistas amadoras feitas de forma artesanal, sobre um tema do qual a pessoa seja fã, que podia vir com textão, desenhos, montagem, opinião, histórias, enfim, uma produção independente sem limites para a criatividade.

Meu primeiro zine foi sobre quadrinhos, e eu publicava análises sobre o que eu estava lendo, dicas de RPG, quiz, textos e desenhos de convidados (da minha turma), e as minhas próprias histórias em quadrinhos. Enfim, o tipo de coisa (e de linguagem) típica de blogs, coisa que eu só conheceria mais tarde.

Acho que foi a primeira vez que pessoas que eu não conhecia leram o que escrevi. Sim, circulava entre meus amigos, mas eu cheguei a vender exemplares que enviei pelo correio para leitores totalmente desconhecidos. Que emoção! Tal resultado foi possível porque anunciei o zine em algumas revistas, como nos classificados da Dragão Brasil, uma revista de RPG bem famosa da época. Também criei um PANFLETO, xeroquei e deixei algumas cópias na lan house da cidade. Dá uma olhada:

“matérias sobre a atualidade HQ” ai ai

Então, há dez anos, quando pessoas da minha idade já deviam estar entrando na faculdade, eu estava o quê? Fazendo fanzines. O que não deixou de ser, de certa forma, o início da minha formação em produção de conteúdo & autopublicação.

Eu não levei meu zine sobre HQ’s muito adiante. Eu não queria falar sobre as histórias dos outros, eu queria criar as minhas.

Comecei a escrever um fanzine que conseguiu atingir um nível de público equivalente às HQ’s da minha amiga Aline da 4ª série: era quase como um blog, em que eu contava histórias sobre mim (totalmente inventadas), em um universo maluco e com as pessoas que eu conhecia como personagens.

Foi o fator sucesso. Meus amigos gostavam de se ver como personagens e mostravam o zine para os amigos, que também passavam a me conhecer. Muitos deles acabaram virando personagens também, fazendo o alcance da história aumentar mais. Na época eu também escrevia fanfics, e em algumas delas eu transformava meus amigos em personagens, o que garantia a fidelização da audiência, que sempre pedia por novos capítulos. As pessoas querem se envolver com as histórias e tendem a acompanhar e a compartilhar conteúdos com os quais se identificam. Era exatamente o que eu estava fazendo, embora eu não tivesse a MENOR ideia disso.

Porque aprender a escrever é uma coisa; aprender a escrever quando se tem um público, algo totalmente diferente.

Esses eram os originais do meu zine. Perceba pelas imagens como o processo de produção era totalmente artesanal. Não tinha edição nem diagramação no computador; eu desenhava e finalizava tudo à mão, e os textos eu imprimia à parte, recortava e colava nas páginas que eu precisasse. Por isso as páginas enrugadas, as colagens, o corretivo.

Eu pegava uma página A4 e dividia em quatro partes: esse era o tamanho da página. Então eu começava a desenhar — e você acha que eu escrevia um roteiro antes? Coisa nenhuma. Eu descobria a história à medida que ia desenhando, um quadro de cada vez. Depois finalizava tudo com uma caneta nanquim, pintando as partes cinza com lápis mesmo.

Apesar da tosqueira aparente, tinha toda uma TÉCNICA, a complicada e mágica arte de montar um fanzine. Você pode tentar aí na sua casa. Você vai precisar de folhas de papel e uma tesoura sem ponta (brinks, uma régua é bem melhor).

Primeiro, o número de páginas do fanzine precisava ser um múltiplo de 4, ou dava bosta na hora de montar. Eu fazia com 12 páginas, portanto, usava 3 folhas tamanho A4. Para a montagem ficar certinha, como uma revista, era preciso colocar as páginas numa determinada ordem: por exemplo, a última página deveria ficar ao lado da primeira; a segunda ao lado da penúltima, e assim sucessivamente.

Assim, ó:

Na hora de xerocar, eu pedia para que a folha 1 ficasse na frente da cópia e a folha 2 no verso. A folha 3 era copiada no verso dela mesma; depois de xerocar a parte da frente, eu pedia para virá-la de cabeça pra baixo para a cópia sair no verso. Assim, essa folha rendia para 2 zines. Uma complicada tática que eu usava apenas para baratear a produção e aproveitar o máximo possível de folhas. A falta de verba sempre nos força a buscar soluções criativas.

Depois eu cortava as folhas no meio (usando uma régua), colocava as páginas na ordem, dobrava em formato de revistinha e grampeava. Essa parte também possuía uma elaborada técnica: para assentar o grampo lindamente, como uma PRO (profissional), eu abria o fanzine, posicionava uma borracha sob ele, precisamente no miolo, exatamente onde estava a linha da dobra. Abria o grampeador e usava a borracha como apoio para tascar-lhe um grampo no meinho, retirava a borracha e finalmente fechava o grampo com a unha ou outro utensílio que estivesse à mão.

E pronto, mais um fanzine publicado.

Mas por que estou contando como eu fazia os zines? Por que isso importa? Porque a produção e a montagem eram parte indissociável do “fazer fanzine”; não se tratava apenas de desenhar, escrever e criar histórias minimamente palatáveis, mas também uma atividade que exigia um domínio de todas as etapas da publicação. Do rascunho ao envio. Algo que incluía pensar em custos, formas de divulgação, distribuição e de diálogo com o público.

Sem querer querendo, sem ter a mínima ideia, ali eu estava treinando, de forma bem embrionária, o que hoje se tornou o meu trabalho.

meu blog e minha newsletter, meus principais canais de conteúdo atualmente

Os anos se passaram e eu deixei de lado esse negócio de desenhar. Fui percebendo que desenhar quadrinhos era, na verdade, um pretexto para eu poder contar minhas histórias — e que eu podia fazer isso muito melhor escrevendo.

O fanzine era o meio que eu tinha à disposição naquela época para poder fazer isso. Sim, tinha todo o trampo de pensar na história, no público, na montagem e no envio, todo esse processo artesanal que eu amava fazer (e escrever sobre esse tema me deu uma nostalgia danada), mas tiro disso uma lição muito maior do que a forma de produzir conteúdo de forma independente, original e sem grana.

Em tempos de ampla discussão sobre o rumo das redes sociais, num mundo onde conteúdo virou commodity e seus criadores discutem formas de se renovar, de se adaptar às mudanças e de oferecer relevância ao público, minha experiência como fanzineira me lembra que sempre vai haver outras formas de contar histórias e de se conectar com o público. Se acabar a internet, se o Facebook pegar fogo, se os blogs forem extintos, sei que vou arrumar outra forma de continuar com o meu trabalho.

A época em que eu fazia fanzines também me lembra de que há um tempo para cada tipo de produção, para cada projeto, para cada ciclo de histórias. Tudo tem um fim. Ontem, fazia fanzines. Hoje escrevo na internet, em blogs, na newsletter. E amanhã, onde vai ser? Só continuando a escrever para saber.

foto por Maria Ribeiro

Em 2015, autografando um livro que eu ilustrei, As Lendas de Dandara :D


Esse texto foi originalmente publicado na edição #86 da newsletter semanal Bobagens Imperdíveis. Para receber textos exclusivos por e-mail e muito amor todo sábado, assine grátis aqui.