Reflexões sobre o livro “O Complexo Arte-Arquitetura” de Hal Foster

O ponto de vista de Hal Foster neste livro é bastante claro: ele sai em defesa de práticas arquitetônicas e artísticas que insistem na experiência fenomenológica do aqui e agora, que resistem à subjetividade atordoada e atrofiada sustentadas pelo espetáculo, atuando de modo crítico ao status quo da arquitetura contemporânea.
Dedicado inteiramente a falar mal da arquitetura vigente, o livro me instigou à reflexão do que seria efetivamente uma arquitetura crítica acontecendo nos dias de hoje, disposta a se opor às técnicas de marketing e à redução da cidade como logomarca. Seria essa crítica de Foster realista ou um tanto quanto idealista, uma vez que é quase impossível fugir, de maneira total, deste poderoso mecanismo de atuação? Além dessa, outra questão que aparece é: haveriam outros possíveis paradigmas críticos para a arquitetura no mundo de hoje? E ainda: seriam apenas as práticas projetual e construtiva os únicos meios disponíveis e capazes de estabelecer uma crítica em arquitetura? Poderíamos considerar textos, desenhos, fotografias, e outras formas alternativas de mídia, como abordagens também críticas atuantes no campo da arquitetura e do urbanismo?
A seguir exponho, esquematicamente, algumas das possíveis correntes críticas em arquitetura no mundo de hoje, seguidas de seus respectivos exemplos. Que fique claro que os exemplos trazidos abaixo são fruto de um procedimento de “associação livre” acerca do tema, não havendo, portanto, pretensão de que sirvam de conclusão definitiva sobre o assunto.
Arquitetura como crítica política, ou politizada
Uma arquitetura politizada é sobretudo uma prática carregada de relevância social, preocupada com o significado urbano e com as concepções éticas do projeto. Grosso modo, entende-se como uma arquitetura politizada aquela engajada em resgatar as heranças crítico-transformadoras da disciplina através da reconstituição dos vínculos entre avanços técnico-construtivos e uma urbanização socializante. Seu discurso é, muitas das vezes, carregado de um certo tom utópico quanto à possibilidade de transformação do mundo em alguma coisa melhor.
Como exemplo prático, trago primeiro o caso da USINA, que desde 1990 vem desenvolvendo um trabalho multidisciplinar por meio de processos que acontecem em conjunto a movimentos sociais, tendo em seu currículo a concepção e execução de mais de 5.000 unidades habitacionais, além de centros comunitários, escolas e creches em diversas cidades e em assentamentos rurais do país. O grupo é formado por arquitetos/as, cientistas sociais e profissionais de outros campos de atuação, que trabalham na efetivação do direito à moradia e à cidade, através de projetos desenvolvidos em conjunto aos futuros moradores, bem como em projetos que visam inovação tecnológica e produtiva, além de criarem uma complexa organização de trabalho no canteiro de obras, promovendo, em muitas das suas obras, aqui que eles denominam como “mutirão autogerido”. (Para mais informações, artigos publicados no site http://www.usina-ctah.org.br/)
Um outro exemplo de arquitetura política, é o projeto dos Parques Biblioteca em Medellín, construídos para promover as práticas educativas, culturais e sociais de seus bairros circundantes, funcionando como pontos de transformação e fortalecimento das comunidades e culturas locais.
Este projeto contou com um sistema de transporte elevado capaz de se adaptar ao relevo acidentado da favela — conhecido como Metrocable — a partir do qual foi tornou possível a valorização desses parques. Ao todo, são nove Parques Bibiloteca construídos até hoje, localizados de forma a atender aos vários bairros e comunas de Medellín. Neste caso, os projetos de arquitetura e o urbanismo trabalharam alinhados à agenda política de transformação urbana da cidade, atuando, assim como “dispositivo de fortalecimento político”, ao passo que se encontram posicionados numa complexa rede de inter-relação entre arquitetura, programas culturais e envolvimento político (entre comunidades e Estado). (Sobre ideia de dispositivo ver AGAMBEN, Giorgio. “O que é um dispositivo”. In: “O que é o contemporâneo e outros ensaios”. Tradução: Vinicius Nicastro Honeski. Chapecó, SC: Argos, 2009. Para mais detalhes do projetos de Medellín, ver artigo de Cauê Capillé https://www.archdaily.com.br/br/884133/arquitetura-como-dispositivo-politico-introducao-ao-projeto-de-parques-biblioteca-em-medellin)
Neste ponto me pergunto se haveria espaço para um outro tipo de intervenção espacial capaz de atuar criticamente no âmbito da arquitetura e da cidade. Poderíamos considerar a apropriação informal do espaço — seja por artistas, arquitetos ou cidadãos em geral — ou até mesmo a instauração de novos usos em lugares vazios (ou “terrain vagues”), ou em espaços mal projetados ou mesmo entregues aos interesses externos à arquitetura (como a praça Mauá, por exemplo), como novas formas de se praticar uma “arquitetura crítica”? Um bom exemplo, edificado recentemente na cidade do Rio de Janeiro, seria a estrutura temporária levantada na praça XV pelo coletivo GRUA, em 2015. O projeto Cota 10 foi construído com objetivo de provocar reflexão a respeito da demolição do elevado da perimetral, promovendo discussão e debate sobre o projeto Porto Maravilha como um todo, projeto este que praticamente excluiu a participação ativa dos arquitetos e urbanistas de sua concepção, reduzindo a arquitetura a mera ornamentação. (Sobre o conceito de Terrain Vague, ver artigo de Sola-Morales em https://www.archdaily.com.br/br/01-
35561/terrain-vague-ignasi-de-sola-morales. Para mais informações sobre o projeto Cota 10, ver site: http://www.grua.arq.br/projetos/cota-10).
Do ponto de vista da teoria, figuras como Pier Vittorio Aureli e Michael Hays saem em defesa da ideia da autonomia do projeto de arquitetura como forte instrumento de luta contra a transformação do espaço político em mero espaço de gestão. Em linhas gerais, a autonomia da arquitetura pressupõe a organização da disciplina num corpo de elementos e operações que a
separam de qualquer lugar ou tempo particular, ou seja, quando a disciplina se volta para a investigação dos seus próprios meios. Em Aureli, o conceito de “político” em arquitetura aparece como a resposta crítica da disciplina aos recentes processos de urbanização, que segundo ele, tendem a substituir política por administração. Segundo ele, uma vez resgatado o seu poder de
autonomia crítica, a arquitetura voltaria a ter consciência de sua essência política, evitando, assim, o seu enfraquecimento e a sua redução à mera decoração. Para Hays, a autonomia articula uma maneira da arquitetura intervir na cultura negativamente, através da resistência ao colapso em
algum outro discurso. (Ver artigo de Gabriel Kozlowski em http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.190/5999)
Arquitetura crítica à arquitetura
Um trabalho engajado em buscar a autonomia da arquitetura é o de Peter Eisenman, que numa fusão entre teoria e prática, estabelece uma outra natureza crítica em arquitetura, na medida que dedica-se a repensar seus valores, sua ideologia, seus meios, sua função, etc. Ao invés de explorar a experiência fenomenológica do espaço, Eisenman busca em seus projetos explorar matrizes essencialmente conceituais, a partir das quais torna possível a superação dos valores e procedimentos tradicionais de projeto, bem como reinventa novas espacialidades. Nos últimos 50 anos, sua prática teórica se mantém ativa no debate pósmoderno/contemporâneo, inicialmente através do IAUS (Institute for Architecture and Urban Studies) e posteriormente com a Revista Oppositions. Ao que tudo indica, o principal objetivo do trabalho de Eisenman é atingir aquilo que, segundo ele, não foi realizado na arquitetura moderna: o verdadeiro “corte epistemológico com arquitetura clássica e humanista tradicional.” Nesse sentido, Eisenman busca, através da autonomia crítica, tencionar os limites da interioridade da arquitetura, a fim de desenvolver um novo tipo de processo projetual não previsível e não intencional, viabilizando assim, o aparecimento de uma outra arquitetura; uma arquitetura do entre, conforme o próprio arquiteto denomina, não mais legitimada pela presença, imagem e semelhança, mas capaz de revelar outras camadas e dimensões, como as do acaso, da diferença e do índice.
É interessante observar que apesar de compartilharem, em alguma medida, o mesmo interesse de transgredir os limites da tradição da disciplina da arquitetura clássica/humanista/funcionalista, Peter Eisenman e Rem Koolhaas desenvolvem seus projetos por caminhos bastante distintos. Enquanto Eisenman busca essa transgressão dos limites via autonomia e diálogo com outros campos como linguística e arte, Koolhaas busca encontrar suas estratégias projetuais na invasão e incorporação da realidade metropolitana.
Ainda que Koolhas esteja disposto à questionar os caminhos seguidos pela arquitetura pós-moderna — tanto do ponto de vista teórico quanto prático — o arquiteto se coloca numa posição incomoda, um tanto controversa, no sentido que ao mesmo tempo que revela em sua produção uma busca persistente em desvendar as forças envolvidas na construção da arquitetura dentro do
mundo globalizado, não rejeita sua posição de Star Architect, tendo em sua cartela de clientes nomes como a luxuosa marca italiana de alta costura Prada. Assim, o arquiteto é amplamente enaltecido e criticado por simultaneamente teorizar, projetar e construir uma arquitetura voltada
para o mercado e para a sociedade globalizada e neoliberal. Entretanto, para Koolhas, seria justamente o profundo conhecimento dos processos de poder, o instrumento capaz de fortalecer a figura do arquiteto, de maneira que lhe daria força para trabalhar a favor de sua real intenção. Ao que tudo
indica, Koolhas tem buscado romper com um certo tom de lamúria e reclamação proeminente nos discursos recentes dos arquitetos, que segundo ele, tem se revelado uma mistura esquizofrênica de onipotência e impotência. Distante disso, estabelece uma postura ativa frente aos desafios
impostos pela globalização, visto que não se opõe a associar-se à grandes corporações e aos governos na execução de projetos bilionários. Ainda que por isso torne-se alvo fácil de critica do discurso anticapitalista, seu afiado trabalho teórico não deixa a desejar, ao passo que até seus críticos mais severos admitem a veia subversiva de muitos desses projetos. No texto “Junkspace”, lançado nos anos 2000, Koolhaas revela a realidade da presença insignificante da arquitetura frente ao espaço-lixo que domina a produção da cidade contemporânea, escravizada pelo neoliberalismo desenfreado. O próprio Hal Foster chega a comparar a “aspereza ética” de Junkspace com o texto “Ornamento e Delito” de Adolf Loos, do começo do século XX. Segundo ele, ambos os autores sonham com um “lugar autônomo” em um mundo heterônomo. Mas esse lugar autônomo, para Koolhaas, não significa uma liberdade fictícia para fazer uma arquitetura “desejada pelo arquiteto”. Ao contrário, a almejada autonomia, para Koolhaas, está na consciência do que
realmente constitui a profissão hoje, suas atribuições e limites, para que assim seja possível conquistar sua legitimidade e aí sim, sua autonomia, que por sua vez trará a possibilidade de criar e propor alternativas para a sociedade contemporânea. Ao que parece, Koolhaas encontrou uma boa maneira de atuar num campo onde a arquitetura é valorizada, porque útil e desejada, tornando possível a reconquista de sua posição de poder. (Em caso de interesse no tema, ler artigo de Patrícia Pereira Martins, “Poder e Ética na obra de Rem Koolhaas” publico na edição 21 da Revista Risco, da IAU-USP, em 2015.)
Arquitetura em defesa dos meios locais
Há um outro tipo de arquitetura que se opõe à imagética, no sentido que se direciona ao respeito pelo território, pelas condições do lugar e do clima, seguindo uma certa estratégia de simbiose entre paisagem e cidade. São arquiteturas que tendem à economia de meios, buscando formas atemporais, voltadas para o seu próprio contexto, sua própria cultural, dedicada a explorar o território e a sua topografia. Esta prática, muito mais compromissada com o lugar do que com o espaço e, por isso combativa à falta de identidade do estilo internacional, foi denominada por Kenneth Frampton como “Regionalismo Crítico”, embora hoje existam varias correntes de pensamento, principalmente na América Latina, que rejeitem esta ideia, na medida que a consideram fruto de uma visão limitada e ultrapassada do centro para a periferia (refiro-me por exemplo à teoria de Marina Waisman em “O interior da história: historiografia arquitetônica para uso de latino-americanos”. São Paulo, Perspectiva).
Uma outra leitura poderia sugerir que os trabalhos em arquitetura dedicados ao lugar, tendem a realizar outras poéticas sensíveis à arquitetura e a cidade, uma vez que se desenvolvem como novas composições sensíveis dos espaços, criando novas formas de habitar o mundo, resgatando para o projeto sobretudo a noção de escala. Refiro-me aqui principalmente à obra de Álvaro Siza e seus renomados discípulos portugueses — Eduardo Sotto de Moura, João Nunes, dentre outros.
No Brasil, penso como “parte” desse movimento, as obras dos arquitetos João Filgueiras Lima, o Lelé e de Paulo Mendes da Rocha. É nítido como a série de hospitais da Rede Sarah é sintonizada com o debate internacional sobre a sustentabilidade e cuidados ao meio ambiente, além de pertencerem à uma espécie de evolução de preocupações anteriores (herança do movimento moderno), como conforto térmico-ambiental, industrialização da construção e papel social da arquitetura. Quanto à obra de Paulo Mendes, é notável a maneira com a qual o arquiteto integra seus edifícios à cidade de São Paulo.
Considerações Finais
Por fim, a titulo de reflexão, gostaria de trazer para o debate outras possíveis estratégias críticas acerca dos temas da arquitetura e da cidade, que poderiam se estabelecer em outros campos de trabalho, como por exemplo na fotografia. Como exemplo, cito o livro de fotografias “Ressaca Tropical”, de Jonathas de Andrade, composto por notas de um diário anônimo resgatado do lixo, que se estendem de 1973 a 1977, intercaladas por imagens de quatro fontes distintas: vistas aéreas do Recife em preto e branco da coleção do fotógrafo Alcir Lacerda; fotos em negativo colorido de um acervo amador; imagens de arquivo da Fundação Joaquim Nabuco; e fotos de prédios modernistas deteriorados, feitas por Jonathas em 2008. Neste livro, é possível notar um certo alinhamento de Jonathas com um debate maior que vem acontecendo no Recife acerca do legado modernista e dos possíveis
destinos das cidades brasileiras, que parecem ter sido condenadas à destruição e à lógica da especulação imobiliária (refiro-me aqui, sobretudo, à uma série de manifestações que aconteceram no Recife intituladas de OcupeEstelita — que lutam pela preservação de uma área da capital pernambucana, comprada em um leilão e ameaçada pelo projeto “Novo Recife”, que pretendia construir 12 torres empresariais e residências no local. Um outro bom exemplo dessas linha de resistências pernambucana, é o filme Aquarius de Kleber Machado, que em alguma medida aborda a mesma temática). Voltando ao “Ressaca Tropical”, a pergunta que parece surgir diante das diversas fotos de arquivos expostas no livro é: até que ponto o recurso de sobreposição de imagens é capaz de causar algum tipo de impacto transformador/reflexivo no leitor/observador. Ainda que as fotos do livro de Jonathas revelem indícios de uma cidade que já não exista mais, de alguma maneira elas são capazes de alimentar o olhar do leitor, no sentido que proporciona subsídios suficientes para que ele seja capaz de repensar e estabelecer algum tipo de crítica em relação à cidade em que vive. Conforme diria o filósofo e historiador francês Georges Didi-Huberman,
“Quem não sabe olhar atravessa a ruína sem entender”.
Eu diria que, no mínimo, os frames recortados das cidades através do olhar do fotógrafo, nos proporcionam uma oportunidade única de olharmos duas vezes para aquilo que se torna tão banal e evidente no mundo real.
Referências Bibliográficas:
Hays, Michael. Critical Architecture: Between Culture and Form. Disponível em https://gbaydar.yasar.edu.tr/wp-content/uploads/2014/02/5-Michael-Hays.pdf
Montaner, Josep Maria; Martinez, Zaida Muxí. Arquitetura e política. Ensaios para mundos alternativos.
Rendel, Jane. A place between, Art, Architecture and Critical Theory. Disponível http://www.eki.ee/km/place/pdf/kp3_14_Rendell.pdf
Cordeiro da Costa, André. A crítica na arquitetura. Do panorama à realidade brasileira. Disponível em http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/16.187/5887
