Fábrica de Diplomas ou a Cultura do Vestibular

A universidade no Brasil, hoje, funciona como uma espécie de celeiro, no qual a sociedade nutre profunda esperança de que o sucesso só é alcançado por meio daquela — logo, todos devem passar por ela. Entretanto, há um paradoxo se levarmos em consideração leis básicas da economia apresentadas a nós pelo economista e filósofo Adam Smith. Segundo ele, quanto maior a oferta, menor será o valor de mercado, e vice-versa. Em suma, oferta e demanda são grandezas inversamente proporcionais, e por esse motivo fazer com que todos tenham um diploma de curso superior é uma ideia, no mínimo, ludibriada, uma vez que todos se tornam iguais e assim perdem o seu valor.
Uma verdadeira bola de neve. Enquanto a quantidade de graduados vai se acumulando e os diplomas perdem o seu valor, as pessoas desistem de procurar um emprego na sua área e migram para atuar em outras. É o que aponta a pesquisa do IBGE, a qual revela que 53% dos graduados atuavam em área diferente daquela na qual se formou. Esses dados deixam muito claro o tamanho do caos causado por essa ideia absurda de que todos precisarem de um diploma. Caos ao quebrar a cabeça nos anos de graduação e também na hora de pagar os custos do curso, que não são baratos. Poder-se-ia argumentar que estudou numa instituição pública, o que no final dá no mesmo, pois o dinheiro que o governo gastou com a sua formação foi o seu dinheiro. O problema se repete entre aquelas pessoas que são subutilizadas, fato que ocorre com muita frequência entre os administradores, que ainda segundo a pesquisa correspondiam a 30% de todos os graduados, mas apenas 5% realmente exerciam a função para a qual se especializaram, e 9,4% eram assistentes administrativos, função que pode-se assumir com um diploma técnico, isto é, dispensa a necessidade de um curso superior.
Todos esses problemas têm origem numa conclusão equivocadas sobre as universidades: de que elas são para todos. Proferir tal opinião em público — a saber, que a universidade não é para todos — é motivo suficiente para que lhe xinguem, mesmo que não compreendam nada sobre o assunto. A universidade não deve, de modo algum, ser para todos, mas para qualquer um. Ela deve estar aberta para aqueles que aceitem e estejam comprometidos com seus objetivos fundamentais e valores. A universidade não deve se adaptar ao aluno, este é quem precisa se adequar àquela. Essa escola superior está fundada em um tripé: ensino, pesquisa e extensão. O primeiro remete-se a docência, o segundo a manutenção de pesquisas para que se “criem” novos conhecimentos e desenvolva, por exemplo, a cura de uma doença X, e o terceiro a práticas iniciativas que permitam atuar além dos muros da universidade, isto é, aplicar os conhecimentos adquiridos na sociedade. Esses três fundamentos devem caminhar juntos, no entanto é bastante evidente que o que ocorre no Brasil é uma macro valorização da extensão em detrimento dos outros dois. Os jovens ingressam na instituição com o objetivo, na grande maioria das vezes, de se formar e ir para o mercado de trabalho, esquecendo-se de que a pesquisa e o ensino também compõe a base daquilo que é chamado de graduação. Conclui-se, pois, que esse pensamento transforma a universidade numa mera fábrica de diplomas, os quais perdem os seus valores pela grande disponibilidade e também pelo “esquecimento” daquele tripé que dá sustentação a graduação.

- O pensamento nas escolas
Quem não já foi perguntado o que iria fazer quando concluísse o ensino médio? Ou o que queria ser quando crescesse? São perguntas habituais, sobretudo nas escolas brasileiras. O fato é que a grande maioria — e inclusive nós — sempre respondíamos algo que demandasse a universidade; alguns insólitos não se encaixavam nesse padrão, e claro, eram pressionados a decidirem o que queriam, porque, afinal, ele precisa “ser alguém”, precisa da da academia para ser bem sucedido. É um fato que essa linha de raciocínio permanece hegemônica dentro das escola e principalmente dentro da cabeça da massa. Mas afinal, porque isso acontece? Esse pensamento é decorrente de alguns motivos principais: A institucionalização do ensino, que resulta na inibição da criatividade dos alunos e consequente desinteresse pela literatura e pelos estudos, bem como pelo do “esmagamento” do Estado com relação aos empreendedores, seja pela elevada tributação ou pela burocracia absurda.
O sistema educacional de vários países, inclusive o do brasil, poda completamente a criatividade dos alunos e os padroniza. Todos estão sujeitos às mesmas regras e tendo que decorar as mesmas coisas, da mesma forma, para que consigam tirar uma boa nota e passar para a “fase” seguinte. É como um processo de pasteurização, que destrói do leite, por exemplo, micro organismos. Da mesma forma a pasteurização humana vai destruindo tudo que há de diferente em cada aluno, podando toda a sua criatividade e a substituindo por decorebas, lição de casa, conteúdo inútil, conteúdo útil forçado e métricas de sucesso questionáveis.
Ao final do processo você aprende a querer o que queriam que você quisesse; sabe muito do assunto que disseram ser importante, e quase nada daquilo que você acha interessante. No final de tudo você talvez quisesse saber mais sobre política e menos sobre fisiologia animal, mas não foi guiado por esse caminho, pois fisiologia é deveras importante para ser aprovado no vestibular. A escola é apartada do mundo. Ela passa os conteúdos de uma forma fictícia, de modo que os alunos não se sentem participantes do mundo; aprendem a balancear uma equação na química, mas parecem não compreender que aquela reação está ocorrendo naquele exato momento dentro dele. A escola não ensina que os alunos podem pôr em prática conteúdos aprendidos no local onde moram. Não cansam de repetir que é preciso realizar uma “política de intervenção” na redação do ENEM, no entanto, não pensam no que dá para realizar na própria comunidade.
O sistema educacional se tornou um poço de problemas: retira das crianças toda a sua criatividade, transformando-as em robôs que precisam decorar que o Hélio tem 2 elétrons em sua camada, põe o aluno em um mundo fictício, desconectando-o da realidade e por fim só possui o objetivo de colocar o seu aluno numa universidade, para que possa exibi-lo em um outdoor e assim, ter mais alunos para iniciar um novo ciclo.
E essa é a fábrica do pensamento hegemônico da sociedade: acreditar que sucesso é ter passado por uma universidade, pois, afinal, é assim que poderemos pagar babás para criarem os nossos filhos por nós, não é mesmo?
