9 motivos para uma garota ler Jogos Vorazes


Minha iniciação na Ficção Científica aconteceu por volta dos catorze anos: foi o primeiro presente que meu pai me deu sem eu escolher. Ele nunca foi de ler muito, mas ama filmes. É um cinéfilo de carteirinha, sabe nomes de atores, diretores, roteiristas, anos de lançamento e afins. Gosta particularmente de filmes que têm ação e roteiro bom (e alguns bem ruins, mas são seus guilty pleasures). Sempre assistimos a filmes juntos, portanto ele tinha uma ideia do que eu gostava. Ele então descobriu que um filme ao qual ele havia assistido antes de me conceber era baseado em um livro. Era a história mais famosa de Júlio Verne, 20.000 Léguas Submarinas, e foi este o escolhido para o presente.

Eu era uma leitora relativamente bitolada: de Harry Potter fui para clássicos de Stephen King, livros de alta fantasia e romances históricos que englobam respectivamente Senhor dos Anéis e Crônicas Saxônicas. A ideia de uma história com vários homens em um navio caçando uma nova espécie de animal a primeiro momento me irritou, mas naturalmente ela me prendeu com a linguagem simples e cativante utilizada durante o romance. Claro que foi anos depois que descobri que todos os livros de Júlio Verne eram direcionados a garotos e que explicitamente excluíam mulheres, mas deixemos este detalhe para mais tarde.

Embora a internet já existisse e aquele ano nós tivéssemos contratado um serviço (precário) de banda larga, eu era uma adolescente relativamente solitária e, em um momento complicado da vida, passava minhas tardes no shopping. E o que isso tem a ver com ficção científica? Bom, foi lá na livraria do shopping que eu me abriguei durante os anos restantes do Ensino Médio. Descobri que eu não precisava comprar os livros para lê-los, já que nos eram disponibilizados sofás e leitura livre na esperança que tudo aquilo resultasse na compra de um livrozinho sequer. Aprendi a ler em meio ao barulho e o desconforto da loja. Meu interesse foi desde O Diário da Princesa e a série de Bridget Jones até 1984, Laranja Mecânica, Viagem ao Centro da Terra e Caçador de Androides.

O gênero de ficção científica tem algumas das histórias mais recheadas de filosofia e drama dentre todo o espectro da literatura. O sentimento do futuro pode trazer reflexões que provavelmente não aconteceriam sem a influência ou o gatilho da FC. Além de ser alimento para o exercício do pensamento ela tem um papel importantíssimo comum na ciência em geral: a formação de futuros cientistas. Você já se perguntou sobre o porquê de haver poucas mulheres na área de tecnologia? [Caso a resposta se refira à biologia, recomendo que leia o meu primeiro texto — Dia das Mulheres e Neurociência] O incentivo simplesmente não acontece. Pergunto-me frequentemente o que teria acontecido se meu pai tivesse decidido não comprar Júlio Verne para me presentear e se decidisse pela indicação de Meg Cabot da atendente da loja (nada contra a autora, inclusive gosto muito de sua obra num geral). E é aqui que chegamos ao ponto principal do texto: a Ficção Científica teen (FCt) escrita e idealizada por e para mulheres.

Mesmo que o intuito dos livros de FCt não seja especificamente agradar apenas mulheres, é inegável que trilogias como Jogos Vorazes e Divergente atraiam muitas leitoras e que isso é certamente importante para iniciar uma longa jornada pela FC num geral. Aqui destrincharei certos aspectos dos livros de Jogos Vorazes que achei interessantes e mostram os 9 motivos pelos quais as garotas têm, atualmente, um ótimo ponto de partida nesta história empolgante e épica.

  1. Personagem principal não-branca:

Mais importante do que ter uma protagonista feminina é a apresentação de uma personagem que não tem etnia hegemônica. Há várias especulações sobre a ascendência de Katniss, mas muitas pessoas acham que ela é descendente de nativos-americanos, algo relativamente inédito no gênero. Ela se descreve como tendo cabelos lisos e negros, pele cor de oliva e olhos cinzentos. Mora em um dos distritos mais pobres de Panem, especificamente na Costura, a periferia do distrito, onde os habitantes são descritos como a própria protagonista: pele e cabelos escuros, motivo pelo qual a mãe e irmã de Katniss eram vistas como peixes fora d’água. Suas características eram mais típicas da área comercial do distrito, onde Peeta reside.

2. Excentricidade da Capital:

As roupas coloridas, maquiagens exuberantes e cabelos esquizofrênicos são uma realidade diferente do que pensa a ficção científica convencional. Passamos de um cinza metálico e amarelo-doente dos anos cinquenta para o azul-computador e prata-androide dos anos oitenta e atualmente para um branco berrante e anestesiado. Mas a trilogia não corrobora. A visão de Collins é a de uma sociedade cada vez mais adepta à fast fashion, superficial e escrava do consumismo às custas das parcelas pobres e miseráveis do país. É de conhecimento (ou sentimento) geral que a elegância e elite da moda é mais segura e frequentemente atingida através de roupas sóbrias e que, muitas vezes, a mistura de cores e estampas berrantes é perigosa e pode levar a pessoa ao ridículo (de acordo com a visão ocidental da alta costura, deixemos explícito), e é isto que a autora faz: ridicularizar os residentes da Capital.

3. Distrito 11:

Predominantemente negro, casa da personagem icônica Rue e maior distrito de Panem. Também é o mais pobre, o que nos leva a pensar que Collins é consciente não apenas da desigualdade social, mas de algo que inúmeros estudiosos e acadêmicos ignoram, a desigualdade racial. Há um motivo pelo qual os distritos mais ricos são majoritariamente brancos, certo? É a área agrícola do país, remetendo à época em que a economia agrária era baseada e fundamentada na escravatura em vários países-colônias europeus.

Por outro lado é provavelmente cansativo ver-se representada apenas na parcela mais pobre e oprimida da população. [E se você é negra e está lendo este artigo, já te recomendo qualquer obra da estimada autora Octavia Butler, cujas protagonistas eram pedaços de si mesma e que foi a única autora (incluindo autores homens nisso) de ficção científica a receber o título de membro da MacArthur Foundation].

4. Dentro dos Jogos Vorazes:

No circuito de guerra a dinâmica é interessante para dizer o mínimo. Primeiramente a ideia de patrocínio é fantástica: por que o consumismo desenfreado não se aproveitaria do maior programa da televisão na época? É interessante como os espectadores observam os Jogos Vorazes com uma impessoalidade que nos lembra o Big Brother (o da TV, não de Orwell). O governo da Capital cria uma atmosfera na cidade e em alguns distritos que remete os residentes a aproveitarem os Jogos Vorazes como apenas um programa de TV, da mesma forma que provocam pânico e temor em outros distritos. O sentimento de pertencimento dos espectadores é indesejado na Capital, de forma que eles transformam a sua jornada antes de entrar na arena em uma caminhada de moda, beleza e superficialidade, como se tudo fosse apenas ficção e ninguém fosse morrer ou assassinar dali a dois dias. A Capital institucionaliza e sistematiza o sadismo, tornando-o natural.

5. O marketing distópico:

Ele existe e ponto: mas para o quê será utilizado? A ideia de que a manipulação e a propaganda existem apenas com propósitos maldosos e maniqueístas é errada, e Collins passa isso mostrando a Resistência utilizando Katniss como símbolo da revolução. Por menos que a protagonista tenha gostado de ser manipulada pelo presidente e logo após pela líder da revolução, ela reconhecia sua importância ideológica. Nada teria sido atingido não fossem os vídeos e as mensagens inseridas a força na programação da televisão da Capital.

Além disso, há a simbólica amizade entre Katniss e Cinna, que a lançou como vitoriosa desde o início dos jogos, criando um laço de assistência e dependência ao qual Katniss não se dava o luxo de ter desde que seu pai falecera.

6. Katniss Everdeen e sua intransigência:

Em momento algum Katniss muda de opinião sobre a manipulação que sofre ao longo da trilogia. Seja pela Capital, seja pela Resistência, ela odiava ser emperiquitada por pessoas tão diferentes dela mesma. Quando sua mãe tomou a liberdade de fazer-lhe as tranças que viraram tendência, foi um gesto marcante, muito sentimental e afetuoso. Já nas preparações para os jogos, foram-lhe arrancados os pelos das pernas, virilha, sobrancelha, teve o corpo hidratado e esfoliado, o rosto maquiado e o cabelo arrumado. Constantemente ordenavam que ela não fosse Katniss Everdeen que odiava a Capital e seus habitantes, mas sim uma pertencente. Esta foi, inclusive, a primeira estratégia do presidente Snow: fazer com que os moradores do distrito não a reconhecessem como exemplo. A mesma artimanha foi utilizada pela Resistência, que queria fazer justamente o contrário, mas acabou percebendo que o mais inteligente era deixa-la ser razoavelmente livre (mas nem tanto assim… Spoiler!).

7. Katniss e Gale:

Vamos enfrentar o fato de que ela pode sim ter sentimentos fortes pelo garoto durante os três livros. Ela se sente culpada de maneira que não consegue identificar ao fazer teatro de amor com Peeta e até tem lapsos de imaginação sobre um futuro possível dos dois casados, com filhos. Mas, para o desespero dos garotos criados na geração da friendzone, Katniss escolhe por não se envolver com Gale. Não importa que ele veio primeiro, que ele apoiou Katniss e sua família até o fim, que ele a protegeu e amou. Ela simplesmente não o ama. Melhor que isso, Gale sabe aceitar o não. Há a normal rivalidade entre Peeta e Gale, mas ambos conseguem viver com a situação e, algumas pessoas diriam, acabam até gostando um do outro em certo ponto da narrativa.

8. A Saúde Mental tem visibilidade:

A mãe de Katniss diz explicitamente que estava doente no período pós-luto do marido e que se tivesse as ervas apropriadas, conseguiria ter se tratado na época. A referência à depressão é clara, e também é claro o papel que ela tem em uma dinâmica familiar, principalmente em uma família pobre. Levando em conta que o índice de transtornos psiquiátricos na população pobre é bem maior que o na rica, é importante mostrar as implicações que a falta de cuidados neuropsicológicos tem em uma família: Katniss, uma criança, teve de assumir o papel de provedora da casa para que ela e sua irmã não fossem levadas para os cuidados do governo, o que é a realidade de inúmeros jovens no mundo todo.

9. O amor é uma realidade construída:

Quando Peeta volta da Capital no resgate, ele não está mais apaixonado por Katniss. Acontece o oposto: ele volta com ódio e pavor da garota. Ele sofre um condicionamento por medo através de implantação de memórias falsas e alteração de memórias pré-existentes, conceito conhecido e generalizado na ficção científica mainstream. Mais do que isso, tendo em vista a preservação da própria vida, ele tenta matá-la, supondo que esteja em perigo mortal na presença da garota. Não importa quais forem os apelos e memórias que tente invocar, Katniss não consegue trazer o velho Peeta de volta. O processo de normalização da condição neuropsicológica do jovem é lento e progressivo. Até o final do livro ficamos na incerteza: ele se recuperou completamente ou não? Ele ainda a ama?

A desmistificação do destino amoroso é primordial para acabar com a ilusão-Disney de casais românticos. Seu relacionamento perfeito e ideal pode, sim, ter um fim inesperado e isso é perfeitamente normal, chegando a ser frequente para a grande maioria de casos e namoros.


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