A Maternidade Compulsória e a Depressão Pós-Parto


As mulheres das últimas décadas têm se inserido no mercado de trabalho e conquistado posições cada vez mais altas na sociedade, porém o legado deixado pela ciência do século XX, que buscava justificar a inferioridade feminina, ainda as atrapalha a desempenhar seus papéis em âmbito público e privado. O imperativo biológico determina que uma mulher possa ser considerada uma mulher apenas de acordo com seus órgãos reprodutivos e a capacidade de gerar e parir filhos, e é esta visão que corre em várias esferas, reforçando seu papel doméstico de exclusividade aos filhos e causando condições psicológicas que tiram da mulher a oportunidade de crítica.

É de senso comum a ideia de que a mulher, de acordo com vários trabalhos realizados ao longo do século XX, tem capacidade de linguagem, de intuição e empatia superior à dos homens. Embora várias destas pesquisas já tenham sido desconstruídas por uma série de meta-análises (reavaliação estatística de estudos científicos que abordam o tema), o assunto continua em pauta na ciência atual. Algumas reportagens de casos clínicos psicológicos apresentam a ideia de que associar a mulher obrigatoriamente ao papel de mãe a prejudica de maneiras irreparáveis em primeira instância.

Um estudo realizado por Patrícia Zulato Barbosa e Maria Lúcia Rocha-Coutinho (Programa EICOS/UFRJ) procurou mostrar as perspectivas de um grupo de mulheres em relação à maternidade através de entrevistas que abordavam os tópicos de decisão de ter ou não filhos; visão de maternidade; pressão externa; e relação com o trabalho. A conclusão que tiraram das análises das respostas foi a de que, no Brasil, estamos em uma fase de transição: antigamente era quase impossível desassociar a maternidade da mulher, e que atualmente isso toma outras proporções, o que acaba por tornar esta transição em um momento complicado e delicado do nosso desenvolvimento.

Nesta e em outras pesquisas foram detectados certos estigmas e pressões sociais aos quais a mulher está sujeita. Por exemplo, se ela for adulta e ainda não for mãe, é posta em posição abaixo à de uma mulher que cumpre seu papel primário de procriar. Além desta hierarquia, dentro do grupo de maternidade, as mães que cumpriram tal papel em situações não-convencionais tais como ter filhos fora da época “apropriada” (por volta dos 30 anos) ou sem ter as condições financeiras para tal também caem no ranking de aceitação social feminina.

Este conjunto de características e fatos sociais vem recebendo o nome de maternidade compulsória nos últimos anos, e suas consequências variam desde prejuízos econômicos até a Depressão Pós-Parto, que acontece nas mais variadas culturas no mundo ocidental, com poucas diferenças significativas, embora algumas peculiaridades devam ser levadas em conta pela condição socioeconômica de cada região.

A Depressão Pós-Parto, especificamente, é o maior exemplo do quão prejudicial a maternidade compulsória é para o nosso gênero. Diariamente mulheres que cometem suicídio ou abandonam e matam seus filhos são escrachadas na mídia, chamadas de desnaturadas, tudo acompanhado de um comentário padrão: “isso não é mãe!” E o que é ser mãe?

Especialistas afirmam que existe uma cultura de exigência que as mulheres sejam “super-mães” e que ela vem aumentando nos últimos tempos. Há um crescente consenso de que, em vez de os hormônios, tantas vezes culpados pela comunidade médica, serem a causa da Depressão Pós-Parto, a maternidade compulsória comprovadamente tem papel no período perinatal (que inclui pré e pós-parto), embora o termo ainda não tenha sido cunhado no vocabulário científico e apenas suas características sejam citadas.

Além da cultura das “super-mães” causar a Depressão ela também impede suas vítimas de buscarem tratamento, já que seus sintomas podem ser controversos aos olhares alheios. Vão desde tristeza e culpa até sentimentos negativos para com o bebê. Estes sentimentos podem causar o suicídio da mãe e a morte do bebê em casos extremos de psicose (vão de 4 a 5% dos casos a nível mundial), mas a grande maioria das atingidas apresenta tristeza, irritabilidade e cansaço durante o transtorno, muitas vezes a impedindo de cuidar do bebê.

À primeira instância o tratamento é realizado através de intervenção medicamentosa e psicoterapia (ambos podem ser encontrados no sistema de saúde pública brasileiro), mas o uso de antidepressivos impede que a mulher amamente o bebê, o que torna ideal que “cortemos o mal pela sua raiz”. Para que isso aconteça é necessária uma intensa mudança de cultura que valorize as mulheres como seres humanos e não as considere incubadoras ambulantes, que saiba respeitá-la antes, durante e após o parto, de modo a evitar violências durante o atendimento gestacional, a incentivar o parto humanizado e a fornecer a assistência psicossocial necessária após o parto através de maiores licenças maternidade e paternidade.

É importante lembrar que um dos principais meios de prevenir a depressão pós-parto é a proteção de entes queridos à mulher. Mães e gestantes com parceiros(as) disponíveis e atenciosos(as) tendem a ter o risco de desenvolver a doença diminuído. O apoio da família em geral é essencial, o que introduz adolescentes e mulheres solteiras grávidas nos principais grupos de risco do transtorno.

Principalmente, é necessário que elas saibam que não estão sozinhas e que a Depressão Pós-Parto pode e deve ser tratada.


Maternidade: novas possibilidades, antigas visões. (2007) Barbosa, Patrícia Zulato & Rocha-Coutinho, Maria Lúcia. Psicologia Clínica, 19(1), 163–185.

Reflexões sobre a maternidade: um estudo exploratório com mulheres acima de 40 anos. (2013) Fabiana Verza, Cristiane dos Santos Schleiniger, Gustavo Affonso Gomes. Athenea Digital, 13(3), 179–194.

Sex Differences in Human Corpus Callosum: Myth or Reality? (1997) Katherine M. Bishop & Douglas Wahlsten. Neuroscience and Biobehavioral Reviews. 21(5), 581–601.

Rastreamento da depressão pós-parto em mulheres atendidas pelo Programa de Saúde da Família. (2005) da Silva Cruz, E. B., Simões, G. L., & Faisal-Cury, A.. Rev Bras Ginecol Obstet, 27(4), 181–8.

http://phys.org/news/2014-08-super-parent-cultural-pressures-spur-mental.html


Originalmente postado em psiquevulva.com do dia 21 de Setembro de 2015.