Armadilhas Ginecológicas: Diagnóstico da Disforia Pré-Menstrual

Texto de Alissa Moe.

Estava no facebook, como uma boa internauta (ou má), e surge no meu feed um chamado da Associação Brasileira de Psiquiatria para um debate sobre algo que até então me era desconhecido: o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual. Pelo nome achei que fosse algo seríssimo e, como não era explicado no post, fui atrás de artigos que me dissessem com precisão do que ele se trata.

O primeiro que encontrei, na mídia popular, foi de um site chamado Pfizer, que dizia:

“Aproximadamente 75% das mulheres experimentam sintomas leves a moderados durante alguns dias da fase pré-menstrual, sendo que até 10% podem sofrer de sintomas mais intensos. Esta forma mais severa de síndrome pré-menstrual foi denominada de transtorno disfórico pré-menstrual (TDPM) e é caracterizada por sintomas que podem estar presentes na síndrome pré-menstrual, como a depressão, irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração, distúrbios do sono e do apetite, retenção de líquidos e dor no seio, porém com maior intensidade e que resulta na piora do desempenho social e profissional além da piora da qualidade de vida.”

Peguei-me pensando “será que eu tenho isso?”. Todos os sintomas batem com os meus, mas sempre achei que esta “piora” teria mais relação com a depressão e o transtorno de ansiedade. Imediatamente me perguntei o quão intensos eram estes sintomas, e se eles não estariam associados a alguma comorbidade, como as minhas próprias psicopatologias.

Esclareci-me de que o TDPM apresenta uma taxa de incidência relativamente baixa a olho nu (2% a 8% das mulheres o apresentam), mas se observada mais de perto concluímos que se trata de um problema de saúde pública, já que 8% da população feminina brasileira equivale a 7.782.836 indivíduas aproximadamente¹. Para que o diagnóstico seja feito deve-se visitar um psiquiatra para que seja realizada uma avaliação completa dos sintomas, que precisa atender a certos pré-requisitos, como ser reincidente, não apresentar comorbidades ginecológicas e outras patologias fisiológicas e, principalmente, os sintomas devem ser intensos ao ponto de atrapalhar a vida da mulher.

Embora seja um transtorno razoavelmente comum, ele é pouquíssimo comentado. As mulheres com queixas de sintomas intensos da TPM majoritariamente passam por um ginecologista, visto que o senso comum indica o problema como exclusivamente relacionado aos hormônios, algo íntimo da mulher, não cabendo outro calibre de opinião. E, majoritariamente, os ginecologistas receitam anticoncepcionais para “curar” a TPM intensa.

Algumas pílulas anticoncepcionais, como a Yaz, são recomendadas para os casos de TDPM pelos próprios fabricantes (e com “recomendadas” eu me refiro à indústria bilionária de marketing farmacêutico), mesmo que o DSM V (manual de patologias utilizado pelos psiquiatras) indique que o tratamento não inclui hormônios esteroides. Produzida pela Bayer, a pílula Yaz faturou cerca de U$700mi, aproximadamente R$2,8bi em reais apenas em 2010 e ainda não alcançou o “top 10” das pílulas mais rentáveis do planeta².

Os efeitos colaterais da pílula hormonal incluem complicações venosas, AVC isquêmico e hemorrágico, trombose, flebite, sem contar sua influência negativa em transtornos psiquiátricos como depressão e ansiedade. Em mulheres que apresentam algum outro fator de agravamento como obesidade, colesterol alto, uso de nicotina e as mais variadas trombofilias, o uso de pílula pode ser fatal. Os números de casos de complicação ou de morte são tão altos que um movimento de vítimas de anticoncepcionais se formou e cobra ação aos médicos e órgãos regulamentadores dos medicamentos.

Apesar das várias evidências dos frequentes efeitos colaterais e da praticidade da pílula, que já foi considerada símbolo da revolução sexual e feminista nos anos 70, ela foi completamente capitalizada. A saúde mental e ginecológica da mulher pertence aos médicos e os médicos pertencem à indústria farmacêutica.

Nós, mulheres e desinformadas, nos encontramos do lado mais fraco da equação: ambas as mulheres que sofrem e que não sofrem com a TDPM são entupidas de hormônios desnecessários e prejudiciais por sintomas que podem ou não ser patológicos. Vivemos em uma ditadura farmacêutica.

“Mas querida autora, e se eu quiser não sentir a TPM? Isso é uma ditadura inversa e eu faço o que eu quiser!”

Querida leitora, embora não seja do meu feitio, respondo seu questionamento com uma nova pergunta: por que você não quer sentir a TPM? Seria possível que as mulheres fossem condicionadas a acreditar que ela é alienígena ao seu corpo, que ela seja insuportável para as mulheres trabalhadoras nas suas empresas e suas casas? Aprofundando a questão, acredito que, por vivermos em um mundo masculino e fálico, nos seja imposto que mudanças de humor e as dores da menstruação não pertencem à sociedade. O quanto antes nos livrarmos dela, melhor, afinal a pílula cumpre perfeitamente estas funções.

Todo mundo tem o pleno direito de tomar pílulas anticoncepcionais e eu não julgo ninguém por isso. O que me preocupa é a desinformação da nossa comunidade feminina em relação a técnicas ginecológicas que são vantajosas financeiramente e socialmente apenas para as grandes indústrias. Mulheres morrem como consequência da epidemia do uso de anticoncepcionais. Diariamente.

E esta é só uma das armadilhas ginecológicas às quais mulheres são submetidas no Brasil e no mundo.


¹Valadares, Gislene C., et al. “Transtorno disfórico pré-menstrual revisão–conceito, história, epidemiologia e etiologia.” Rev Psiq Clín 33.3 (2006): 117–123.

²Watkins, Elizabeth Siegel. “How the pill became a lifestyle drug: The pharmaceutical industry and birth control in the United States since 1960.”American journal of public health 102.8 (2012): 1462–1472.


Originalmente publicado em psiquevulva.com no dia 21 de Outubro de 2015.

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