Nós por nós — Feministas pela Saúde Mental

“Os problemas da loucura giram ao redor da materialidade da alma.”

— Michel Foucault

Louca. Toda mulher já o ouviu. Toda mulher é louca algum dia. Ela é intrínseca a nós e vice-versa. Então por que o feminismo não aborda a saúde mental?

A realidade é que o feminismo pode fazer muito mais pela saúde de suas militantes do que realmente faz. E as resoluções passam longe das terapias em grupos virtuais. As “loucas permanentes” permanecem desabrigadas, já que não importa o lugar e a vertente em que ela tente se encaixar, será descartada com descaso.

Este texto servirá para colocar em reflexão o papel da louca no feminismo e do feminismo na loucura. Não é um ensaio e nem uma ficção. Com o objetivo de ser o mais direto possível, dividirei em tópicos as possibilidades desta junção:


1. Alerte-se para os possíveis sinais de crises suicidas.

Ela pode não conseguir se levantar sozinha. Muitas das mulheres com algum transtorno mental já desistiram da vida em geral.

Quando não é possível levantar da cama e escovar os dentes, fica difícil lutar pelos direitos das mulheres. Não julgue aquela amiga virtual que faz muitos posts melancólicos e que quer chamar atenção. Se não aguentar, por favor, deixe de segui-la nas redes sociais e comece a seguir com sua própria vida.

Leve a sério ameaças de suicídio. Você já deve ter escutado que “quem ladra não morde”, mas é exatamente o oposto com vítimas de suicídio: a grande maioria avisa antes de cometer o ato contra a própria vida. E se for pra chamar atenção? Se for pra chamar atenção, mostre que você se importa mesmo assim (caso se importe), porque o suicídio pode acontecer independentemente de seus motivos prévios.

2. Evite palavras com teor negativo.

Por mais legal que seja utilizar termos como “desgraçada da cabeça”, “retardada”, “histérica”, “bipolar”, “esquizofrênica” e “depressiva”, por favor, poupe-nos.

Além de machucar diretamente quem possui algum transtorno ou condição neurológica real, você machuca todas as mulheres.

Acreditem, quem ouve esses termos pode se sentir extremamente mal consigo mesma. Talvez ela nem fique incomodada com você, quem proferiu as palavras, mas vai piorar a saúde dela. Imediatamente. E se ela ignorar, é porque os termos já foram tão banalizados que ela já os aceitou, o que a prejudica diretamente, mas inconscientemente.

3. Pode ser difícil enquadrar-se no padrão de “tombamento”.

Este já é um tema frequente nas discussões feministas.

Sim, é maravilhoso que mulheres fora do padrão de beleza sintam-se empoderadas o suficiente para usar roupas da moda, mas ainda existem as que não se enquadram nem no “padrão das sem padrão”. Então talvez esteja na hora de revermos nossos conceitos de feminilidade e o que nos faz esteticamente bonitas aos olhos de todos.

Talvez esteja na hora de também exaltarmos belezas que não se baseiem em estética física e incitarmos uma mudança na cultura pop.

4. Não exponha mulheres.

A não ser que ela tenha feito algo realmente horrível, não a exponha na internet.

Vocês realmente acham que a exposição de uma pessoa vai “corrigi-la”? De duas, uma: ou ela vai fortificar seus pensamentos equivocados, ou vai desenvolver (ou piorar) algum transtorno psiquiátrico. Lembre-se de que a exposição pode levar ao suicídio de alguém.

E sim, eu estou apontando pra essa richinha entre existe privilégio cis vs. não existe privilégio cis. Mas pode ser generalizado para qualquer movimento.

Recomendo a reflexão antes de apertar o botão de printscreen: Isso vai ajudar e alertar outras pessoas ou eu só quero extravasar minha raiva? Se a resposta à primeira condição for SIM, ainda tenha a sensibilidade sobre a gravidade do que a pessoa falou/fez. Caso seja necessário o alerta, mas não a níveis extremos, procure fazê-lo por mensagem privada. E se quiser extravasar sentimentos, pelo menos apague o nome e a foto da pessoa do print.

5. Depressão não é o único transtorno possível.

Existem pessoas com bipolaridade, borderline, autismo, ansiedade, esquizofrenia e síndromes diversas que convivem com você no dia a dia. Pessoas com mudanças de opinião muito bruscas não representam mau caráter, humor volátil não é infantilidade, insensibilidade no discurso não é “filhadaputice”, não falar tchau antes de sair pode não significar que ela não se importa.

Se isso acontece perto de você, atente-se a sinais possíveis de algum transtorno. Seja compreensiva se tudo apontar para este rumo. Existem pessoas que não conseguem se controlar. Às vezes elas sabem o que fazem e às vezes não.

Embora não seja sua obrigação engolir sapo de pessoas sem noção, esta não é a única alternativa quando alguma característica acima é apresentada. Se não souber lidar, afaste-se.

6. Procure-a.

Sim, ela pode ter sumido sem dar notícias. Ela pode ter ignorado suas mensagens, ligações e campainhas. Mas não desista dela.

Se isso anda acontecendo, procure saber dos outros amigos: ela também está assim com eles? O que isso pode significar? Um relacionamento abusivo com namorada(o) ou pais? Depressão? Ansiedade?

Importe-se. Nem todo mundo consegue acompanhar o pique de balada que você tem. E isso também serve pra uma pizzada, ou maratona de séries. Uma pessoa em crise não tem ânimo ou cabeça para situações sociais, mas isso não quer dizer que ela te queira fora da sua vida. Não a force a fazer coisas que não queira, é impossível “chutar” a depressão para fora de sua alma. Apenas faça-a ter certeza de que você não a abandonou.

7. Às vezes precisamos ser salvas.

Toda mulher tem força?

Isso é mentira. Nem todas as pessoas do mundo têm força para enfrentar a vida.

Não é vergonha admitir que precisamos de heroínas que zelem por nós. Realmente precisamos parar de acreditar que a mulher sempre tem a possibilidade de virar contra o sistema e sair da situação em que se encontra.

Em um relacionamento violento, seja com um parceiro ou com ela mesma, muitas vezes precisamos de interferência externa. Deixadas ao nosso bel prazer, talvez fique tarde demais para acordar.

Nós podemos — e vamos — superar. Mas precisamos da ajuda de vocês, nossas companheiras de luta.

Avante :)

*Todas as imagens são do filme Perfect Blue, menos a primeira.

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