UM EXERCÍCIO DE FICÇÃO: COMO SERIA UMA CIÊNCIA MATRIARCAL?

Não nos enganemos: a ciência não é cética, não é neutra, não é passiva. É ascética. É enviezada. É agressiva. O monopólio masculino e branco nas ciências exatas, naturais e sociais teria, então, um papel imperial na manutenção do patriarcado como o conhecemos, o que não significa que devemos descartá-la como um todo. A ciência masculina nos trouxe inúmeros benefícios e esclarecimentos, no entanto… como seria uma ciência matriarcal?

Embora eu não seja nenhuma especialista em filosofia da ciência (talvez apenas uma iniciante), conto com minha experiência de vida no momento deste texto. Exerço aqui um momento de ficção e me concedo licença poética para imaginar como seria a tecnologia caso na pré-história a mulher não tivesse se tornado propriedade privada do homem, que não tivesse permanecido assim por milênios a fio até os dias atuais.

Meu primeiro contato com outra realidade feminina foi o livro Mulheres que Correm com os Lobos¹, de Clarissa Pinkola Estés, uma analista junguiana e doutora em estudos multiculturais e psicologia clínica. Nele a autora faz a análise de diversos mitos que encontra durante suas viagens pelo sul dos Estados Unidos da América e relata uma convergência destes em um só: La Loba, a mulher virgem, mãe e anciã, que, posteriormente, descobri existir em mitologia celta, africana (em várias etnias e culturas), grega, romana, nativo-brasileira em suas diversas formas e fantasias. Todas abordam a natureza da mulher como se fosse mística, boa e má, selvagem. La Loba conversa conosco de dentro para fora, como se nos dissesse repetidamente “Como você pôde se deixar dominar por este predador, minha querida loba?” e causa desconfortos em situações de opressão, segundo Clarissa.

Descartando a possibilidade de uma natureza humana e, portanto, feminina, ainda há um mito em comum de inconformidade com o domínio masculino sobre a mulher. A Loba é agressiva ao mesmo tempo que é mãe carinhosa. Se fosse ela a dominar o masculino, a ciência certamente teria tomado rumos diferentes. Arrisco a dizer que o mero fato de nascer-se com um útero, seios e quadris mais largos (embora de modo algum isto englobe todas as mulheres do mundo), com a capacidade de gestar, modificaria a trajetória tecnológica de maneiras impossíveis de serem imaginadas.

Em algumas culturas, embora a mulher seja a figura ‘masculina’ da tribo, providenciem a economia através da caça, da pesca e trabalho doméstico, os homens ainda detêm uma espécie de ilusão de dominância sobre elas. Embora não saibamos (e talvez nunca saibamos) se a agressividade é inerente ao homem, e se a habilidade social empática da mulher lhe foi imposta compulsoriamente e não natural, várias questões nos surgem quando lembramos da violência à qual somos submetidas junto dos homens. De onde vem tanta agressividade e individualismo no masculino? Sem esta característica, qual seria o nível da ciência balística? Ela sequer existiria? Se existisse, seria com os objetivos atuais? O descobrimento de fusão e fissão nuclear teria bombardeado e matado milhões? Viagra seria tratado como remédio contra disfunção erétil? Teríamos carros com capacidade de armas de guerra? Sentiríamos a necessidade de sermos velozes? Nossa noção de tempo seria de vinte e quatro horas? O cristianismo existiria? Teríamos nos separado da natureza essencialmente? A escravidão existiria em suas variadas formas? A ciência seria ocidental e europeia?

“Em termos da natureza selvagem das mulheres, é essa trivialização da violência, assim como o que os cientistas subsequentemente denominaram ‘aprendizado da impotência’, que não só influencia as mulheres a ficar com parceiros alcóolatras, patrões exploradores e grupos quee se aproveitam delas e as importunam, mas também faz com que elas se sintam incapazes de se erguer para apoiar aquilo em que acreditam profundamente: sua arte, seu amor, seu estilo de vida, sua preferência política.”¹

A ciência e o mito andam de mãos dadas desde o início dos tempos e, segundo pensadores como Lévi-Strauss, seguem o mesmo princípio de “necessidade ou desejo de compreender o mundo que os envolve”². Ou seja, procuram a verdade, equiparando desta forma filósofos, xamãs, sacerdotes, físicos, químicos, cientistas sociais etc. Se a mulher não tivesse seu desejo de compreender reprimido, muitos aspectos da nossa vida atual não existiriam, mas muitos existiriam. É impossível decidir quais, principalmente porque, como disse acima, não há maneiras de ser imparcial na ciência, e seguindo a lógica, já fico enviezada para tratar do assunto a partir do fato que existo em uma determinada cultura. Mas imagino que alguns acontecimentos se aproximariam desta realidade fictícia, embora eu parta de uma noção ocidentalizada desta, e seriam os seguintes exemplos:o aborto não seria tratado como crime, e provavelmente já seria possível realizá-lo sem sofrimento algum à mulher. A depressão pós-parto talvez sequer existisse. Pílulas anticoncepcionais seriam tratadas como remédios para tratamentos médicos, e não evitaríamos a menstruação. Partos seriam realizados pelas mulheres, não pelos médicos. Não esqueceríamos das fases da lua. Vibradores seriam mais bem adaptados para a vagina. A indústria da moda seria completamente diferente, isso se ela existisse. Não existiriam sutiãs. Ser mãe não seria considerado parte de sua natureza, mas parte opcional da vida de uma mulher cientista. Miojo provavelmente nem existiria e, claro, não seria considerado uma comida.

Talvez não tivéssemos a noção de que certas culturas são superiores a outras. Talvez estivéssemos “cada um na sua”. Talvez todos os aspectos dos quais reclamamos no mundo ocidental não existissem não fosse a agressividade da dominação patriarcal. Talvez fôssemos todos livres.

Desta forma, uma questão permanece no ar, direcionada ao feminismo branco e liberal (já que outras vertentes consideram o argumento feito acima): qual a vantagem em nos equipararmos aos homens? Não que realmente exista uma natureza feminina, mas seria apropriado querer ganhar o mesmo que eles e desconsiderar a força da mulher na revolução do mundo? Queremos nos enquadrar no mundo masculino ou transformá-lo em feminino?

Sabendo que receberia (ou receberei) críticas de homens e acusação de dominação mundial e misandria, termino o texto, deixando a todas nós no suspense e clímax de tantas perguntas. Como diria um filósofo famoso por aí: só sei que nada sei. Mas não deixarei La Loba morrer dilacerada pelo predador.

“Há um ser que vive no subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres. Essa criatura faz parte da nossa natureza sensorial e, como qualquer animal completo, possui seus próprios ciclos naturais e nutritivos. Esse ser é curioso, gregário, transbordante de energia em certas horas, submisso em outras. Ele é sensível a estímulos que envolvam os sentidos: a música, o movimento, o alimento, a bebida, a paz, o silêncio, a beleza, a escuridão.”¹

¹. PINKOLA ESTÉS, Clarissa. Mulheres que Correm com os Lobos: Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Editora Rocco. 2014

². LEVI-STRAUSS, Claude. Mito e significado. <https://sabotagem.revolt.org> Acesso em ago.2015.