O que aprendi comendo nacos do corpo de cristo

Tinha rico ali não, querido.

Pouca gente comeu tantos nacos do corpo de cristo, e bebeu tanto do sangue dele quanto eu. Fui criado indo na igreja três vezes por semana terçaquintaedomingo. Foi um período e tanto.

Eu gostava de ir, mas não gostava, entende, queria ficar jogando bola. Dia desses tinha um pessoal na rede falando de crente, de ladrão, daquela coisa toda. Lembrei do meu pai, que nunca foi ladrão. Ele tinha um escort 1986 vermelho comprado com muito suor. 18 horas de trabalho por dia.

O escortão tinha uns 10 anos de uso, mas parecia bem mais. Perdi as contas de quanta gente o escort levou para centro de recuperação para drogados. O cara se perdia na maconha, na cocaína, a família desesperava. Meu velho colocava o sujeito no carro, dirigia duas horas e deixava o sujeito na recuperação.

Não tinha sábado, não tinha domingo. Começou a babar? O pai levava. Começou a quebrar a casa inteira? Ia pro centro.

O escort era pau pra toda obra, e muita mulher da vizinhança foi para o hospital parir na viatura do meu velho. Muito filho de prostituta, muito filho de dependente de drogas. O pai trabalhava até a meia noite no atelierzinho dele e quanto tava colocando o pijama aparecia alguém pra parir sem ter como ir pro Geral. Ou um doidão querendo largar o tóxico. Lá ia ele. Eu não entendia nada, só via o carro detonado depois.

Quanta gente quase nasceu no Escort

Meu velho nem tinha cargo na igreja, mas fazia isso. Um dia chamaram ele pra ser porteiro da igreja. Eu achei aquilo uma afronta, o pai ficou louco de faceiro. Foi o meu fim. O pai escasquetou que eu tinha que ser o guri mais comportado da igreja pra dar exemplo para os outros. Como ele ia proibir a criançada de ficar caminhando no meio do culto se o filho dele tivesse no meio? Azar o meu.

Por essa época o evangelista da igreja foi afastado. Suspeitaram que ele andava ficando com um por fora, sei lá. O cara andava cada vez mais rico, e o pai com o escort cada vez mais detonado levando doidão pra Três Coroas. Lamentei porque ele tinha duas filhas da minha idade e bonitinhas, uma baixa e tanto na minha vontade de ir pro culto.

No último domingo do mês, na ceia, o pastor lia o nome de cada pessoa que tinha dado o dízimo e quanto. Fulaninho de tal e família: cem reais. Siclaninho: dez reais. Quem não tinha o nome lido era automaticamente classificado como não dizimista. Quem não dá o dízimo rouba do senhor.

Final de ano tinha festinha pra criançada. O pai e a mãe pediam ajuda pra um, pra outro, e a congregação montava uma cesta de doce para cada pequeno que aparecia. Rapaz, surgia piazada de tudo que era lado, criança que eu nunca tinha visto na igreja.

Nem lembro por que eu comecei essa história. Ah, sim, o corpo de cristo. Minha mãe foi escalada pra fazer o bolinho da santa ceia numa época. Não era como na igreja católica que servem aquele pão ruim. Não. Era um bolinho sem fermento, bom demais. Enchiam os copinhos de suco de uva, picavam o bolinho, e começava a musiquinha “vem cear o mestre chama, vem cear…”.

Sobrava bolinho e suco sempre.

Com a minha mãe comida sempre sobrava. E alguém tinha que tomar o suco já servido nos cálices, o bolinho picado. O corpo e o sangue de cristo. Deixavam pra mim e rapidinho ia tudo. Eu ia embora redondo de tanto corpo e sangue.

Rolava uma culpa de se empapuçar com o corpo de cristo e usar o sangue dele pra ajudar a descer. Eu me sentia meio culpado. Mas depois pensava que era melhor eu comer do que colocar o corpo de cristo no lixo.

Então eu comia o bolinho e o tomava o suco que a minha mãe doava pra santa ceia.

Por ter passado tanto tempo dentro de igreja, e ver tanta coisa (mesmo) eu fico puto da cara quando vejo esse tanto de preconceito que se tem com evangélico. E fico mais puto ainda quando vejo pastorzinho popstar ficando rico, se elegendo isso ou aquilo ou pegando a mulherada — em alguns casos fazendo tudo isso ao mesmo tempo.

Fico triplamente puto quando vejo igreja que só quer encher banco, mas não gosta de pobre. Querem gente, mas não querem ajudar ninguém. Gente linda e elegante dentro da igreja e que tem horror a quem passa necessidade.

Tudo isso me emputece por que dentro das igrejas tem muita gente boa, boa demais. Gente que gosta de gente. Como o meu pai, que sempre esteve lá por Deus, mas não deixava ninguém passar necessidade.

Um pessoal que faz a diferença nos bairros, que ajuda uma pá de gente. Nunca vi um dos tantos ex-drogados que o meu velho levou pra recuperação ir lá agradecer. Nunca vi uma daquelas mulheres que ele levava pra maternidade dizer muito obrigado. Quer saber? Nunca precisou. Meu velho fazia isso por que queria ajudar aquela gente. Ele tinha um pouquinho a mais, então dividia.

E isso é ser cristão. O resto é ritual.

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