a décima oitava tentativa

havia um peso tremendo no ar. talvez nos peitos de todos nós. não sei nelas, mas em mim era um misto de vazio pesado, de olhos desencontrados nas ruas, um amargor correndo nas veias, as mãos tremendo pela apatia.

— acho que algum dia você acordou e esqueceu de sorrir.

— ele já nasceu sem sorrir, ele não sabe o que é isso — , pilheriou Z, segurando minha mão e depois largando, sacudindo um pouco daquele ar agudo que cortava nossas narinas enquanto a chuva caía, caía.

poderíamos ficar quietos talvez pelo resto de nossas vidas e no começo de nossas mortes, pensei, mas depois tentei despensar, que bobagem.

tudo continuava estranho, mistura de chuva, neblina, fumaça, areia molhada e cheiro de carne queimada. as luzes riscavam nas faíscas e deixavam meu olhar enviesado relembrar ali e depois vestígios de abraços e vultos que balançavam sob a claridade de velas quase apagadas e raios nas dobras das nuvens.

— esse apartamento tá parecendo uma arca, não tá?

— uma barca?

e, no entanto naufragávamos

elas jogavam tarô

por um momento foi como se nenhum de nós três existíssemos ou estivéssemos realmente próximos do fim.

ou talvez estivéssemos somente no começo da criação. tentando.

as vozes tomavam formas vagas como as poças nas ruas nos dias seguintes esperando o sol para evaporarem e uma delas ou eu mesmo cheguei a dizer que lembranças não evaporam mesmo que feitas de brinquedos de amor em pó e quando evaporavam lentamente se juntando àquele ar pesado e insalubre repleto de cinzas de bichos e de gentes, como nossas conversas eventualmente pareciam se tornar. um tanto de podridão, outro tanto de mortes e escárnios e um monte de desenlaces não planejados. tudo em um imenso túnel que tomava a forma e os movimentos de intestinos a esmagar alimentos já sem força alguma de manter quaisquer organismos vivos.

elas riam enquanto as cartas saíam pela mesa

eu não ria

— um dia a barca vira

— um dia a arca para

perguntei, mas se este apartamento é arca (barca?) onde os salva-vidas e onde o outro exemplar de um macho para completar os casais

Z suspirou

— tá lá em cima, é Deus, vai que Ele joga a semente santa em mim ou J?

— nunca cansa de tentar… — J, gargalhou depois.

a gente espera (tenta?) como quem recolhe cartas para jogar e jogar

mas o apartamento sequer se movimenta, senão pela impressão das luzes e as águas que vão lavando pilastras e alicerces, golpes de misericórdia e acordes de músicas tristes e nós todos sem acordar em meio a nuvem tóxica que subia e enlouquecia

elas jogavam tarô e riam

eu só pensava no outro dia, chovendo ou não, eu teria de ir trabalhar

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