a décima quarta tentativa

o compromisso é não parar

não sei se luto por mim ou pelo mero senso de luta: há os caminhos como os de imaginar trezentos céus para se ficar

e depois? desesperar-se, arranjar uma nesga de esperança, um pedaço de potestades dependurados no pescoço para regurgitarmos nossa lama ou lançarmos uma criança doente no rio

talvez nem seja bom viver assim, cerceada por transeuntes silenciosos e um pirado que me observa desde que saí de um hospital com aquela sensação estranha de que tudo me bastava ao mesmo tempo que todo um rosário de memórias me dizia que não e que era complicado carregar o fardo de uma existência invalidada

o compromisso é não parar

então o que é jogar as pedras de uma arena de martírios com todos os leões banguelas? nadar por entre a lama e vestir um manto de desacertos, enquanto os dias são de desencontros, de portas que insistem em ficar entreabertas e, no entanto, ser incapaz de ultrapassá-las, por temor aos pingos que vão te relembrar noites a fio em tortura chinesa imaginando pessoas sendo arrastadas com os corpos também entreabertos pelos pátios hospitalares enquanto uma criança estupefata assiste a tudo aos risos

o compromisso é não parar

como uma âncora em um mangue: se arrastando sem ter mesmo a noção do que é arrastar-se, dando adeus aos sedativos que nos embaçavam o entendimento e divertia as horas mais perdidas de nossas perturbações, com livros, teorias de conspirações e imaginação perdida nos misticismos mais idiotas: e que me preenchiam a alma enquanto o coração ameaçava sair pela garganta por conta do interdito

de tantos interditos que colocamos como pontes com cancelas, pedágios absurdos que ninguém paga

o compromisso é não parar

não consigo mais dormir

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