a décima sétima tentativa

ele continuava a me observar ao longe e pensei intempestivamente que seu olhar também gaguejava em meio ao seu calar em cada metro que havia nos seguido enquanto aquela criança perdida se desfazia em risos esquizofrênicos. Mas comecei também a tentar imaginar que todos na rua nos observava com curiosidade e desdém. Ou ninguém fizesse isso no meio de uma inundação que aos poucos secava enquanto poças e mais poças decoravam os caminhos e dava de beber a uns tantos que zanzavam na incerteza de notícias desencontradas e repetidas. Encontrados e repetitivos: meu medo, a perseguição e o riso que me enervava.

Encontrados e repetitivos: um guichê de achados e perdidos vazio, algumas pessoas olhavam curiosos para ele. Dei de ombros, continuei a andar e o meu pitoresco séquito pessoal me seguindo, seguido por passos de gente extraviada e os rumos pareciam totalmente sem razão de ser.

Como andar para lá e para cá.

A criança me olhou nos olhos, profundamente, pela primeira vez desde que saímos todos do hospital. Não sorriu.

Queria saber direito a história dela. No hospital não sabiam. Eu tinha certeza de que o homem que nos seguia também não sabia.

Recuei o meu próprio olhar enquanto percebia o homem tentando balbuciar algo quando viu se aproximar uma pequena multidão correndo e a minha primeira reação natural seria me proteger e à criança que caminhava de braços balançando ao meu lado. Sem sorrir.

Não o fiz e fomos todos derrubados no chão enquanto todos corriam sabe Deus para onde e eu respirava a lama que ainda cobria a rua. Eu ri, enquanto o homem tirava a lama do rosto e a criança sentada olhava a tudo abobada.

Sem sorrir.

De repente me passou pela mente que ela pudesse ter se esquecido de como sorrir e o homem ao lado tivesse esquecido de gaguejar. E eu esquecido de esquecer, quem sabe, esquecido de tentar esquecer Z. e Augusto ou talvez tivesse já o feito e agora tudo fosse armadilhas mentais para tentar dar um prumo e acertar os caminhos em meio à lama e aos desacertos.

E me deu raiva porque tudo parecia tão vívido em seus traços tortuosos, acidentes geográficos da alma, e aqueles dois alguma espécie de marco ou alicerce que me mantinha presa à necessidade de lembrar e eu estava cansada porque lembrar e esquecer são duas atividades igualmente psicóticas e passava o tempo e já não sabia o que era mais válido enquanto as lembranças se espalhavam como hera ou vírus se conectando uma a uma como frases desconexas vindas da boca de um gago e de uma criança pinel ou vá saber das recordações de uma pirada que girava em torno do próprio corpo procurando ao redor as mãos pequenas de tal criança enquanto chegava finalmente ao centro da cidade e o rio, o rio ali cheio de gente caída e curiosos que pareciam contemplar sacos de lixo e barcaças cheias de peixes mortos e os mortos eram vestígios e correria e ninguém ali saberia quem era J., Z. ou Augusto SE fosse um nome real, quem garantia que não era mais uma mentira dele e muito menos saberiam quem era aquele perturbado que gritava em pavilhões de um hospital (por quanto tempo?) e uma criança órfã sempre sorridente, porém agora quieta pressentindo um imenso desvio em sua vida curta e o meu ódio o meu ódio por jamais saber agora o que teria vivido antes da estadia em um leito hospitalar onde havia pingos e gemidos e comida insalubre e cuidados toscos e o rio, o rio a tudo recebia, de lixos a baronesas, verborragias e álcool, fezes e lágrimas e cadáveres usados como cobertores e o meu ódio das ruas daquele jeito e das incertezas, peguei a criança pela mão e sorri, sim, ali meu riso não estava interdito como também me era permitido mais uma vez o desatino de lançar ao rio mais um dejeto de tentativa que malograva em sua existência que iria se abraçar ao olhar horrorizado do homem que não gaguejava em seu grito e ia percorrer a distância entre o cais e a água como suicida fracassado enquanto eu somente celebrava como navegante à beira do naufrágio percebe os resquícios de um farol no meio das ondas em meio à tempestade e vai tentar chegar à praia para se salvar sem lamentar a morte dos companheiros…

E eu sorri em meio aos gritos todos.

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