a nona tentativa

O desaparecimento das coisas talvez seja uma das tentativas malogradas e mal humoradas deste Deus que frequentemente nos abandona. Em uma delas (quais?) a Criação para enquanto determinadas coisas vão sumindo, sem expectativa imediata de ressurgir. Não, não num terceiro dia, neste lado do surgimento o que se vai não volta. E recrudesce o vazio que prova, quem sabe, que o onipotência se perde em tais buracos, e o que se queda extinto espalha desesperança ao redor, porque precisamos de recolocações e o máximo que consigamos é achar curativos…

E aí os corpos eviscerados, as sombras de prédios e igrejas caindo pelas ruas e pelas águas, a falta da voz de quem outrora gritava gaguejando coisas inaudíveis e que me seguia sempre pelo outro lado da rua, uma criança de olhos vidrados em completo desatino, incapaz de segurar o próprio riso e que também me seguia, revoltando-se a cada tentativa que eu fazia de segurar as suas mãos. Arranhões, gritos, mordidas. Tudo, porém, em vão, as poucas pessoas que encontrávamos caminhando ao léu pouco se lixavam para o próprio abandono, quanto mais para uma mulher, uma criança e um pirado do outro lado da rua.

Pensei em voltar ao Pavilhão, a algumas quadras dali, mas tudo parecia tremendamente estreito e abafado, como uma clausura cuidadosamente medida para caber a tudo, até o vazio. Talvez meu pesadelo estivesse aos poucos se realizando em cada janela que refletia o mormaço, na subida e descida dos corpos e das águas, as portas reclinadas pela força de enxurradas e olhos estupefatos que vasculhavam cômodos em busca de uma vitalidade já inexistente: vazios.

Cada um era como uma unha perdida de um deus que coçava as frestas do mundo disposto a desatar os bordados de mais uma tentativa enquanto ele se ria desbragadamente dos resultados. Há muitas moradas e há muitas perdições no abandono. Ao sumirmos não há como encontrar vestígios nossos em outros lugares; há somente uma diluição imensa, um afundamento, um risco parecido com cicatriz. Nos debruçamos nele e não percebemos a absorção de nossas nostalgias.

Talvez naquelas horas um de nós sumisse a cada instante e nunca mais voltamos — e isso longe de qualquer piração filosófica de águas e mergulhos, muito embora parecesse estar ligado — , e por isso nos perdemos um dos outros (mais perdidos do que estávamos? sim, como música mal executada, um soneto de pé quebrado, um imenso corte mal feito em uma pessoa viva), e nenhuma carne nossa seria reavivada.

Uma imensa confusão. Ele do outro lado do quarto enquanto eu e J. desafogávamos e retornávamos para um lado e nos encararmos como duas estranhas e uma tosse longa com um sorriso calhorda enquanto olhava para as torres das igrejas que pairavam por sobre a cidade: um espaço mínimo em outros julhos, outros marços, outros dezembros…

Quem dera encontrá-lo, como no pesadelo, boiando por aí, inchado, esperando sua vez de ser espetado por um bisturi e se espalhar como água e fluidos, como palavras desconcertadas que nunca foi sua característica, de alguém sucinto e violento nas poucas vezes que se manifestava, uma violência quase doce, de encarar os corpos e os cômodos e as nuvens lançadas em turbilhão por nossas cabeças inesperadamente descobertas.

Um resto de sol se põe.

Evidente que se põe, mas não desaparece.

A torrente de risadas da criança recomeça. O rapaz do outro lado da rua somente olha. Gostaria de ter algo para renunciar, mas era lógico que exemplarmente eu deveria mostrar um gesto maior para mim mesmo: não estando nada vazio ainda eu seria este adiamento do meu fim interior e procurar outras tentativas para ressurgir sabe onde. Não mais eu, mas um poço de renúncias de mim.