A primeira tentativa

O riso fino da minha amiga percorreu todos os pavilhões de minha alma naquele momento do meu acordar. Parecia uma continuidade, uma quebra de silêncio perpétua, um impregnar que me possibilitasse estar sempre junto a ela somente com o exercício de um leve suspirar; um desses suspiros evocadores, que vêm de dentro e nos fazem sempre mais juntos de algo que imaginávamos longe.

Entretanto, a espera se prolongava: deitada no leito, em meio à escuridão de um inexplicável blecaute eu me percebia numa atmosfera de intensa irrealidade. A única claridade era uma nesga de luz úmida, como se deixasse transparecer o clima da rua. Eu escutava o riso da minha amiga conversando com alguém, mas eu não percebia ninguém em canto algum. A vidraça a uns dois metros da cabeceira da minha maca estava encharcada, mas eu não ouvia rumor de chuva.

Só ouvia o riso. Próximo a princípio, depois distante a cada instante em que eu apurava meus ouvidos. Eu sentia aquele cheiro típico de hospital, embriagante, anestesiante, mórbido às vezes. Eu tinha medo de me levantar. Sentia uma leve dor na nuca, a vista um pouco cansada. Sentia saudades dos gatos que se amontoavam na porta da minha casa, à procura de ração e de afagos. Imaginava as horas correndo enquanto eu ficava olhando tempo e vida passarem pela minha frente. Tempo e música e espaço a habitarem meus momentos.

Eu a chamei: J.? J.?J.?

Passos passaram rente à minha porta, mas ninguém entrou e eu tive medo.

Algumas horas decorreram e não clareou. Muito pelo contrário, tudo pareceu ainda mais enegrecido. Algum vento que eu não identifiquei conseguiu encostar ainda mais a porta, e a única claridade que ainda eu percebia sumiu junto com o cheiro de terra molhada. Então só vi o calar-se.

A vidraça continuava encharcada. E meus ouvidos, entorpecidos.

As vozes recrudesciam. Mas eu não abri os olhos. Tentei localizar mentalmente de onde poderiam estar vindo. Mas elas iam e vinham. J. sorria como se estivesse embriagada e eu ria porque eu sabia que ela era louca o bastante pra viver em completa e contínua embriaguês. Eu ria comigo mesma: lembrava da mão dela me oferecendo bebidas que quase eu nunca tomava, lembrava das horas em que passávamos ambas brincando com os gatos das ruas.

De repente ouço como que uma discussão: alguém com uma gagueira absurda tenta perguntar algo a alguém. Noite absurda: a pessoa gaga articula palavras, que escorregam e voltam incapazes de enfileirar-se adequadamente. Ela tenta uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, inúmeras tentativas ao longo da madrugada (?) e todas as tentativas resultam em nada. Até que eu ouço o choro matraqueado da pessoa gaga: uma gargalhada, uma pancada (murro?) e o derramar-se de um corpo alquebrado no chão.

E o arrastar-se, entremeado ao som que lembra o fluxo de uma chuva meio maluca, que vai e que vem, que vai e que vem.

J. tinha uma obsessão maluca por aeroportos. Culpa de uns versos de Bandeira, o aeroporto em frente sempre me dá lições de partir. Ou algo assim. Viajou um tempo, depois voltou. Culpa de coisas intermináveis cujos motivos ela nunca me contou. Só esticava os beiços que lambiam as bordas do copo e olhava meio risonha meio triste algum horizonte que perspassava a vidraça do bar. E balbuciava algo pelos lábios, nos quais eu podia ler (ou cria estar lendo) aquele idiota.

Eu nunca a tentei consolar, até porque não sabia se ela precisava ser consolada de alguma coisa.

Logo percebi que o meu relógio estava parado. Três horas. Da tarde? Da madrugada? Seria o que eu quisesse, bastava evocar a Paixão ou o sangrar de uma orgia sabática, a hora da missa negra.

Bobagem. Eu só queria que amanhecesse.

Finalmente percebi um gotejar.

Na rua?

Não. Na torneira de uma pia não muito distante da minha maca.

Monótono. Pinga. Pinga. Pinga. Pinga. Pinga. Pinga. Pinga. Silêncio. Pinga. Pinga. Pinga. Novamente a agonia da pessoa gaga, agora irrompendo em um grito interminável. Eu ri, como se o meu pensar num xingamento mais cabeludo do que o daquela pessoa pudesse ajudá-la de alguma forma. Pinga. Pinga. Pinga. Pinga. Silêncio. Grito. Riso. Ora, de novo de J.?

Com quem seria que ela tanto conversava?

Ele saiu de casa. Isso é bom? Não sei, ele só me disse. Então é bom, e se ele não dissesse? Eu que nunca ia saber, né? É. Você volta logo?Se é que volta… Eu volto, volto, volto.

Risos.

Eu não estava no aeroporto no dia em que ela voltou.

Um dia o vi. Era exatamente igual a uma foto que J. havia me mostrado alguns meses antes. Assustei-me pelo fato de ele ter passado tão rente a mim e eu tê-lo reconhecido. Óculos grossos. Alguém com uma aparência meio estranha de alguém que possuísse um jeito meio bruto de lidar com as pessoas. E uma doçura quase inexplicável ao mesmo tempo. Como eu percebia isso? Talvez por alguns gestos.

Sentou-se a alguns metros de onde eu estava. Bebia uma cerveja numa garrafa long neck, olhava o rio com uma introspecção estranha, de espremer os olhos como se estivesse captando algo ao longe. Dava agonia, porque parecia que o rosto dele se afunilava, como o bico de uma águia predadora.

Levantou-se, jogou a garrafa no lixo e deu um suspiro, longo, típico de pessoas enfadadas com a vida. Olhou a chuva, abriu o guarda-chuva e saiu, como se quisesse correr e as pernas bambeassem.

Eu só escutava a chuva. Tentei ligar para J., mas o celular não funcionou.

Pensei ter visto novamente o resíduo de uma claridade perdida. Meu leito estava gelado, meus pés estavam gelados. A vidraça parecia ranger. A porta rangeu um pouco, afagada talvez por uma imperceptível corrente de ar. Uma risada seca batia nas paredes do corredor, como se estivesse desafiando alguém. Talvez brincasse de pega-pega ou mesmo de esconde-esconde. Ela rangia por debaixo da porta, corria adiante, impertinente. Logo depois o ranger de um isqueiro. Esperei pra sentir o cheiro de cigarro, mas nada. Só foi o rangido. Nem o clarear do isqueiro eu percebi.

Ao longe a voz da pessoa gaga poderia ser percebida, mas achei que estava com sono e nem dei atenção.

Eu logo me percebi resfriada. A chuva tinha parado. J. tinha ido lá em casa. Conversas bobas. Reclamações quanto à qualidade dos serviços de celulares. Má qualidade, na verdade. Não falei que o tinha visto. Ela comentou que não tinha avisado a ele da sua volta. Desencontros calculados de ambos os lados, pensei comigo mesma. Mas nada falei sobre. Só vi as nuvens de chuva se dissipando. Lembro que eu ri, talvez de uma piada que J. tinha contado. Não sei.

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