A proximidade

A inocência

Ele sempre subia para o seu apartamento por volta das 19h47 com uma cara de cansado e resmungando levemente, a mochila cheia sabe-se lá com o quê. A essa hora minha mãe já começava a me chamar para subir. Eu ficava conversando com as meninas, mas logo depois me dei conta de que ficar mais uns quinze minutos, me proporcionava vê-lo chegar e entrever o seu sorriso em meio à exaustão. Parecia que aquele sorriso era só meu, guardado com carinho para surrupiar da noite um pouco da minha tristeza. Só sorria, mas eu ficava com ciúmes do carinho que ele fazia para uma cachorrinha que sempre descia com o dono àquela hora.

- Suba, Inocência! Você só tem onze anos!

Frase portátil da mãe para me azucrinar. Subia, revoltada, tentando imaginar o que ele, talvez tivesse entre 25 e 30 anos, estava fazendo à noite e se o sorriso se desmanchava por conta do cansaço ou de qualquer outra coisa. Ainda punha a cara na janela, as luzes apagadas. Sentia um cheiro de cigarro e de incenso, ouvia ao longe uma música tristonha e naquela noite sonhei que ela me tomava, fazia meu corpo levitar e me colocava frente a frente com ele. Que não sorria.

A queda

A cada dia eu achava que as coisas andavam mais insustentáveis para mim. Minha vida se enchia de ausências e só me restava Inocência, que crescia e logo viria a revolta pré-adolescente. Ausências, tremores que me tomavam as horas em que eu parava pensativa e questionava exatamente todas as atitudes dos meus dias até ali. Eu própria me enxergava na minha filha e via o quanto eu havia errado. Não por ela, mas o como ela viera e não tivera culpa por conta das minhas escolhas e do meu medo de errar novamente, que fazia enxergá-la como joia para ser guardada com esmero.

Chegava sempre tarde, depois da hora-extra, justamente quando ela voltava da casa da avó. Já era esperta o bastante para me esperar sozinha, vendo tevê, mas me assustava com seus olhos cheios de inquirições, aquela sisudez precoce que toma os seres observadores (como o pai dela era) e os faz fuzilar o mundo sem enunciar qualquer palavra.

Estava colocando minha pequena para dentro, mais uma vez, quando me deparei com o professor que morava no andar de cima, os olhos injetados de cansaço, limpando as mãos com um lenço, dando boa noite entredentes, a Inocência o olhando fixamente.

A princípio não atinei, mas depois fui percebendo que ela às vezes ficava sozinha na entrada do prédio para vê-lo subir. Eu também sou observadora, mas não entendi aquilo. O que me acalmava — e também me angustiava — é que o professor não percebia aquele olhar para ele.

Mas ele me olhou.

E foi como se fosse uma queda.

Fiquei uns dias pensativa, refletindo. De repente aquele prédio ficara cercado por mistérios que rescendiam a incenso e nicotina… Inocência, calada nos cantos, parecia querer perscrutar o teto a cada noite. Eu ficava debruçada na janela, olhando o céu, tentando ver algum sinal que viesse da janela acima da minha. Que abria e fechava como pulmões ou olhos…

Fui dormir.

Acordei em sobressalto, o apartamento repleto de luzes e de névoas, e também de uma vaga escuridão inexplicável, mas depois percebi que as minhas luzes estavam apagadas e o quarto de Inocência estava com a porta aberta.

Meu ímpeto foi de gritar, mas vi que a porta do apartamento também estava aberta e então o professor entrou, dizendo que precisávamos levar Inocência para o hospital, pois ela havia caído na escada.

O mundo apagou-se diante dos meus olhos. Acordei com uma enfermeira do SAMU ao meu lado.

Eram 19h47.

A angústia

Eu estava subindo as escadas quando vi aquela menina branca, de queixo fino e de cabelos compridos logo atrás de mim, perguntando:

- Por que você não sorri?

Virei-me e acho que ela assustou-se, pois deu um grito, como se visse algo além, e caiu estatelada por entre os degraus, em um estranho frenesi. Neste instante, vi, como em um flashback, luzes e névoas, e imediatamente depois, uma mistura no ar, de incenso de sândalo e cheiro de Marlboro. Escutei um rumor de música e de vozes, mas apesar da tontura — não sei se alimentada pelo cansaço -, consegui me manter equilibrado. Mas eu não sabia o que fazer. Corria à rua com a menina no colo, ou corria para a porta do apartamento onde ela morava, para chamar a mãe?

Nem foi preciso.

A mãe, uma jovem de seus trinta e três anos, extremamente pálida, corria em minha direção e estranhei aquele rosto, por conta da proximidade que nos unia, mas era uma completa desconhecida, cujo semblante, naquele momento, evocava estranheza e perplexidade.

- Por que você não sorri?

Não sabia o que dizer. Parecia que a filha era invisível, e ela continuou perguntando a mesma coisa. E eu ainda disse, a sacudindo pelos ombros:

- Eu não sei!

Só aí que ela viu a filha deitada e gritou:

- O QUE VOCÊ FEZ COM ELA???

- Eu??? Nada! Ela estava lá embaixo, me viu, subiu junto e caiu…

A mãe pegou sua filha e saiu correndo escada abaixo, me deixando sozinho, sem possibilidade de socorrê-la.

Nunca mais as vi. Ainda sinto, de vez em quando, vindo do apartamento de baixo, vazio, aquele cheiro de incenso e de cigarro que me perseguiram por dois anos consecutivos. Bem como a impressão de que os sorrisos escapavam de mim e a solidão batia ponto no meu apartamento todo dia que eu voltava do trabalho, pensando nas minhas reflexões fugidias e no meu cansaço congênito. De todas proximidades e distâncias que povoavam minhas loucuras e que se misturavam a devaneios e bebedeiras, em dissonâncias inexplicáveis que vinham bater nas minhas cotas de insônia e que transformavam minhas estupefações em horizontes nos quais se dissolviam todos os meus sóis, a certeza da minha integralidade repartida entre mundos inconcebíveis onde eu descansava minha carência, meu pó, minhas cinzas.

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