As guerras Greco-Pérsicas (ou de quando somos adolescentes)
“Violência” poderia definir as sensações daqueles meses bicudos. Não, eu não estava sem grana, mas antes fosse, dadas as circunstâncias que me cercavam naquela vidinha mequetrefe. Ser desajeitado aos quinze anos é das experiências mais deploráveis que um ser humano pode passar. Ou aquela falta de desenvoltura toda é curada aos 21 ou passa por um estranho refinamento, ou antes, ainda, pelo desmantelo total. Com direito a choro e ranger de dentes.
Esses eu já os tinha rangendo e não era por conta de uma crise de bruxismo ou de vermes. Eu tinha acabado de ler meu primeiro Graciliano e estava vivendo dessas empatias estranhas que temos pelos nossos personagens queridos. Neste caso ele também sentia a violência do cotidiano traduzido em cheiros e olhares, as mulheres exalando desafios em meio a risinhos e venenos, a crueldade feminina em unhadas já distantes ou mesmo em gritinhos sacanas do outro lado da parede, sabendo que o vizinho espreitava a hora de seu banho, sacudindo gotas e imagens de perversão ao pobre diabo que castigava o próprio ser em vários níveis de compreensão.
Minha casa sequer tinha paredes meias com a da vizinha, uma quarentona fumante que vez ou outra ia jogar seus pecados numa congregação presbiteriana, os pastores ignoravam o vício do cigarro, mas decerto quando ela empinava aquele bundão para orar ao Todo Poderoso esqueciam-se dos mártires e dos apóstolos e as aleluias deveriam sair impregnadas de luxúria.
Putaria.
Ademais, a figurinha era distante e parecia satisfeita em sua enigmática solidão. Só muito mais tarde vim saber que a única janela que não era voltada para o nosso quintal abria-se sorrateiramente de quinze em quinze dias para um jovem policial militar que um dia (eu já não morava mais lá) embriagado e talvez fugindo do fogo do Pentecostes que deveria habitar aquele enorme pedaço de mulher, caiu e acidentalmente levou um tiro de seu próprio revólver na arma que, disseram as más línguas, negara fogo àquela serva do Senhor.
A verdade dolorida era que eu estava em petição de miséria, tinha tido, alguns meses antes, um namoro fortuito com uma maluquete de dezenove anos que, em uma situação semelhante à que eu estava passando, não viu muitos motivos que impedissem o abreviar de um conhecimento mais íntimo. Ainda nos vimos mais duas vezes, mas, como zombavam meus colegas, ela era cheque-visado (tinha uma filha de um cobrador de kombi), e logo que o mancebo abanou os bigodes para ela, em sinal de reconciliação, eu fiquei a ver navios e pescando lambari no esgoto.
Se já sofremos com a seletividade feminina (esta menos cruel quando elas se dão conta de que Príncipe Encantado é fuleiragem de conto da carochinha) depois que nos alistamos, raspamos a cabeça no listão do vestibular e recebemos o primeiro ordenado merrequento, aos quinze anos isso roça a beira do desespero. Algumas meninas já me percebiam e talvez até se aventurassem a me dar bola, mas como elas não tinham vocação de gandula do século XXI, não passavam daqueles velhos jogos de sedução mais antigas que os asteroides que rondam este pobre planetinha azul. Quando eu estava no banco de reservas do futebol do colégio, alijado do time titular por conta de uma voadora que eu dera num filho de uma puta que me chamara de punheteiro, ouvia os gracejos de Hilda e Claudia:
“Hum, olha o Luis sem camisa… até que não é de se jogar fora…”
Eu sorria, mas depois detestei aquele arremedo de elogio, porque o próprio treinador depois começou a me chamar de Reciclagem, o que foi a gota d’água para eu enterrar de vez meus lampejos futebolísticos e uma estatística digna de jogador do Íbis. Dez jogos como titular, quatro gols, dois deles contra e a anedota eterna que até uma encruzilhada cruzava melhor do que eu.
Sinceramente, eu deveria ter me tornado um psicopata.
Minha situação era tão periclitante que começou a afetar os estudos. É foda ficar pensando naquilo que você esperou quinze anos para conhecer, praticara duas vezes e não tinha a mínima previsão de rever. Sabia que alguns dos meus amigos iam aos cabarés do Centro, mas depois que um deles pegara um cancro era mais fácil eu jogar meu pinto numa perereca de borracha cheia de ácido muriático do que ir àqueles, literalmente, templos da perdição.
Não bastassem as gozações (no pior sentido do termo) na rua, em casa não era diferente. Se eu demorasse mais um tiquinho no banheiro, era o suficiente para meu irmão mais velho começar a me zoar, e até minha mãe e irmã mais nova ficavam me olhando como se eu fosse o Bandido da Luz Vermelha ou qualquer desses tarados aluados que já caminharam nesse vale de lágrimas conhecido como planeta Terra.
Enfim, o primeiro baque que senti foi em História, matéria que, facilmente, batia os 40 pontos ao final do ano, mas que numa prova sobre o Imperialismo Grego não estudara nada, tentando assistir “Calígula” numa dessas redes de TV que hoje sequer existem. Fiquei a madrugada inteira acordado para ver a porra de uma tela que dizia que a Justiça havia proibido a exibição da bagaça. Ao menos naquela noite, eu sabia que não somente eu haveria de praticar genocídio em massa, de puro ódio. Mas esqueci de estudar pra prova e quase que me ferro. Tirara 7, o professor estranhou, perguntou o que estava acontecendo comigo e até perguntou das minhas olheiras. Eu tive a certeza de que ele estava achando que eu estava jogando minha vida no abismo, me drogando ou coisa parecida, mas iria pegar mal dizer pra ele “É falta de foda, fessor”.
Ele não me mandou para a psicóloga do colégio, o que me livrou de ao menos uns vinte dias de pensamentos pecaminosos, porque a mulher era gostosa e deveria aplicar aos alunos algum tipo de teste de Rorschach no qual todas as figuras desembocavam na silhueta de seu corpo nu. A quantidade de rapazes idiotizados que saíam da sala da Orientação Educacional era digna de um consultório do Mengele.
Enfim, a conversa com o professor de História resultou em um trabalho de recuperação (recuperar o quê? perguntei, Ainda tô na média!) abordando as Guerras Greco-Pérsicas em dupla com a Silvina, que como havia faltado a prova, ficara sem nota. Eu falava muito pouco com ela e a distância espiritual que impunha evocava silêncios respeitosos dos outros colegas de sala. Ao aviso do professor, sorriu amistosa e só perguntou como faríamos para elaborar o tal trabalho.
Olhei aqueles cabelos pretos cacheados, os olhos castanhos alinhados por cima de bochechas que guardavam um sorriso rico, mas sem efusividade e afetação e senti um arrepio na espinha e ri, interiormente, desesperado “tô fudido”.
Na saída, trocamos nossos endereços e ela me deu o número de telefone da sua casa (tempos bicudos, claro, ainda era do tempo em que telefone era artigo de luxo), prometendo combinar o esquema para o trabalho. A vi seguindo rua acima, a farda do colégio não deixava entrever muita coisa, mas o que havia jogado para fora dos meus trilhos fora o perfume que sutilmente passara dos seus dedos para o papel e daí para as minhas mãos.
Não dormi, mais uma vez.
No dia seguinte, estava mastigando um lanche na frente do colégio (chegar em casa era uma novela, então enrolava o bucho até poder almoçar no sossego do lar) quando Silvina me abordara, entre desconfiada e sisuda, perguntando se eu poderia ir com ela até sua casa, para já começarmos a adiantar o trabalho. Apesar de uma convivência quase nula entre nós ao longo de dois anos estudando juntos, nos trabalhos sabia que ela era exigente e perfeccionista, o que lhe valera o epíteto de fresca por parte das meninas e de antipática por parte dos caras. Então seria osso duro de roer.
Eu disse que sim, e ela fez um gesto com a cabeça, como se dissesse “então vamos”. Acho, hoje, que se eu estivesse ali como observador, tal gesto poderia ser de alguém que puxa as rédeas do seu cavalo, mas vamos lá.
Fomos no ônibus em silêncio, ela não muito disposta a conversar, com os fones de ouvido de seu walkman quase no último volume, e eu poderia jurar que ela estava ouvindo uma música de uma banda que eu gostava muito, e que conhecera por meio de um primo, que também estudava no colégio. Eu via os lábios de Silvina murmurarem “Kiss that girl, kiss that girl. She’ll cut your heart like diamonds”.
Ela era filha única de uma advogada e de um militar. Passavam o dia na rua, tinham empregada, mas essa não nos perturbou na sala de estudos, contíguo à sala que seu pai fazia de escritório em casa. Lá esquematizamos o trabalho. Falei das ameaças de Xerxes à nascente civilização grega, dos primeiros embates. Até de Feidípedes falei. Ela sorriu, falamos de outras coisas que não do colégio, inclusive soubemos que gostávamos sim da mesma banda…
— Meu primo Beto quem me passou a fita, ele esteve recentemente nos Estados Unidos, ouviu, gostou e…
— Eu sei, ela interrompeu.
Eu devo ter ficado com uma cara ridícula, como se perguntasse a mim mesmo qual o nível de ligação entre os dois, ela talvez tenha ouvido meus pensamentos e fez uma cara de desprezo, como quem afasta uma mosca com um sopro.
— Acho que precisamos de um mapa…
— Mapa?
— É. Da Ática, do Peloponeso, da Ásia Menor, até à Pérsia. É bom ilustrar tudo.
Já ia anotando na agenda “FAZER O MAPA”, quando ela segurou minha mão e me olhou firme:
— Eu faço. Vem amanhã aqui e a gente termina.
Naquele calor horroroso que fazia naquele triste abril a mão dela era perfumada, o olhar era perfumado, a voz era perfumado e meu ouvido estava perfumado, como minha mão, mais uma vez. Deu pena de lavar no banho.
No outro dia, ela sentou à minha frente, e ao contrário do seu habitual, não deixara os cabelos soltos. Amarrara-os num coque, deixando a nuca para mim. Eu acordara como um animal ferido, num dos meus piores dias, o calor me machucava, eu estava triste, me sentindo um dos seres mais negligenciados da Terra. Aquele perfume subia, me sufocava, tomava a forma dela, uma forma que me era quase totalmente ignota. Só tinha seu olhar e sua voz como as coisas mais impactantes. Nunca a vira com outra roupa senão com a farda. Apesar dos meus quinze anos eu já não me iludia com paixonites ou dessas outras cachorradas do coração. O aprendizado para a solidão para mim iniciara-se cedo, e eu fazia questão de jogar na fogueira da minha Inquisição pessoal todo e qualquer sentimento que eu sabia que iria ferrar meus alicerces. Não estava apaixonado por Silvina, mas era inegável que, naqueles meses de sufoco, ela povoava meu imaginário e muito mais naqueles dias, perceber que ela era o único ser do sexo feminino que me tratara de forma indulgente, me fazia ter um respeito e uma gratidão enorme por ela.
Mas aquele perfume era foda. Aquela nuca era foda.
No recreio, ela veio com aquele pescoço suado, um lenço na mão, e uma conversa:
— Hoje tá calor, né?
— Podes crer.
— Dormiu mal? Parece cansado…
— Podes crer.
— Calor deixa a gente mal-humorado, né?
— Podes crer. — e eu já estava me achando o Toni Tornado, repetindo aquela frase ridícula e já me imaginava no meio da BR 101, cantando “Na BR-3”, quando ela disse:
— Melhor você ir lá em casa mais tarde, depois do almoço. Ao menos você toma banho. Esse calor hoje tá dose…
Concordei e a admirei por tamanha sensatez. Somente em casa, algumas horas depois, me arrumando, me toquei de que finalmente veria Silvina em roupas normais, mas relevei isso, e fui embora.
Chegando lá quem me atendeu foi ela, com uma camiseta Hering e uma saia hippie (o que corroborava a ideia de alguns lá no colégio de que ela era natureba — e talvez — porra-louca), e um beijo tímido e quase alegre no rosto. Até que tentei desativar minha análise canalha, mas não pude deixar de notar que seus seios eram mais volumosos do que aparentavam e as pernas, talvez, mais roliças. Mas só foi isso e logo dei-lhe os livros que ela havia me pedido ainda na saída do colégio. Ela falou, o mapa tá quase pronto, mas vamos passar o texto pra máquina de escrever.
E lá fomos nós, datilografar a parte escrita antes de fazermos o tal mapa. Eventualmente nossos sorrisos se cruzavam, nossos braços se roçavam, mas eu imaginava que era um enorme jogo e me alegrava saber que ela aceitava calmamente aquela transição do mero coleguismo para a amizade.
Quando terminamos, perguntei pelo mapa.
- Então, ele tá secando, vem comigo…
Indaguei como ela tinha feito o mapa, se decalcando, ampliando. Ela só me disse:
— Usei pena e nanquim. Foi penoso, viu?
Passamos para a sala de estudos, onde, esqueci de dizer, havia um divã, onde ela se sentou, depois de fechar a porta atrás de nós.
— Ué, cadê o mapa?
Ela respirou fundo e só perguntou:
— Você conhece a geografia das Guerras Greco-Pérsicas?
Fiz que sim, com a cabeça, ela, para minha surpresa, levantando a saia, disse:
— Então vai dizendo. Lugar por lugar.
Lá estava o Império Persa e a Trácia, desenhados na sua virilha direita, com a Macedônia e a Tessália espalhando por sua púbis depilada, a Ática abarcando todo seu sexo enquanto o Peloponeso se desenhava desajeitadamente por sobre sua virilha esquerda…
Depois de um silêncio violento que me tomara, pelas nuances de perfumes que evolavam pelo ar, pelo meu susto que congelara e derretia-se junto com meu medo, motivado pelas palavras dela. Eu apontava e dizia, tocando suavemente com a ponta do dedo cada pedaço daquela pele. Ela jogara a cabeça para trás, a cada toque tímido do meu dedo em sua carne, respirando fundo, ofegante, conduzindo minha mão para a outra virilha. Olhou-me no fundo dos olhos e perguntou:
— E as Termópilas?? Faltou o Desfiladeiro das Termópilas…
E beijou minha boca com uma suavidade revestida de uma estranha crueldade, coberta de mordidas e malícia, como se estivesse ela própria envolvida numa leve capa de insanidade.
Não é preciso dizer, acho, onde, naquele mapa absurdo, estava o Desfiladeiro das Termópilas… Acariciei-o devagar, sentindo uma outra espécie de perfume, nunca sentido até então… Olhei-a, entre a perturbação e o encanto.
— É a vida e a glória da Hélade, meu amor, onde trezentos bravos espartanos derramaram todo o seu sangue.
Só sei que os trezentos foram substituídos por bilhões, em uma nova invasão de um Xerxes mais incisivo, mais conquistador, de mapas e nucas, de perfumes que se misturavam num Mar Egeu imaginário, depósito de nossas agonias mútuas, de solidões insólitas que se encontravam na voracidade de quinze anos compartilhados num quarto calorento, que não existe mais.