Considerações sobre o calar-se

Cheguei ainda assustada ao ver, na volta, um cão ser atropelado na rodovia. Pude ver o susto agarrado ao focinho do cachorro que embolou ensanguentado no canteiro central enquanto meu susto me fazia dar um grito que incomodou os outros passageiros que só diziam “Ora, era só um cachorro…”

Idiotas.

Não bastassem tantas coisas que me atropelaram ao longo destes dias. Como cataventos emperrados que teimam em ranger, minhas coisas eram incapazes de me lançar para longe da minha modorra, faziam-me aumentar mais um exercício solene de observar tudo e sair recolhendo cacos e superfícies para revestir minhas páginas, minhas paredes, fortificando as horas… Ora, eu ficava olhando todos os meios de comunicação possíveis ao meu alcance. E a vacuidade, as entrelinhas nas quais o nada penetrava alimentava meus planos de esquecimento, talvez até para alimentar minha própria sobrevivência.

O que silencio já não é de indiferença, mas de amor.

E o outro silenciar? Uma morte indigente, um esquecimento previdente para os planos do diário de um sedutor, a ausência que provoca o banzo, o horror?

Senti que o destino me atropelava… e eu era jogada à fumaça de mil visagens, instantes assassinados que amaldiçoavam os meus movimentos, tirava a nitidez dos meus dias, a certeza das minhas passagens.

Eu me calava como quem engole uma gastrite. E nem coragem tinha de olhar nada, ver a vida passar. Restava-me remoer, pensar, reviver.

Até bem pouco tempo atrás eu tomava de dois a três litros de água por dia. Hoje tomo meio litro, quando lembro. Fazia as três refeições. Hoje almoço mal, janto mal, não tomo mais café da manhã. Durmo mal e muito. Sempre estou ouvindo algo que me deprime, embora me dê prazer.

Acontece.

Como acontece a tal misantropia, esta falta de desenvoltura com aquilo que costumamos (nos acostumamos) a chamar humano. Indigestão intelectual. Um olhar agudo e (auto)crítico que alimenta minha gastrite, minhas caspas, minhas insônias sazonais ou meu sono demasiado longo que se constitui muitas vezes como fuga. Embora eu nem assuma, tampouco concorde. Minhas mãos tremem sabe-se lá por que. Eu estranho as ruas, as pessoas parecem terrivelmente mais mal-educadas do que já são.

Já tive mais desenvoltura. Hoje suspiro agoniada e nervosa com qualquer contenda. Não discuto: geralmente me perturba ter de enumerar argumentos que muito provavelmente não serão aceitos por outrem. E eu os considero então inúteis. E guardo comigo, por mais que os considere válidos.

Estranho até o que eu escrevo, como se fosse algo enunciado por alguém mais inteligente e lúcido do que eu. Relendo, vi que me perdi, que aquilo que oralizo abre um tremendo abismo entre mim e eu mesmo. O que (re)leio parece vir de uma voz que sabe concatenar ideias e realidades. Meu eu em vigília é caótico, burro, desajeitado e pouco prático.

Desconfiada por natureza e por necessidade. Extremamente preocupada com os outros. Mesmo se arvorando em papel de carrasco alheio sou capaz de pedir desculpas quando me chamam de carrasco. Porque sei que não estou sendo, sei que quando eu delibero minhas próprias formas de impiedade visto-me de silêncio e de crueldades.

Silencio, assassino sentimentos e paixões. Mas até eu, acostumada a assassiná-los, vi que em algum momento não poderia fazer isso.

Acontece.

Mas, como lidar com espíritos livres, de borboletas que alçam voos concêntricos, com personas caladas que fitam o desalinho (in)esperado da verborragia alheia?

Era preciso verbalizar, sussurrar, não deixar morrer pela omissão das palavras.

Era preciso caminhar. Ainda que as encruzilhadas teimassem em se desatar, desmanchar os nós, paralelizarem-se… Cada qual tomava para si o poder de narradores frágeis — espelhos não contam histórias — e criam terminantemente que iriam topar com ventanias e naufrágios. Assim pensei olhando todos os dias que passei ao lado dele e torrando pensamentos ancestrais e sorrisos.

Era preciso caminhar. Ainda que topasse com a subversão da minha memória agridoce ou a falsidade dos acasos. Imagens de mochilas caminhando no meio da multidão em aeroportos ou rodoviárias, talvez um último olhar furtivo ou a promessa ridícula de retornos ou de não se deixar chorar.

Era preciso caminhar para extinguir esses salões de vacuidade, pegar os rostos e olharem face a face, ainda que a resposta de cada mirada fosse a mais terrível que pudéssemos imaginar.

Toda vez que olhares nos meus olhos verás problemas todos os dias.

Assim eu disse pra ela. Assim eu disse para mim ao espelho. Assim eu disse para as pedras no chão, em murmúrio. Falei com as circunstâncias que maquiavam nossos caminhos, colocando-nos no vértice de nossas mentiras, no alto de nossas saudades, na ambiência mais bela de nossos desencontros.

Era preciso o passo em falso. E isso ambos fizemos.

Para o lado errado.

Me dá uma palavra pra decorar o silêncio?

Um toque de telefone não atendido. Talvez. Quem sabe? Você senta no primeiro meio-fio que encontra e fica olhando o movimento, se tiver vontade anda mais uns cinquenta passos e se debruça no parapeito da Duarte Coelho e fica vendo o movimento das luzes no rio.

O rio talvez guarde o meu silêncio nele.

Não, não guarda. Leva para os campos salgados do mar. Leva para outros rios e outras praias, se é que me entendes. Os peixes são silenciosos? Sorte a sua, sorte a nossa. As ondas quebram na quina das areias com alarido, não fazem questão de se mostrarem ruidosas.

Ontem guardei o dia para escrever bobagens, reviver mutilações, escavoucar feridas, brincar com facas e pistolas. Eu estava calada, mas o farfalhar da minha roupa, o metálico das armas, o sangue nervoso na testa, o ir e vir das pálpebras me feriam os ouvidos. Como feriam minhas entranhas o peristaltismo das minhas vísceras machucadas, a gastrite engolida, a queimação estancada no esôfago: somatizações de silêncios mais cruéis.

E você corre o risco de, sem ser ouvida, gritar e ferir com unhas e pichações as paredes da sua alma. Ninguém passa impune por isso. Equívocos são silenciosos, é verdade, mas depois causam um barulho tremendo, como panelas mal arrumadas numa cozinha, como o ganir daquele cão que você viu repartido ao meio…

Como tudo, não?

É. O silenciar guarda um sem-fim de barulhos nas entrelinhas.

Clichês…

Verdade? Não sei.

E agora?

O agora é repleto de agoras. Cada um se cansa dos seus e os ressuscita, para, depois de três dias, mesmo sob o império da ressaca e do atordoamento, fingir-se de inaudível.

Para quê?

Para nada. Nem tudo é funcional neste mundo.

Nem o adeus?

É.

Nem ele.

(junho de 2010)