Intradução

De “Histoire de ma vie” — Giacomo Casanova

Qui est donc Henriette? Talvez aquele húngaro velhaco nunca tenha feito essa pergunta a si próprio quanto mais à ela. Talvez nunca tenha sofrido dessa mesma apatia da qual só a custo saio agora, nem queimado pensamentos como incenso no turíbulo, preenchendo quartos e naves de igrejas perdidas por onde culpa, tentação e confissões passeiam desavisadas. Verdade é que, aborrecido, não ousou adentrar em quaisquer elucubrações acerca de segredos que, se não conseguem ser devassados, ao menos brincam com os faunos de nossas florestas.

Henriette, sim? e ela continuou olhando pelo vidro fosco da carruagem, enquanto a neve castigava a entrada de Genebra. Estávamos todos terrivelmente cansados, depois de uma longa jornada à Itália, onde em Parma, outro velhaco, dessa vez francês, a reconheceu e fez soar o alerta na rede de fofocas e rumores que circulavam acerca de uma moça nobre da Provence, cuja família já oferecia uma régia recompensa por informações sobre o seu paradeiro. Quando ouvi o primeiro rumor em uma daquelas tabernas onde se procurava algo quente para beber, lembrei da última conversa que ela tivera com o capitão magiar. Oubliez-moi.

Ainda naquela primeira noite que passamos juntos pilheriei, Oubliez-moi est bientôt dit e ela fingiu ou pareceu rir de verdade, mandando-me calar. E perguntando para si mesma, noite alta, como em um sussurro mal disfarçado e emendando diálogos imaginários nos quais provavelmente o interlocutor era eu: A felicidade durará? Tem de durar? Pode durar?

Pensei comigo que qualquer coisa de tempo e espaço foge a qualquer tipo de imposição. Ser metida em um convento é uma imposição. Decidir trocar de amante é uma imposição. E como esquecer, que também é uma imposição, nem sempre consegue-se o termo. Esquecimento é algo volátil e presente, cruel como lembrar. Cruel como pergunta sobre a duração de uma felicidade.

Em Parma ainda, voltando para o hotel, com toda aquela neve caindo com os rumores de que agentes pagos pela família dela nos observava, consegui ver um pombo perdido, arremetendo um voo com algo no bico. Quem sabe um galho perdido para construir um ninho, esse mais duradouro do que qualquer acalanto concebido por nós, pobres mortais, sempre a contar os vestígios a partir de dias, horas, minutos que fatalmente se esvaem.

Por isso, quando decidimos por Genebra, de alguma maneira o que estava sendo escrito era o meio de um caminho, uma sinfonia de um virtuose solitário que dedilha cordas em meio ao esquecimento inevitável.

Sim, Henriette. Sorriu triste quando chegamos ao À la Balance, como quem guarda outro segredo junto ao peso dos olhos e do coração, e dos pés em meio à neve, diferente daquela mulher disfarçada de zouave de quase um ano atrás. Algumas aves, aventureiras de platibandas geladas, olhavam para nós, impassíveis, como vários homens tiritando dentro de seus casacos e que logo deduzi que eram mercenários contratados para levá-la no momento propício.

Nem sei se sorrimos ou algo mais. Mas alguns abraços são o remedio amoris mais patéticos para aquilo que sobrevém depois do acordar.

Foi como se nem acordado eu estivesse e aquela mistura de sono e pesadelo, de chãos que se desfazem como ninhos caindo de campanários e pesos, muitos pesos.

Um deles veio em um papel, com lacre, mas nada mais pesado e sucinto do que ADIEU. Assim, grande e negro. Precisava lavar o rosto para não sucumbir ao resto das lembranças que pareciam cair sobre minha cabeça como neve pesada e suja que alguém joga ao alto e espera desabar sobre si. E no espelho, riscado talvez com aquele diamante que lhe dei um dia, a divisa de uma imposição que sempre temi: Tu oublieras aussi Henriette. Ou talvez tivesse algo diferente, Un jour tu oublieras Henriette. Culpa dos meus olhos que dançaram sobre os espelhos na vã esperança de crer que não havia lido aquilo. E no entanto leram e sofreram com todas as imposições possíveis, um também que fez-me silencioso e irrequieto, revoltado e reservado, propenso à insônia e à inanição, máquina sem vida que talvez acordasse com “um dia”, uma esperança de acontecimento único.

Ne nous oublions donc jamais. Não sei. Sei talvez do não comer e do não beber. Sei dos meus desmaios clericais, sei talvez até do impossível que poderia fazer comigo mesmo. Do resto, nada mais.