Pontos
até o silêncio se movimenta devagar
minhas mãos, também. E passos e olhares e as coisas que eu observava, também. É estranho o hiato que aflora junto com o cheiro de pólvora, a acidez no ar, o cheiro estranho de pele queimada, sangue coagulado, grito suspenso.
O fim. Ali, perto. Algumas vozes presas nas estacas pareciam me acompanhar. O meu passo calmo por vielas, enquanto eu perscrutava algum sinal improvável de chuva. Calor, calor. Eu só lembrei da minha aproximação, alguns dias antes, eu adoro a premeditação, a armadilha. Conversas esparsas no mesmo bar. Gim, uma cigarrilha sabor chocolate oferecida e gentilmente recusada, o meu cigarro inteligentemente vagabundo na boca, compartilhando fogo e futilidades.
No penúltimo dia lembrou-se de dizer, por entre risos bêbados o quão se considerava cruel. Perguntei, fingindo estar assustado, o que seria capaz de fazer…
Sorriu, pateticamente, tentando parecer vagamente calculista, talvez até mesmo estar sob a inspiração de algum instinto homicida. Sorri, amassando o cigarro no cinzeiro.
Seria no dia seguinte, mesmo.
até o silêncio se movimenta devagar
Fiquei com essa frase, lida talvez em alguma pichação na parede em frente à minha casa. Procurei, naquele dia, ser o silêncio, ser um breve suspiro agoniado que levanta um papel do chão.
Eu gosto disso. Gosto da sensação de poder. De imaginar os outros como meros personagens que eu posso decidir que caminho melhor para eles.
Às vezes não gosto de sujeira. Mas isso depende. Não iria querer luta. Aquele corpo teria de ceder ao império da violência do projétil. Simples. Rápido. Indolor, claro que não, mas isso não era problema meu.
Sabia de seus passos, já embriagados, para aquele bar, onde tecia bravatas e falsas seduções e mentiras vestidas de tapas, pequenas perversões, olhares maliciosos. Cruel.
Eu ri de novo.
E ri de novo, já quase em seus calcanhares.
Simples. Gatilho. Baque. Esgares. A misericórdia.
Engraçado, a misericórdia vir com uma sacudidela macabra. E nem tão silenciosa.
Mas, problema… o silêncio ali, era eu. Não sua morte.
(dez/2010)