Quinto sentido — Os finais
EDGAR
Há momentos nos quais temos de desistir dos nossos exílios. Eu mesmo o fiz quando naquela tarde eu fui procurar comida para comprar, ou pelo menos para trocar por algo que eu levava na minha bolsa. Parei no primeiro fiteiro que vi e tomei um café, extremamente quente e doce, enquanto olhava o movimento de pessoas na avenida: parecia o carnaval, até uns engraçadinhos cantavam letras pornográficas e divertidas. A noite caía qual penumbra enxerida que não se importava se tivéssemos ou não acendido as nossas luzes; e a chuva, que variava de freqüência e de intensidade permanecia em garoa. Mas eu estava de botas e de capa.
Nas cabeceiras permaneciam aquelas pessoas, não sei se eram as mesmas, que não tinham nada mais o que fazer (enlouqueceram?) a rir, a brincar, a olhar o rio, a ilha, o céu, se molhando e se enxugando da chuva. Aproximei-me delas e percebi que algumas delas haviam invadido alguns dos velhos sobrados do cais da Aurora, mas aquilo para mim já não parecia mais importante. O que me importava era saber se eu ainda era capaz de tentar imaginar tudo como era antes ou se acostumar à nova ordem, ainda que atrelada aos cavalos loucos do caos. O mais não me interessava, eu apenas observava, nem tão atentamente o quanto devia, mas ainda assim, observava.
Ouvi alguém falar a outro alguém que conseguira uma proeza: uma ligação interurbana. Entretanto não fiquei sabendo se era bravata ou realidade, os dois correram e se jogaram no rio como campeões de saltos ornamentais.
Fiquei sem saber a verdade ou mais uma face da mentira.
Cheguei a um dos pontos de escambo, caminhando em direção ao Mercado da Boa Vista e consegui alguma verdura, batatas, arroz, feijão, farinha de mandioca e de trigo, galinha congelada e café.
Não podia faltar café.
Voltei rico para casa.
Jantei como há muito não jantava. E descansei a minha pobreza num sono sem sonhos. Mas nesse meu sono absurdo percebi que estava ainda meio acordado. Ou não. Fui lavar o rosto para tentar desfazer aquela sensação cretina e vi em cada gota d’água que se derramava da torneira mal fechada um rosto parecido com o de Ieda a me fitar calada, mas como se olhasse a si mesma em um espelho imaginário e silencioso como ela.
Escorreguei por aqueles filetes de água como a tentar fugir daquela imagem que se observava, mas que poderia também estar me perscrutando os pensamentos escondidos.
Não sei por quantos dias permaneci naquele estupor. Lembro que consegui fechar os olhos e dormi na sala como um objeto qualquer que esquecemos em cima do sofá.
E despertei consciente da falta de necessidade de sentir a necessidade de algo. O prédio não emitia barulho algum e nenhum vizinho me espiava. Não liguei o rádio. Não abri nenhum livro. Não senti necessidade de me apaixonar. Não vi motivo algum para abrir a janela. Não me vi impelido a morrer, nem a soltar gargalhadas de alegria por isso.
Só percebi que tudo naquele exato momento, havia acabado.
Eu aprendera a esperar — finalmente eu compreendera.
E era bom ver que as luzes se acenderam e naquela manhã eu percebera, eu não estava louco, um raio de sol perdido na janela, molhado como os meus olhos sonolentos e calados estavam.
IEDA
Como em um eclipse a minha rua amanheceu escura e uma coruja piou confusa. Eu joguei a minha cara no meu velho debruçar na janela e vi a rua vazia, sem vento, sem chuva, as nuvens compactas cerrando o céu. Coloquei o meu ouvido na parede do meu quarto, como se eu pudesse ouvir os pulsos percorrerem o cabo de fibra ótica que chegava ao telefone e nesses pulsos percebesse o pulsar da voz de Adriana, seus gestos fraternos, o próprio pulsar do seu coração. Queria prever o exato momento de sua ligação, mas não, naquela hora compreendi que jamais ela me ligaria, jamais.
Jamais.
Jamais.
Nem ela, nem os meus pais contaminados pelo meu ódio mudo e mouco. E se Edgar soubesse o meu número ele também não ligaria. Nunca mais.
O grito mais inevitável que poderia sair naquele momento de mim eu o evitei. E olhei a porta do meu quarto como se fosse o último portal dos meus pesadelos, e minha cama, um recife, uma ilha.
Percebi o barulho da água, os ventos a lavarem meus vidros, um grito lá fora, e som de algo que cai; talvez um carro sendo levado pela correnteza.
Saudades do meu lago doendo em mim. Levantei decidida, peguei o balde que ainda morava no banheiro e liguei o chuveiro. Estava cheio novamente o meu lago.
Lago artificial.
Deixei-o no corredor, mas não me debrucei a me observar: era inútil.
Peguei o livro na mesa; li uma, duas páginas. Joguei-o desmanchando-o no lago como se alguém o lesse nas dobras de cada pequena onda que batia nas margens artificiais um pouco da vida daqueles personagens que se debatiam em seus apartamentos, em suas vidas, exatamente como eu.
Olhei pela porta de vidro da varanda talvez as últimas lágrimas de um deus triste. Somente eu não chorei. Eu quis me achar louca, mas a lucidez dos meus ouvidos me desenganaram. Eu quis ter a certeza do final de tantos apocalipses, mas as revelações sempre se descortinam aos nossos olhos como as mensagens subliminares de cada coisa que nós imaginamos.
Criança, eu me espantava com o capricho da Natureza que fazia chover em um canto e não fazia chover em outro. Aquilo me revoltou quando adolescente: se o sol nasce para todos, por que a chuva não desabava sobre o mundo inteiro ao mesmo tempo?
Mas naquela hora eu sabia que era certo imaginar que o mundo todo estava chovendo. Nosso mundo era pequeno e talvez fosse o melhor momento de lavá-lo para o júbilo de relançar as pontes para todos os lados.
Eu estava sedenta por aprendizados. Até um determinado ponto no qual eu achara que não aprendera absolutamente nada. Entretanto, um grave engano. Eu aprendera que por um determinado tempo eu sonhei com algo impensável para mim, mesmo que depois tudo acabasse desabando e correndo liquidamente pelas ruas como as águas e se perdessem nas infectas galerias pluviais do meu cretino ceticismo. Eu aprendera a caminhar e a sentir, mesmo as coisas de forma aparentemente dolorosa, mas era melhor sentir até certo ponto do que as coisas passarem e eu não ter sentidos para percebê-las. Embora eu, aos poucos passasse apenas a perceber de forma cada vez mais fraca.
Blecaute.
Acendi uma vela e fiquei olhando a rua pelo vidro da varanda. Havia uma claridade, como se das dobras do rio ao longe brotassem luzes, ou se da faixa de recifes algum sol ancestral lembrasse de nascer.
Olhei bestificada, alegre até, uma alegria que eu me permiti como último recurso para alguém cuja última alimentação fora pão dormido e uma sopa fria.
A chama apagou-se com um suspirou meu. A água corria furiosamente na rua, nos meus vidros. O meu lago artificial balançava juntamente com os trovões. Meu olhar hipnotizado por aquela luz que se desmanchava como a chama da vela em meio às nuvens carregadas.
O cheiro do acabar-se invadia as minhas narinas e eu sabia que era a última noite de chuva.
Era a última noite.
Eu passara e sucumbira.
Não pensei mais em nada dali em diante.