vísperas
a manhã pode surgir borrada como esponja suja ao mar
aquela escuridão esculpida nas margens do Mar de Sargaços
trilha que o olhar perfaz do alto do morro ao longe
até onde a pena do pássaro, subitamente, cai
adia-se o patíbulo, adia-se a pichação na cela, adia-se
a execução, os anos longos que se partem como espuma
como escuma na boca do convulso, do afogado
o sangue aos borbotões do medo do hesitante
talvez o registro do vento nas retinas do cansado que salta
as pernas bambas por sobre o mormaço do asfalto que o recebe
amanhã pode sumir embaçada qual suspiro
ou desengano máximo de quem se desengana
a assinatura da sentença que veste os nós soturnos das mensagens enviadas
para casa, para as telas mudas onde vão morrer as moscas
a lama soprada durante a chuva
a mão que limpa o vidro da respiração
só para garantir o surgimento de outro sol
