Carta aberta para a Geração do Tetra.

Vocês estão matando a criatividade das nossas crianças.

Outro dia, no ônibus, ouvi dois calouros conversando. Não me entenda mal, não sou desses que ficam de butuca ouvindo a conversa alheia, mas a bateria do meu celular tinha acabado hihi.

O tema da conversa: “a vida numa agência”.

Se você é da Geração do Tetra, deve estar pensando nas barbaridades que eles estavam falando, nas irrealidades pensadas e de como eles esperavam beber Whisky e jogar Xbox o dia todo.

Aí vai uma frase com ponto de exclamação no final: você está errado!

De uns tempos pra cá, no mundo real e longe dos artigos, tenho ouvido tantas críticas ao “pensar fora da caixa”, tantas vezes a frase que “agência é só trabalho, sem brincadeira” ou “você tem essas ideias porque é novo, mas quando crescer vai ver que é bem diferente”, que chego a ficar preocupado.

A análise fria e m*rda (com o perdão da palavra) que eles fizeram, me deixou assustado. O papo deles não era nem sobre o ambiente em si, pelo visto eles já esperavam um ambiente no estilo chão de fábrica, mas era sobre a arte-de-produzir-campanhas. Nenhum dos dois trabalha na área, nenhum dos dois tem experiência com propaganda, acho difícil até que tenham pisado numa agência de publicidade. Mesmo assim proclamaram a máxima: “Não adianta chegar com uma ideia muito louca, tem que ser pé no chão”.

Pro inferno com o seu pé no chão!

Estou a pouquíssimo tempo numa agência, mas se tem uma coisa que percebi é que as ideias não são boas por serem pés no chão. Elas são boas porque são boas. Nosso chão é de carpete, temos um videogame, salas bonitas e uns Mac’s espalhados (gosto muito de lá, obrigado). Claro que não mandamos carros pro espaço ou encontramos a solução pra fome no mundo, é trabalhoso colocar uma ideia em ação. Mas elas existem e acontecem. Ponto.

Não se engane, eu sei que tenho que aprender muita, mas muita coisa. Você não precisa nem perder o seu tempo com essa risadinha no canto da boca, eu sei muito bem que não faço ideia da quantidade de coisas que eu ainda não sei. Mas é que você, Geração do Tetra, está minando a criatividade da próxima geração de publicitários.

É como se vocês tivessem assistido a vários filmes do Nolan, gostado e então quisessem fazer uma versão “sombria e realista” de tudo. Meu amigo, os filmes do Nolan são um saco!

E por onde tudo isso começa? Miseravelmente terei que responder desse jeito: do começo.

Explico. Quando eu tinha 15 anos, logo na primeira semana de aula, um professor fez um discurso sobre a vida e umas dessas bobagens sem sentido. Explicou o quanto era necessário batalhar e como o mundo era duro. É normal encontrar esse tipo de pessoa, são daquelas que passaram a vida inteira acreditando estarem certas e tendo essas certezas quebradas o tempo todo. Até que elas encontram uma realidade que convivem há um tempinho, param e pensam: “Po, agora acho que acertei. A vida é isso. Preciso espalhar pra geral”. É um tipo triste de ser humano, mas eles estão aí, então vamos conviver.

Esse professor terminou sua fala assim: “As vezes é necessário buscar um lugar nas sombras, ficar um pouquinho longe do sol, sabe? Não sonhem muito alto.”

Só lembro de ter pensado: “Cara, eu fiz 15 anos no mês passado”.

Não estou falando para você chegar no seu filho e falar que o mundo é cor de rosa e que sim, aquilo no céu é algodão doce. Estou falando que quando ele chegar na 3ª série, vai aparecer uma professora e ensinar que nuvens são zilhões de gotículas de água agrupadas na forma líquida.

O mesmo vale para os publicitários. Outro dia tivemos um evento com os alunos do curso, onde eles iam para cantar, dançar e mostrar sua arte. Um amigo meu (sim, esse parágrafo é pra você, André hihi) passou por lá, me encontrou no outro dia e disse: “O que era aquilo ontem? Por isso que esses acadêmicos chegam nas agências pensando que vai ser só festa”. Caro André e todos os outros, a realidade está muito longe disso.

Com o andar das coisas, eles vão chegar no melhor estilo-adulto-de-ser, sem inspiração, sem ideias e prontos para profissionalizarem ainda mais seus repertórios de críticas e comentários sarcásticos, enquanto cantam em coro another brick in the wall, caminhando lentamente para a máquina de linguiça.

Os mais saudosistas devem estar pensando que isso é incrivelmente bom e que ótimo que o próximo carregamento está vindo “pronto” e mais profissional. Mas é aí que você se engana, jovem adulto (Diablo Cody que me perdoe).

Você já deve ter ouvido isso, mas a inspiração funciona como uma caixa, nela você coloca todo tipo de repertório que você tem, tudo que você viu, ouviu, sentiu, leu etc. De vez em quando a caixa mistura tudo e sai uma ideia. Mas vocês, cara Geração do Tetra, estão podando essa caixa. É quase como se vocês falassem: “Vai mesmo pegar essa caixa grande? Você não vai usar todo esse espaço, pegue essa pequena aqui. Faz o básico”. O resultado não poderia ser outro.

Ao invés de ações inovadoras e campanhas realmente ousadas (ousadia & alegria), vocês terão milhões de e-mails marketing, um punhado de outdoors e posts no Facebook. Tudo porque não explicaram que o grande problema das ideias megalomaníacas dos calouros, não são ruins por serem megalomaníacas. São ruins porque, na maioria das vezes, não são inteligentes.

Claro, oportunidade para aplicar ideias criativas e revolucionárias, infelizmente, são raras. Mas elas existem sim. E se continuarem dando essas caixas minúsculas, elas serão ainda mais raras e escassas.

O básico todo mundo aprende. Pode frustrar um pouco, mas aprende. Acredite, você vai preferir alguém frustrado por não conseguir colocar todas suas ideias em prática, do que alguém conformado por não ter ideia nenhuma.

E é por isso que surge uma geração que mais reclama do que cria.

Cannes é um deleite para mim, eu analiso praticamente todas as peças e ações. Fantasmas ou não. Só buscando por ideias que sejam criativas (observem que eu disse ideias criativas, diferente de ideias boas). De vez em quando acho uma e vejo o quanto ela é simples, o quanto ela era fácil de ser pensada e isso me encanta. Adoro festivais e irei defendê-los.

Mas claro, boa parte da Geração do Tetra prefere as críticas, é mais fácil. Logo, a minha geração quer fazer igual, mostrar que estamos maduros suficientes para também fazermos críticas, batermos no peito e gritarmos: EU TAMBÉM ACHEI UMA M*RDA ESSA CAMPANHA!

Desenvolver um senso crítico, apontando vacilos, mostrando erros e criticando peças é essencial. Mas não deixem que as críticas fiquem acima das ideias. Sugiro um exercício: para cada crítica, tenha duas ideias. Não estou usando a máxima do “Faz melhor”, estou pedindo para que você realmente faça melhor, porque é necessário fazer melhor. Não deixe de criticar, mas principalmente, não deixe de ter idéias.

Então, se o seu problema é achar que a geração que está vindo só está pensando nos prêmios, fique tranquilo. A maioria, não todos, já estão pensando em como vão fazer propagandas com narrações em off, pessoas gritando para as câmeras e famílias felizes por removerem uma verruga com spray.

A primeira ideia que apresentei dentro da agência era horrível, mas criativa. Ela não foi usada e provavelmente nunca será, mas fiquei feliz por tê-la apresentado. É sempre bom ser ouvido.

Uma ideia pode ser criativa, mas ser ruim. Uma ideia pode ser clichê, mas ser boa. Porém, uma ideia também pode ser criativa e muito boa.

Continuem falando que pensar fora da caixa é loucura e passando essa imagem limitada do mundo publicitário e vocês não estarão nos profissionalizando precocemente. Pelo contrário, a maioria da Geração 7 a 1 vai continuar acreditando que tem o rei na barriga e a resposta para todas as perguntas, mas com uma grande diferença: acharão tudo isso enquanto têm ideias descartáveis e repletas de mais do mesmo.

É a morte da criatividade, não do ego .

Eu sei, nós da Geração 7 a 1 parecemos estar sempre cheios de certezas, com ares arrogantes e prepotentes (veja esse texto por exemplo), mas vocês também já foram assim. Talvez ainda sejam.

Aí vai um pedido: quebrem nossas certezas, não quebrem nossas ideias e inspirações.

Nós somos a Geração 7 a 1, mas nós também vimos o penta. Coisas boas podem aparecer, você só tem que dar um pause nessa vida sombria e realista e mandar o seu Nolan interior ir pastar.

Ta aí uma ideia criativa e muito boa.