Free azul

Fui à loja de conveniência comprar Free azul. A atendente sardenta me chamou de “meu anjo”.

— Meu anjo, é débito ou crédito?

Eu sorri. Acredito no poder da gentileza. Acredito, sobretudo, na urgência da bondade, pois a realidade é sombria. Acostumamo-nos a achar normal que boa parte do nosso dia seja composta de uma incessante timeline de reclamações, de críticas, de dedos apontados, de vozes alteradas. Talvez o “meu anjo” da atendente sardenta fosse um respiro em meio a tudo isso.

Talvez não.

Talvez ela realmente estivesse flertando comigo. Talvez o “meu anjo” significasse “tenho fome”, pois fome é a única coisa real entre duas pessoas. A fome que uma sente pela outra. Devorar e ser devorado. Qualquer outro conceito ou sentimento ou nome além da fome é forjado pelo ser humano, é falso, é apócrifo. O amor é uma invenção do homem, uma abstração, uma distração, um adorno; a fome, não. A fome é a única verdade.

Fome era o que sentia o motoqueiro atendido depois de mim. Ele comprou duas empadas de palmito e uma Coca. Enquanto eu saía da loja, ouvi a atendente sardenta chamar o motoqueiro de “meu anjo”.

— Seu troco, meu anjo.

Este Free azul pago no débito agora tem gosto de traição. Vou extravasar minha frustração no Facebook.

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