Enfim, uma hype necessária: “Outros Jeitos de Usar a Boca”, de Rupi Kaur.

O livro de poesias “Outros Jeitos de Usar a Boca é, essencialmente, sobre a vida de uma mulher. A leveza intencional com que o eu lírico trata de temas tão pesados é surpreendente. Essa leveza, a propósito, fez com que eu equivocadamente interpretasse muitos dos poemas como óbvios e simples demais. Felizmente, no decorrer da obra, essa minha interpretação é completamente desconstruída uma vez que a intenção aqui é clara: passar de forma magistral como acontece cada fase da transição do eu-lírico feminino, portanto, a simplicidade demasiada de alguns versos acaba por ser, de certa forma, grande parte da beleza do livro.
O livro é dividido em quatro capítulos e cada um deles retrata uma fase diferente. A dor, o amor, a ruptura e a cura. Sendo assim, o primeiro relata a infância e seus traumas; o segundo, os primeiros contatos com o amor desde o materno ao romântico; o terceiro, sobre as decepções cuja força foi capaz de leva-la ao seu desconhecimento e ao mesmo tempo, ao processo de autoconhecimento. E, por fim, o quarto e último, cuja intenção é mostrar o que sobrou de todo esse caminho. O que sobrou, pasmem: força, empatia feminina e amor próprio.
É interessante, por outro lado, a forma que a obra retrata tão perfeitamente alguns contrastes que ocorrem no processo de amadurecimento e até mesmo de empoderamento feminino. Por exemplo, o modo que a rivalidade feminina se transforma em sororidade, suas fases de transformação, relações tóxicas que vão das mais rasas às mais intensas, entre outros casos.
Não sei por que, mas quando decidi iniciar a leitura deste livro, esperei algo pesado carregado de erotismo e fui surpreendida positivamente. Não que o erotismo seja algo ruim — e não que a obra não possua lá a sua pitada erótica — mas é tudo tão leve e delicado (até mesmo a dor e o trauma) que eu acabei sendo pega desprevenida e gostando bastante. O que parecia ser uma daquelas obras carregadas de desgraçamentos mentais, acabou se mostrando delicadíssima e, acreditem ou não, esse é o seu gigante ponto positivo — lembrando que o eu lírico propositalmente passa leveza ao descrever seus traumas, equilibrando o pesado e o leve magnificamente.
Um ponto positivo da obra é como ela pode ser bem recebida por garotas adolescentes e de como a sua leitura tem uma grande capacidade de se tornar uma luz no fim do túnel no que diz respeito aos obstáculos do caminho da transição da infância para adolescência e juventude e todos os sentimentos obtidos como consequência, além de também ser um consolo em tantos versos, um abraço, um aviso que diz: “você não está só”. Essa iluminação acontece exatamente pelo que eu considerei demasiado simples no início da leitura do livro, antes de notar a sua importância. A linguagem de fácil acesso, ademais, além de ter grande potencial para transformar garotas, também é capaz de cativar o leitor a ler mais poesias, posto que a preferência, geralmente dos mais jovens, é por romances — acredite, também me incluo nesse grupo.
Em síntese, a hype de “Outros Jeitos de Usar a Boca” é muito necessária, posto que sua leitura é muito mais que apenas recomendável a todas as mulheres, sobretudo na fase da adolescência. Acredito que a obra seja crucial no que diz respeito não só ao nosso autoconhecimento quanto mulheres, mas também à nossa conexão de empatia umas com as outras.
