Chute.

Tive que deixar na entrada todas as bugigangas, me tomaram a cesta com suco industrializado e todos os petiscos que havia preparado.

Demorou pra chegar ali, eu já não sentia o meu próprio perfume, estava quente e nem água me ofereceram. Senti um vento desses que sopram gelados entrar por uma janela entreaberta. Eu te esperava naquela sala de iluminação girassol e foi quase como mergulhar — por alguns minutos quase me esqueci que logo mais seríamos só nós dois ali. E faltaria ar.

Eu já sabia que teria que preencher todo o espaço, você nunca foi de falar muito e aposto que me odeia, mas venho mesmo assim porque eu sei que você não tem mais ninguém.

Você entra na sala e não olha nos meus olhos, vejo você procurar algo em minhas mãos, queria poder contar que os guardas idiotas pegaram a cesta que havia preparado e que provavelmente estão comendo um pedaço da torta que eu fiz com o chocolate mais caro do mercadinho da dona Joana neste momento, que eu os odeio tanto que cheguei a me beliscar pra não sentir nada além do que posso controlar. Não digo nada e suspiro, finalmente nossos olhos se fitam e eu não sinto correr no meu corpo todas aquelas borboletas. Você está magro demais e um pouco sujo, pergunto se está tudo bem e você ri. Conto sobre os nossos filhos, mas tenho certeza que você não está ouvindo. Essa prisão não é a sua primeira jaula, a cabeça é.

Fico em silêncio e tento ler as suas expressões, você sabe que estou fazendo isso e provavelmente me odeia mais ainda. Pragueja meu trajeto banheiro-quarto, um rio. Nossos filhos, a emboscada do inimigo, o suicídio que eu impedi, os sorrisos que lhe roubei e até a sua falta de palavras.

Eu não aguento, sinto esse chute no estômago, levanto em direção a porta e sequer olho para trás.

Você sabe que eu vou voltar,

eu só tenho você.

Que azar o nosso.