Sobre a dor e o sangue vermelho e fino.

Ela queria assim: aos poucos e dolorosamente. Saboreando, enquanto ainda existe tempo e carne nesse corpo — pois ela arranca, mordida após mordida, todos os meus já tão poucos e feridos pedaços.

E eu sinto, milímetro por milímetro, segundo após segundo, a mesma dor que achei que passaria quando ela voltou.

Desejo então voltar no tempo. Construir uma daquelas máquinas não deve ser difícil: na internet tem tutorial para tudo. É só ir ligando os fios e pronto.

Então eu me jogaria de um lugar bem alto pra sentir que tô voando. Borboletas, ocitocina talvez? Penso: Será que alguém já enfiou o dedo dentro de uma boceta que voou? Presumo molhada.

Mas, de volta aos fatos: voltaria no tempo e faria qualquer coisa que prevenisse essa espécie de câncer (se espalhando sorrateiramente por todas as minhas células).

Bateria a cabeça em alguma coisa, passaria dias sem comer, desmaiaria segundos antes do dia 31 e tudo bem. De certo sentiria algum vazio, depois da volta, porque é triste perder. Sem saber o que ao certo, então: inarrável.

Melhor permanecer em silêncio,

sentindo o que jamais

jamais

Poderei descrever.

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