[Conto] — Esqueçam a Mentira

Não importa o quanto buscasse, não conseguia encontrar o significado daquela palavra:

F-I-C-Ç-Ã-O.

Soletrei baixo mesmo sabendo que não era preciso, a chuva lá fora continuava forte, o vento congelante mantinha todos da região dormindo na madrugada… E as câmeras foram desativadas depois da vitória do novo partido. Acredito que o atual seja árabe. Em alguns dias, haverá uma nova queima de livros, nada de novo após as eleições.

Só me aventurei a procurar algo sobre o assunto no intervalo entre a meia-noite e às quatro da manhã. Oficialmente, toda a parte residencial da região em que eu vivia estaria dormindo. Ainda assim, preferi ler em silêncio, contrariando a lei de sempre fazê-lo em voz alta. Mas o que aconteceria? Ainda faltavam alguns dias antes da manutenção de energia elétrica naquela casa. As câmeras ainda precisam de energia para funcionar. Logo, estou seguro.

Meus colegas acharam ridículo eu ter gasto meu dinheiro em uma casa pequena com apenas uma garagem, um quarto, um banheiro, e uma cozinha que se mesclava com a sala. A energia do local estava desativada por ser uma casa construída há mais de quarenta anos. Não se construíam mais casas minúsculas como aquelas. Os apartamentos dominavam a cidade desde o final da década do segundo milênio. E isso já faz muito tempo.

Contudo, apenas uma semana se passou desde que eu, Jonas, assinei o contrato para a compra da casa. O preço estava bem abaixo do mercado. É claro, tinha muito serviço pra se fazer ali. Aquele lugar ainda possuía alguns móveis antigos, a maior parte mofada e cheia de cupins. Livrei-me desses móveis pela coleta de recicláveis. Foi o último contato que tive com os subordinados do antigo partido. Os miseráveis devem estar procurando um novo emprego. Apenas pessoas de confiança do partido vigente podem lidar com o lixo da população. Ele diz muito sobre as pessoas. Com o final das novas eleições, muita gente perde o emprego.

Enfim, conforme fui arrumando a casa e me livrando do lixo esbarrei em uma caixa de papelão. Ela ficou em um lugar razoavelmente seco da garagem. Existia muito pó nela e notei alguns restos de giz que impediram boa parte da ação do mofo evitando que o conteúdo da caixa fosse contaminado como o restante da casa.

É claro que aquilo me chamou a atenção. O antigo morador queria proteger aquela coisa.

Porém, o que eu achei não foi nada animador…

Livros.

A caixa continha apenas alguns livros. Eu já trabalhava quase todos os dias como editor de uma das maiores imprensas do país. Editava livros didáticos e históricos, nada mal pra alguém na casa dos 20 anos, a remuneração era útil.

As capas dos meus livros de serviço costumam ser padronizadas. Não era o caso dos achados naquela caixa, isso me chamou a atenção para abrir um deles.

Não era um livro didático ou histórico. Lia-se na capa: “Contos Fantásticos do século XIX”.

Nossa! Que livro velho! Pensei, era da época em que a mentira ainda podia ser impressa. Mesmo assim, contrariando o que me foi ensinado, comecei a ler. Na primeira folha lia-se: “Gênero: Ficção”.

Eu não fazia ideia do que aquela palavra significava. Busquei meu dicionário atualizado de serviço (Tínhamos que ter um em casa, sem exceções), mesmo sabendo que ele seria editado após a nova eleição, não achei que importaria para um livro tão velho.

Já estava há minutos naquela busca e não encontrava o significado desta palavra. Decidi explorar mais a caixa. Quão surpreendente foi quando encontrei um dicionário do começo do século XXI ali dentro. A época ainda condizia quando a mentira podia ser impressa. Mas talvez um dicionário fosse menos corrompido. Espero.

Foi surpreendentemente fácil. Naquele dicionário arcaico constava:

(fic.ção) sf.

1. Ação ou resultado de fingir: Esse entusiasmo dele é só ficção.

2. Criação imaginosa, fantástica; FANTASIA: Os contos de fadas são pura ficção. [antôn.: Antôn.: realidade ]

3. Cin. Liter. Teat. Telv. Ramo de criação artística, literária, cinematográfica, teatral, etc. baseada em elementos imaginários (ficção científica; ficção policial).

4. Liter. Obra de ficção (3), esp. conto, novela, romance: Já li muitos ensaios, agora quero ler ficção

5. Liter. Toda a prosa literária de um autor, de uma época, de um país etc.: a ficção de Machado de Assis.

[Pl.: -ções.]

[F.: Do lat. fictio,onis, pelo fr. fiction.]

Ficção científica
 1 Cin. Liter. Telv. Obra de ficção baseada em parte em conhecimentos científicos ou em imaginárias possíveis consequências da evolução dos mesmos.

Ok, Ilusão, fingimento, invenção…

Ficção significa Mentira! É o sinônimo claro dela! Eu estava com um livro ilegal em mãos.

Tremi com o pensamento. A penalidade por esconder um livro corrompido como aquele era desconhecida. Não é a toa que a casa estava em mal estado, o antigo dono “desaparecera”.

Comecei a ver os outros três livros dentro da caixa. Além do primeiro e do dicionário, peguei um livro com um gato preto na capa. Constava: “Contos de horror de Edgar Allan Poe”, também de ficção. O penúltimo livro: “Contos dos Irmãos Grimm”, Ficção. E por fim: “O mundo de Sofia“, também de ficção.

Se eu escondesse aquele dossiê, podia “desaparecer” como alguns colegas meus. Caso os levasse à fogueira de amanhã e fizesse um relatório para a polícia sobre o que encontrei… Podia ganhar uma alta quantia em dinheiro.

Nenhuma das opções me impedia de lê-los, não era todo dia que se encontrava a mítica mentira impressa. Minha curiosidade falou mais alto que o medo. Passei a madrugada inteira lendo. Cochilei poucas horas. Os dias seguintes constavam como feriado programado para as famílias juntarem seus antigos livros religiosos judaicos (considerados mentira impressa após a vitória do novo partido), dicionários e outros para a fogueira do dia seguinte. Após ajeitar isso, passei o dia lendo os livros.

Confesso que foi um desafio lê-los a tempo. Eram livros enormes, havia inúmeros termos que não conhecia, não tomei banho e mal comi ou dormi.

Quando finalmente terminei, faltava apenas um dia para a fogueira. Com a cabeça completamente grogue tomei um banho pra tirar a podridão do corpo e caí sonolento na cama, nu, e de cabelo ainda molhado.

Dormi cerca de dez horas. Tendo sonhos perturbados sobre mundos com fadas, dragões, donzelas, mentes perturbadas, corvos, e crises existenciais.

Acordei suado. A caixa ainda encontrava-se ao lado da minha cama agora. Com a mente ainda grogue examinei o conteúdo final: Alguns magros jornais.

Nunca ouvi falar naquele jornal, o que não era surpresa. A imprensa em que eu trabalhava era “reformulada” de quatro em quatro anos.

Enquanto meus olhos voavam pelas manchetes notei o quanto aquele jornal era antigo, ele denunciava o primeiro governo a proibir a mentira impressa. As manchetes gritavam na minha mente. “Estão destruindo a ficção!” “O fim da fantasia causará a morte da criatividade” “É instaurada a primeira ditadura plena”. Fotos de livros sendo queimados pelo partido vigente naquela época distante (possivelmente cristão, acredito).

No último jornal havia uma crítica ao partido não religioso que se recusou a abolir a ilegalidade da ficção. Considerada como corrupção do ser humano

Tínhamos um número grande de partidos, na prática, mantinham a mesma lei primordial. “É proibida qualquer forma de mentira impressa ou digitalizada acima de cinquenta caracteres”.

O mais interessante, contudo, era o adendo no final da matéria:

“Uma vez que a ficção, filosofia e religião são constantemente omitidas ou modificadas, é claro que o Estado mantém um número de livros referentes aos assuntos iniciais intactos em sua biblioteca pessoal. A privação de conhecimento do cidadão comum não se aplicaria ao alto escalão político. Torna-se claro como a ausência de criatividade torna o ser humano manipulável.”

Aquilo fez meu corpo voltar a tremer. Eventualmente eu fazia uma entrega ao partido vitorioso. Nunca me foi permitido entrar no prédio deles…

A noite chegou e a fogueira gigantesca alimentada com os livros “mentirosos” do antigo partido queimou a noite inteira. Não tive coragem de levar os livros que encontrei na casa antiga para lá. Agora entendia o alto número de desaparecimentos entre a população que mais lia. Não nos é permitido tirar uma folga da “verdade”.

Ao chegar do meu trabalho no dia seguinte, pensei no que fazer com aqueles livros… Não os denunciaria. Tornou-se impossível me livrar daquele tesouro. Passei a compreender o desgosto com que todos executavam o extenuante trabalho na imprensa. Congelada e técnica. Quando me foi oferecido o serviço de conserto da energia pela minha empresa, consegui o prazo de uma semana pra regularizar a fiação da casa. Isso me dava mais um intervalo para não ser observado… Ainda sim só protelava o inevitável.

Em uma semana, mantive os livros escondidos. Em um mês, executei cópias dos mesmos no meu serviço, não só deles, como de outros que encontrei escondidos pela casa e os escondi em lugares bem específicos.

Eu sempre soube que fui filmado ao tirar as cópias. Assim como sei que não sabiam o que fiz com as cópias.

Em um mês e meio bateram à minha porta e me levaram embora.

Estou em uma sala que muda de cor diariamente, passo mais tempo sentindo dor do que qualquer outra coisa. O tempo passa devagar, mas a sala está sempre iluminada, logo, não sei há quanto tempo estou aqui. Podem ser dias, podem ser anos.

Apenas me pergunto se aquelas cópias que espalhei poderão trazer de volta, algo morto há muito tempo.

~ Diário do Hospício Estadual de Brasília, última página século XXII.

Conto também disponível no site: http://www.dvaneios.com/