[Conto] — (In)Existência Condicional

A jovem Mint não conseguia sentir os pés nos chão. Após o garoto que a mantinha a salvo decidir ir embora, seu mundo entrava em colapso. O motivo sempre fora um risco evidente: Paixão. Ela sabia que a partir do momento em que esse sentimento o invadisse, principalmente por outra garota ao invés da jovem, agora abandonada, a relação dos dois acabaria.

Viu o garoto partir lentamente com a dita amada, lágrimas corriam pelo seu rosto, havia sido muito tola. Quando o garoto se afastou o bastante, tornando-se apenas um ponto negro ao longe, suas irmãs a abordaram.

Elas a olhavam com censura. Como ela deixara isso acontecer? Eles tinham regras para esse tipo de coisa, e ela se recusara a seguir. Achava que as intenções do garoto o manteriam com ela para sempre. Pensou que ele nunca mudaria, mas ele mudou.

Por causa da “pena” dela aquele garoto largou tudo, e cresceu com sua “amante”, abandonando-a para sempre.

“Sempre”. Uma palavra que deveria significar tudo para ela, menos desesperança. Infelizmente, não haveria mais como se manter inteira depois do ocorrido.

A antes belíssima luz que a rodeava depois que o conhecera agora desapareceu. Tudo o que se via eram trevas, assim que o liberou para viver longe dela, sabia que estaria condenada.

Sentiu um tremor percorrer o próprio corpo, pensou com desespero se tratar de mais um terremoto, mas era apenas seu medo falando através do corpo, Mint seria julgada. As irmãs praticamente a arrastaram para o tribunal.

A sala possuía um assento maior ocupado pelo juiz cujos pelos cobriam o corpo além do esperado, até mesmo para ele. Os bancos menores que adornavam todo o tribunal eram feitos da madeira característica de sua realidade, pinheiro de tom escuro. Tratava-se de um julgamento aberto, havia mais algumas de suas colegas, poucos cidadãos comuns de seu lar e ainda outros semelhantes ao juiz, porém sem a anomalia capilar do mesmo. Tinham o índice normal de pelos para o que se espera deles.

Por fim, o júri, formado exclusivamente pelos familiares era diferente dela, as cores de seus cabelos possuíam as tonalidades esperadas, apenas Mint tinha os seus ruivos, mais para o tom de laranja do que vermelho.

O recinto permanecia imerso na escuridão, nada anormal para o momento que se encontravam. Para Mint, porém, aquilo só deixava a situação mais macabra. A sala do tribunal encontrava-se iluminada por lampiões, tochas e outros utensílios de fogo. A energia elétrica havia se esvaído após a partida do garoto.

O silêncio sepulcral na região faria Mint acreditar em uma possível sentença de morte, eles não fariam isso, fariam? Não tinha certeza…

Os rostos sérios de todos os envolvidos na sala só possuíam seu padrão quebrado pela expressão de pavor da jovem, enfim, o silêncio foi cortado pela voz firme e seca do juiz:

— Mint, você é acusada de negligência contratual. Qual a exigência da promotoria?

A promotoria era representada por uma mulher bem maior que Mint com cabelos curtos e negros, trajando um terno feminino impecável. Exceto claro, pelos sutis cortes paralelos onde lhes eram devidos.

— Pedimos a indenização vital da ré — Isso incluiria tudo o que era mais sagrado para Mint — e que seja retirada de seu cargo, pelo bem de todos…

— A defesa contesta as exigências da promotoria — interrompeu um homem careca e pouco menor que a mulher da promotoria. — Consideramos excessiva, de acordo com os direitos da ré, ela ainda mantem a possiblidade de mais dois serviços consecutivos.

— Contudo, o primeiro serviço da mesma e sua negligência custaram mais do que apenas a energia de nossa cidade. Trata-se de uma ação preventiva contra uma possível catástrofe.

— Não vai acontecer uma catástrofe! — Mint praticamente gritou do banco dos réus.

Ao perceber que poderia perder seu posto e sofrer muito mais do que o padrão, notou que não tinha mais nada a perder além da própria vida. O que era aceitável.

— Faz parte do meu serviço impedir que isso aconteça — continuou. — Posso ter sido colocada em um cargo muito importante não estando preparada, por isso dei muita liberdade ao garoto e o liberei do contrato. Isso não vai se repetir! É de meu direito mais alguma ação… Garanto que não haverá a visita de outra criança para cá sem o contrato estar selado.

Tanto a promotoria quanto o juiz espantaram-se com a ação de Mint. A ré não apenas contestava a ação do supremo tribunal como rejeitara o conselho de seu advogado de defesa ao interromper a negociação inicial do julgamento. Mint se exaltara a ponto de precisar respirar com força ao terminar de falar.

— Controle-se — o juiz, a promotoria, e o advogado de defesa falaram, não ao mesmo tempo.

Ela sempre soube que aqueles três já possuíam o veredicto antes mesmo de escolher o júri. Como pensava, não tinha nada a perder.

Após apresentadas as devidas evidências que comprovavam a negligência de Mint, o júri chegou ao veredicto.

— O clã Nivir considera a ré Mint culpada de negligência contratual. — o grupo era composto basicamente pelos familiares de Mint. Não havia muito amor fraternal que impedisse a condenação.

O Juiz tomaria a palavra agora.

Durante o julgamento a decepção que a colocou naquela situação, o garoto, foi aos poucos se mesclando em um misto de ódio. Ela não seguiu o que lhe foi ensinado ao trazê-lo pra lá. Ela o protegeu, lhe deu oportunidades… E ele escolheu a que mais lhe feriria. Talvez todos fossem como ele…

— O Supremo Tribunal sentencia a ré à condição de “existência condicional”.

Não apenas Mint, como também a promotoria, e a defesa se surpreenderam com a decisão. A mulher da promotoria foi quem se apresentou primeiramente:

— Vossa Excelência irá mesmo dar outra chance a ela?!

— Exclusivamente. Caso a ré falhe em sua condição ela passará ao estado de “inexistência” — O mais próximo de “morte” que Mint poderia ter.

O martelo do juiz anormalmente peludo foi ao chão de sua mesa. A sentença agora fora oficializada.

Poderia ser pior… Era o que passava pela cabeça de Mint.

Ignorando os olhos de todos os integrantes do supremo tribunal, Mint saiu calmamente pela porta da frente. Não apenas sua sentença, mas a atual situação de seu lar dependia do quão bem fosse em sua última chance, considerando o descrédito que ganhou com Poe, o garoto que a abandonara, não era à toa que os olhares sobre si marejassem entre o ódio e o desespero.

Quando a porta se fechou, deixou de lado o andar elegante, que combinava com seu corpo de mulher (exceto, mais uma vez pelos cortes transversais na parte de cima da roupa, onde lhes eram devidos) e acelerou o máximo que pode, saindo o mais rápido que podia das trevas que devoravam sua casa.

Precisava encontrar mais uma criança, ao relembrar sua situação com Poe lembrou-se como fora tola. Era seu primeiro serviço, não queria iludi-lo, buscou protegê-lo do contrato e atrair seu amor infantil. Amor… Crianças não amam como adultos, se por um lado isso traria certa segurança, por outro a negligência de Mint o levou a conhecer uma garota. Era proibido trazer outros para o lar de Mint, quando Poe o fez, mesmo que por fora nada mudasse, por dentro ele passou a crescer, quis amar como um adulto. Mint, tola e bondosa como era, deixou-o ir e por fim, a catástrofe começou…

Afastou as memórias de sua mente, tolices. Ela não era a mesma que trouxe Poe para perto de si. Todos deveriam ser como ele, volúveis, num momento te amam e depois te trocam por outro tipo de amor. Porém não poderia usar o artifício do medo, a distância entre o medo e a revolta é muito tênue. Sabia qual era sua função desde o começo, só que dessa vez a aceitara: iludir. Trazer uma criança e a fazer concordar com o contrato. Não era tão difícil após mostrar-lhe sua fantasia.

Chegara ao final da floresta que a separava de seu objetivo, observou o vilarejo simples à sua frente, o sol já se punha, o céu era iluminado por rajadas de cores inacreditáveis. Era isso que Mint deveria trazer para seu lar. Mint vivia em uma época quando ainda era possível enxergar inúmeras estrelas a noite.

A questão era, um garoto ou uma garota?

Mint não conseguiria suportar outro garoto, não depois do que acontecera com Poe. Contudo, uma garota seria um desafio muito maior, as crianças masculinas eram atraídas pela curiosidade, mas por algum motivo as femininas eventualmente possuíam medo assim que a viam. Precisava se controlar para parecer o “mais fofa” possível, iria levar uma menina.

Seu primeiro lampejo de sorte se apresentou: Uma criança corria para a saída do vilarejo, carregava uma trouxa de roupas e um livro de contos infantis debaixo do braço apenas.

Contos de Fadas… A jovem pensou. Muita fantasia com certeza, sabia como atrair a atenção dela.

Foi deveras fácil. Assim que a menina saiu do vilarejo Mint a abordou tão furtivamente e calorosamente… Quando se apresentou, notou os olhinhos brilhando para sua imagem. A conversa de medo sobre as garotas parecia ser outra mentira como Mint logo soube, elas eram tão curiosas quanto os garotos. Mint teve a prudência de se apresentar no início da madrugada quando notou o estômago da garota roncar. Trouxe-lhe uma fruta coberta de caramelo, uma maçã do amor. Em um vilarejo pobre como aquele, o doce seria exótico para a criança, vendo as sutis marcas de violência no corpo da jovem, sabia que ela fugia, era inocente demais para saber sobre o mundo lá fora. Talvez tivesse mais sorte com a garota…

Dessa vez fora cuidadosa o suficiente. As palavras da própria criança selaram o contrato. Quando Mint a levou para seu lar, tudo voltou a ser radiante e iluminado como antes, adorou observar os olhares de descrença de seus familiares e dos outros habitantes. Em especial da mulher que fazia parte da promotoria em julgamento.

A ilusão funcionou muito bem, enquanto a garota estivesse lá, tudo funcionaria às maravilhas.

Infelizmente, crianças não duravam muito em seu lar, eram tão passageiras para os habitantes da “casa” de Mint, quanto nos é a vida de um inseto.

O coração da garota adotada por Mint parou de bater ao término do 9 dia em seu lar.

Mint sabia que estaria sempre condenada a trazer mais crianças, que durariam 10 dias em seu mundo, quando bem resistentes. Não diferenciava mais meninos de meninas, enquanto fossem crianças entre 7 e 10 anos seriam facilmente influenciáveis, seja pela fantasia, seja por qualquer outra coisa.

Afinal, quem não seguiria uma jovem fada? Com uma beleza cativante, belas asas semelhantes a das borboletas mais raras, e que lhe convida para visitar seu tão cativante “mundo das fadas” lugar no qual a noite nunca chega. Você torna-se criança para sempre e pode fazer o que quiser… Animais falantes e criaturas fantásticas o aguardam. Basta dizer que quer visitar o lar de Mint, e seu contrato está selado, você ficará lá, imaginando-se imortal.

Claro, a última parte não é necessariamente verdade, você vive como criança, mas ao aceitar o contrato, pode envelhecer. Seu corpo continua o infantil, mas apenas na aparência já que um dia no mundo das fadas significa 10 anos no mundo humano… Você chegaria velho demais em casa se saísse do mundo de Mint. Após o 9º ou 10º dia a morte busca o fim da criança levando Mint a buscar outra presa.

Errara ao proteger Poe do contrato, ao torná-lo imortal em seu lar, por sua estúpida paixonite, fizera com que voltasse ileso ao próprio mundo, crescendo apenas quando se apaixonou por aquela humana…

Mint jamais cometeria o mesmo erro novamente, o seu lar só pode existir se uma criança acreditar e viver nele. Literalmente falando, a fé de uma criança era não só a energia do lugar. Era o que mantinha o dia eterno. A morte de todas aquelas crianças tornava o mundo das fadas imortal.

Mais do que manter seu mundo inteiro, ela não pagará uma indenização vital, algo que causaria a perda de sua natureza, tornando-a humana, algo abominado secretamente por ela.

Mint viverá para sempre, não importa quantas crianças traga ao seu lar para isso.

E assim foi, inúmeras vezes… Mint tornou-se a fada perfeita, bela, com alta capacidade de ilusão e imortal.