O DESAJEITADO DE ALGUÉM


Eu sempre fui o desajeitado de alguém, o complicado de alguém, o limitado, medroso, esquisito… Sempre uma figura faltosa em relaçao ao que pareciam esperar de mim, aquele que deixava a desejar. Nessas décadas de vida já tive muitos momentos desde encenar uma desistencia radical forçada de tentar corresponder a tais expectativas, até o esforço colossal de atingir o mérito e cumprir a moratória, passando por diversas nuances e configurações tensas entre agradar e desagradar os que me rodeavam e me eram queridos.

Com o tempo, esse conflito perdeu um pouco de força em mim, direcionei minha atenção (ou boa parte dela) para outras tarefas que considerava importante. Vez ou outra lidava com uma recaída aqui, outra ali, mas de modo geral gozava de certa tranquilidade o que me permitiu prosseguir significativamente em minha vida. Então, me vem o amor…

Que figura boba e bonita! Um amor-sedimento, muito mais num processo de detalhes compartilhados do que uma empolgação platônica. Havia gargalhadas e emaranhados de conversas; havia aconchego a quatro mãos, quatro pernas, quatro olhos, duas bocas, dois corpos. Eu e ele. Pela primeira vez não me senti em débito por ser como eu era, do jeito que eu conseguia ser. Ao contrário, eu fui transbordante e ele me deixava ser, me procurava por ser.

Era um desses momentos que passam, que a transitoriedade dos tempos inevitavelmente devora e nos sobra lidar com os restos não digeridos daqueles que se foram. Nessas horas, velhos fantasmas nos aguardam na porta de saída. Mais uma vez revejo os meus, mais uma vez resisto, luto com e contra a escassez que me constituí. Sinto tanta falta dele, mas não o busco reencontrar. Na ilusão da falta dele está a falta de mim, a falta da força de não me curvar à divida impagável. Ai como me faço falta!