RELEIA-SE

Andei relendo coisas minhas. Uma experiência engraçada, ri muito das minhas ingenuidades. Não que eu estivesse fazendo pouco delas, talvez o oposto, vi ingenuidades que foram fonte de energia, de sobrevivência, de impulso quando eles se fizeram mais necessários. Mas tal como a canoa para o viajante (de uma historieta que me contaram certa vez) só fez sentido de uma margem a outra do rio, uma hora o caminho mudou, as exigências da jornada mudaram, os cenários mudaram, os horizontes mudaram, o viajante mudou.

Todavia, lembrar do rio, da canoa e das braçadas que foram necessárias para me colocar em movimento; dos passos, pulos e escaladas que me levam pelas estradas; e do meu desejo de voar… remontam aspectos em jogo nessa jornada que mal sei para onde vai, quase errante não fossem os destinos provisórios. É tão bom ter textos para revisitar ou mesmo esbarrar como se cruzasse com conhecidos de longa data na rua, ver como mudaram e como ainda são ao mesmo tempo reconhecíveis em alguma medida.

Por isso tudo cometo o erro nada ingênuo (pelo menos hoje) de propor uma tarefa a quem se sentir convocado por minhas palavras: releia-se, releia alguns de seus textos antigos, 2014, 2011, 2005 e vai, segue relendo. Reler-se é criar um paradoxo espaço-temporal em que você pode se tornar alheio e aliado de si num mesmo corte. Ria de si, depare-se com a vergonha alheia e descontraída de quem foi; com pieguices de toda sorte; com as reviravoltas de suas linhas de pensamento; com as tragédias com as quais jogou usando palavras, vírgulas e pontos; com as misérias com que teve de lidar no curso dessa viagem cujo o princípio parece inacessível, uma infinidade de meios cheios de cortes e detours.

Um dos desafios para essa tarefa (desde já advirto) será o retorno, o retorno generoso desses encontros com os navegantes, os andarilhos, e os aviadores e compreender generosamente quem você consegue ser hoje.

Boa viagem!