Gilgamesh

O lendário rei de Uruk

Mas, Enkidu/ Nem mesmo erguia a cabeça/ Gilgamesh tocou-lhe o coração: Ele não batia mais!

Enkidu está morto, agora. A febre passou. A chuva cai, esconde as lágrimas de Gilgamesh. As lágrimas caem, molham o rosto de Enkidu. Olhos abertos — as estrelas neles. Os deuses lamentam. Gilgamesh deveria ter aprendido a não desafiá-los. Nada em excesso. Nem terras, nem fortes, nem súditos. Nada. Só a dor agora. Essa pode crescer. Os deuses permitem. Alastra-se — é fogo. Incinera-o a roupa. O peito à mostra. O grito exposto, ecoando. O espaço aberto. Perde-se na imensidão.

Então, tal como uma jovem esposa,/ Ele cobriu o rosto do amigo./ Girava em torno dele como uma águia,/ Ou como uma leoa sem seus filhotes/ Ele não parava de ir e vir/ Para frente e para trás/ Ele arrancava e espalhava o fio de seus cabelos!/ Retirava e jogava/ As belas roupas/ Como que tomado de horror…

Gilgamesh se fecha e uma só ideia o move: a imortalidade. Não poderia terminar como Enkidu. Não deveria ter amado tanto.

Então, também eu morrerei/ Terei de me parecer com Enkidu/ A angústia penetrou-me o ventre/ É por medo da morte que percorro a estepe…/ Se se pudesse/ Fechar a porta da angústia/ Se se pudesse obstruí-la/ Com betume, com asfalto!/ Mas o destino/ Não me deu saída/ Ele me dilacerou/ Infeliz que sou…

Em algum lugar mora o imortal Utanapisti e sua mulher. Quer seus segredos à todo custo. Que custo? Não foi fácil encontrá-los, mas foi impossível ter o que queria. Se era a resposta, era simples: a imortalidade só os deuses podem te dar.

"Contenta-te com essa erva, não te dará vida eterna, mas ao menos vida longa”.

Gilgamesh já sem alma, olhos cinzas. O vento passa serpenteando a mão do réprobo rei, abocanha a erva e a leva, assanhando o rio. O rei de Uruk continua seu caminho vazio. Nem beleza, nem riqueza, nem poder. Nada mais importa se a morte é certa e se aproxima. Sobre a colina, divisa tudo o que pisou até ali.

(a pedra sumeriana em que estava cunhada essa história termina bem aqui).