Resposta ao meu amigo que está na terra do gelo e do fogo

Falo ao meu amigo distante sobre como esteve minha vida nas últimas semanas enquanto ele percorria vulcões, neves e ventos de 20cm/s

Da carta do meu amigo:

No fim de 7 dias, eu sinto como se tivesse passado uma semana num retiro religioso. Eu, definitivamente, tive uma experiência religiosa. Pelo menos aquela do tipo que um ateu como eu pode dizer que teve. Sei lá! Mas, estou me sentindo muito diferente. E feliz. E estranho. O mundo é grande demais. Sei lá.

Minha resposta:

Que bom ter notícias suas! Cada comentário que eu pensei em fazer para cada parágrafo seu me pareceram mesquinhos, então eu vou destinar um parágrafo inteiro para o silêncio:

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O que mais eu poderia falar? Me sinto na obrigação de falar algo. Me perdoe. Não sei o que dizer. Estou feliz por você. Ter um amigo, assim, percorrendo esses cantos e conhecendo o espírito do não-Deus dele de outra forma que não a minha de percorrer o corpo do meu Deus é uma gratidão. Mais um parágrafo de silêncio:

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Vamos às minhas aventuras:

Pensei que ia ter de partir mais cedo da matéria. Descobri que tenho hipotireoidismo, vejam só! Logo depois, minha cunhada percebeu uma tumoração assimétrica em meu pescoço. Fiquei aflito, ela deslizava com a tireóide. Uma ultrassonografista desumana falou que era um nódulo único, sólido, heterogêneo e hipoecóico com mais de 4cm. Desumana porque quando tentei perguntar o padrão da vascularização ela disse que o meu médico não havia pedido doppler e que: “Seu exame encerra aqui”. E saiu quase que fugindo de mim.

Algumas dessas características eram de malignidade. Minha aflição foi ao espaço. Pensei no crescimento do meu filho e em todas as sabedorias que ainda não tinha dito para ele. Quis fazer mil vídeos no Youtube sobre filosofia na mesma noite, e podcasts pela madrugada, e ao final de tudo, seria tudo uma chatice, porque eu não estaria lado a lado para vê-lo descordar de mim. Por fim, não fiz nada. Os amigos tentaram me consolar falando da epidemiologia, pois todas as estatísticas pedem para o portador de nódulo de tireóide se acalmar, já que 0,04% são malignos.

Chorei por 1 hora — nem consegui segurar o choro na frente da minha sogra, que nunca me viu chorar — mas depois do plantão seguinte, duas lágrimas que caíram dos olhos, de repente, me fizeram não mais chorar. Essas duas lágrimas me trouxeram o pensamento de que o espiritismo cristão é de fato a doutrina mais paradoxal que existe. Pede para que amemos intensamente o próximo, como o fiz com meu filho, ao mesmo tempo que diz para prepararmo-nos para imortalidade, pois a vida é uma passagem. Pois, preparar para ir seria mais fácil se não nos envolvêssemos tanto com ficar por aqui. E, pelo simples fato de eu ter enxergado esse paradoxo, sem conseguir resolvê-lo, me desceu uma calma pelos ombros. Sábado seguinte, ao chegar exausto de um plantão, minha esposa ainda dormindo, fui para praia com o filho.

Havia marcado outra ultrassom seguido de punção do nódulo com um radiologista que foi meu colega de faculdade - dos melhores que conheço. Na semana em que se aproximava a ultrassom, descobrimos estar, eu e minha mulher, grávidos de novo. Não me desesperei. Fiquei estupefato por alguns minutos, quis ficar contemplando a fitinha do teste de urina. Quis guardá-la para mim, carregá-la no bolso, na carteira. Ela me desmotivou a isso. Até então, queria uma menina. A partir de então, apenas quero. Perguntaram-me: “Você quer que seja menino ou menina?”. Eu disse: “Quero que seja.” E, porque a pessoa não entendeu o ponto final, reiterei: “Quero que seja ponto.”.

Os planos futuros ficaram sem ânimo. Senti ser velho e ter ficado sábio antes do tempo. Desapego, mas amar. Ainda mantive tentando cumprir meus compromissos e, de novo, sem desespero. O que seria de minha mãe? Desejei que ela se abalasse muito, definhasse com minha morte, para que então viesse a me suceder em breve. Provavelmente meu filho cresceria bem. Está indo a todo vapor. Será que ele seria médium e Deus me concederia a dádiva de ele ficar me vendo e nós nos falando: o menino e o fantasma do pai dele? Desejei um desejo egoísta: que ele sofresse minha perda. Que a minha lembrança sangrasse por ser saudade. E… danem-se os sábios… isso é amar!

Todavia, lembrei o livro “Olhai os lírios do campo” de Érico Veríssimo, cujo protagonista percorria a própria história enquanto ia em rumo à casa em que morava a filha que não sabia ter, pois lhe foi escondido pela única pessoa que ele amou na vida, mas que levara ao túmulo o segredo sobre esse fruto do amor dos dois e de uma noite bêbada de formatura.

Lembrei, porque ele ia esquecendo o rosto dela ao final do livro. E só não tanto, porque a filha evocava os traços da mãe. Mas, como a filha tão pequena poderia se lembrar da mãe? Meu filho evoca meus traços. Mas nossas vivências seriam isso: traços na areia.

O dia da ultrassom chegou. Entre muitos não presentes, havia dois critérios de malignidade, que meu amigo eufemizou dizendo: "Trazem um cuidado maior, não é?" Eis que um dos mais experientes radiologistas da cidade entra no quarto escuro da ultrassom e bate o martelo: é benigno, é colóide. A punção do nódulo é feita, e o resultado é lançado dez dias depois. Depois de eu ter participado da festa de recepção das novas famílias da escola de meu filho, uma escola linda, cheia de arte, pessoas cantando, e ele correndo e dançando entre as pessoas. Isso era um sábado. Segunda, o resultado me vem pela internet: era benigno, pois era colóide.

Provavelmente, vou ter de tirar, já que é maior que 4cm. Contudo, não metastiza, não me consumirá. Ainda guardo um medo da cirurgia. Acho que terão de me intubar para a anestesia. E só sendo médico para saber o quanto tudo isso ainda pode dar errado. Entretanto, estou bem mais sereno e de volta a me preocupar com as coisas do mundo.

Ah! O nome do radiologista que bateu o martelo é muito simbólico para nós dois, amigo: Jesus.